No Dia Internacional das Mulheres na Ciência, celebrado no dia 11 de fevereiro, os números mostram um avanço importante no Brasil: mulheres são maioria no mestrado e no doutorado no Brasil. Publicam, coordenam grupos de pesquisa e formam novas gerações de cientistas. Ainda assim, muitas mulheres seguem sub-representadas nas bolsas de maior prestígio, nos cargos mais altos das universidades e nas decisões estratégicas sobre financiamento científico.
É nesse contraste que seis pesquisadoras brasileiras estão ajudando a definir áreas críticas do século XXI, como a inteligência artificial, agricultura sustentável, física fundamental, vigilância genômica, conservação ambiental e astrofísica computacional. A seguir, veja como essas mulheres brasileiras estão contribuindo para a ciência do futuro.
Teresa Ludermirconsolidou a inteligência artificial no Brasil antes mesmo do boom global dos algoritmos
Teresa Ludemir estra entre os cientistas mais notáveis do Brasil. Créditos: Academia Pernambucana de Ciências
Antes de modelos generativos explodirem, Teresa Ludermir já trabalhava com redes neurais artificiais no Brasil. Professora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), ela é uma das pioneiras em aprendizado de máquina no país e tem atuação consolidada em sistemas inteligentes aplicados à engenharia e à saúde.
Sua produção científica ajudou a estruturar grupos de pesquisa em IA no Nordeste e a consolidar o Brasil como produtor de conhecimento na área. Trabalhos publicados abordam temas como redes neurais, otimização e sistemas híbridos inteligentes.
Jaqueline Góes de Jesus fez o sequenciamento do coronavírus em tempo recorde
Em 2020, Jaqueline Góes de Jesus foi vencedora do Prêmio CAPES de Tese na área de Medicina II, concedido às melhores teses de doutorado defendidas, pelo trabalho Vigilância genômica em tempo real de arbovírus emergentes e reemergentes. Créditos: Wikipedia
Em fevereiro de 2020, poucos dias após a confirmação do primeiro caso de covid-19 no Brasil, uma equipe de pesquisadores conseguiu sequenciar o genoma do vírus em tempo recorde: em apenas 48 horas. Entre esses cientistas estava a biomédica Jaqueline Góes de Jesus.
Especialista em vigilância genômica, ela atua no monitoramento de vírus emergentes e no fortalecimento de redes de pesquisa na América Latina. O sequenciamento rápido do SARS-CoV-2 foi fundamental para rastrear variantes e compreender a dinâmica de transmissão no país.
Mariangela Hungria e o desenvolvimento de bactérias que permitiram ao Brasil reduzir fertilizantes químicos e economizar bilhões na agricultura
Mariangela Hungria receberá o Prêmio Mundial da Alimentação, em agradecimento a sua contribuição ao desenvolvimento de insumos biológicos para a agricultura brasileira. Créditos: Embrapa
O uso de fertilizantes nitrogenados é um dos principais custos da agricultura, além de ser uma fonte de emissão de gases de efeito estufa. A pesquisadora Mariangela Hungria dedicou sua carreira ao estudo de microrganismos capazes de fixar nitrogênio no solo de forma biológica.
Como resultado, desenvolveu tecnologias que permitem reduzir drasticamente o uso de fertilizantes químicos. Segundo estimativas baseadas em relatórios e entrevistas sobre os estudos de Mariangela Hungria, as tecnologias de fixação biológica de nitrogênio, que usam bactérias para substituir parcial ou totalmente fertilizantes químicos, já são aplicadas em mais de 40 milhões de hectares de soja no Brasil e geram economias anuais que podem chegar a cerca de US$25 bilhões para os agricultores ao dispensar fertilizantes nitrogenados caros.
Márcia Barbosa e a investigação das anomalias da água que ajudam a explicar fenômenos climáticos
Márcia Cristina Bernardes Barbosa, mundialmente reconhecida por estudos sobre as anomalias da água e por defender a inclusão de mulheres na ciência, foi considerada uma das mulheres mais poderosas do Brasil pela Forbes. Créditos: UFRGS
A água é uma das substâncias mais estudadas da ciência. Ainda assim, ainda há muito o que estudar sobre, especialmente em relação aos comportamentos considerados anormais pela física. Um exemplo é o comportamento da água, que atinge sua maior densidade não ao congelar, mas a 4 °C. Abaixo dessa temperatura, ela volta a se expandir, algo incomum do ponto de vista físico. Esse detalhe impede lagos e rios de congelarem por completo no inverno.
Márcia Barbosa, física teórica e professora da UFRGS, investiga essas anomalias usando modelos computacionais e teoria estatística. Seus estudos ajudam a compreender fenômenos que impactam desde sistemas biológicos até processos climáticos.
Juliana Hipólito e Blandina Felipe Viana: a ciência da biodiversidade que influencia políticas públicas de conservação no Brasil
Juliana Hipólito e Blandina Felipe Viana áreas relacionadas à produção de alimentos e à sustentabilidade de cadeias produtivas. Créditos: gov.br
A conservação ambiental deixou de ser apenas uma pauta ambiental e passou a integrar o debate sobre desenvolvimento econômico. A produtividade agrícola, a segurança alimentar e até a estabilidade climática dependem do equilíbrio dos ecossistemas. Pesquisadoras como Juliana Hipólito e Blandina Felipe Viana, ligadas ao Instituto Nacional da Mata Atlântica, estudam biodiversidade, polinização e dinâmica de ecossistemas, áreas diretamente relacionadas à produção de alimentos e à sustentabilidade de cadeias produtivas.
Roberta Duarte usa inteligência artificial para investigar buracos negros e explorar o que é invisível no universo
Roberta Duarte é uma astrofísica conhecida nas redes por compartilhar suas descobertas sobre o Universo. Créditos: FERNANDO SILVA/BBC NEWS BRASIL
Buracos negros não aparecem em fotografias comuns. Eles não refletem luz, não emitem brilho próprio, não podem ser “vistos”. O que os cientistas observam, na verdade, são distorções: matéria acelerando ao redor, radiação intensa, espaço-tempo sendo curvado.
É nesse ponto que a astrofísica e inteligência artificial se unem. Pesquisadoras como Roberta Duarte integram uma geração que não depende apenas de telescópios, mas de supercomputadores. Em vez de observar diretamente o objeto, elas constroem modelos matemáticos capazes de simular como um buraco negro deve se comportar, e usam algoritmos de aprendizado de máquina para comparar essas simulações com dados reais captados por observatórios ao redor do mundo.
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