Custou R$100 milhões e nenhum humano pode usar: a megaestrutura que a Califórnia construiu sobre uma rodovia movimentada

Projeto busca reduzir atropelamentos, preservar a fauna e reconectar ecossistemas separados pelo asfalto

Ponte Wallis Annenberg, construída na California. créditos: Governor Gavin Newson
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Laura Vieira

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Laura Vieira

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Jornalista recém-formada, com experiência no Tribunal de Justiça, Alerj, jornal O Dia e como redatora em sites sobre pets e gastronomia. Gosta de ler, assistir filmes e séries e já passou boas horas construindo casas no The Sims.

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Estradas são construídas para facilitar o trânsito de motoristas, encurtando caminhos, acelerando deslocamentos e conectando cidades. Mas, ao cruzarem áreas naturais, muitas rodovias acabam criando uma barreira para quem já estava ali antes: os animais. O resultado é uma convivência perigosa, marcada por atropelamentos, prejuízos ambientais e riscos também para motoristas.

Foi para enfrentar esse problema que a Califórnia decidiu investir em uma solução ecológica  milionária: um ecoduto gigantesco. Desde 2022, o estado constrói uma ponte que não foi feita para carros nem pedestres, mas exclusivamente para a travessia de animais silvestres. Orçada em cerca de US$19 milhões (aproximadamente R$100 milhões), a mega estrutura atravessa a movimentada rodovia US-101 e deve ser concluída entre setembro e dezembro deste ano, segundo informações divulgadas pelo governador Gavin Newsom.

Uma ponte que não leva pessoas, mas reconecta ecossistemas separados pelo asfalto

Batizada de Wallis Annenberg, a estrutura foi projetada para ligar duas áreas verdes separadas pela rodovia US 101 e pelo tráfego intenso: as Montanhas de Santa Mônica e a Serra Madre, na região entre Calabasas e Westlake Village, na Califórnia. Mas no lugar de concreto e grades metálicas comuns em pontes, a estrutura foi pensada como uma extensão da paisagem natural.

Por isso, quando finalizada, ela será coberta por vegetação nativa, com solo, plantas e relevo cuidadosamente moldados para que os animais atravessem sem perceber que estão passando sobre uma rodovia. A ideia é recriar um corredor ecológico contínuo onde hoje existe apenas asfalto para que os animais possam realizar a travessia em segurança

Imagens recentes da obra chamaram atenção nas redes sociais ao mostrar a estrutura ainda “incompleta”, parecendo um caminho que termina no nada. Mas essa aparência temporária faz parte do cronograma. A conexão com as margens da rodovia e a recomposição do habitat ao redor estão previstas para a etapa final do projeto.

Mortes nas estradas, bilhões em prejuízo e a aposta em uma solução de longo prazo

A urgência da obra se explica pelos números. Estimativas do 11° relatório “Atropelamentos: Um Desastre Prevenível”, da Universidade da Califórnia em Davis, apontam que quase 50.000 veados são mortos em colisões com veículos nas rodovias do estado em um ano, além de dezenas de pumas e milhares de outros animais que também perderam a vida nesses acidentes. Eles também revelaram que, em 2024, mais veados foram mortos por veículos do que por caçadores no estado.

Além do impacto ambiental, esses acidentes também têm um custo econômico alto. Estimativas do relatório indicam que colisões envolvendo animais silvestres geraram mais de R$1 bilhão em prejuízos à Califórnia apenas em 2024, considerando danos a veículos, atendimentos médicos e perdas associadas à biodiversidade.

Mas, com a nova ponte, a expectativa é que esses acidentes diminuam, beneficiando uma ampla variedade de espécies e o bolso do estado. Grandes mamíferos como pumas, coiotes e cervos devem ser os principais usuários, mas animais menores,  como coelhos, sapos, lagartos e cobras, também poderão atravessar com segurança, longe dos caminhões, carros e motos. 

O investimento foi realizado pela Comissão de Transportes da Califórnia (CTC), que destinou US$18,8 milhões por meio do Programa de Melhoria e Mitigação Ambiental. O valor é bem alto, mas aposta em salvar vidas e preservar ecossistemas, valendo a pena cada centavo. Com a conclusão do projeto, a Califórnia vai inaugurar a maior ponte de fauna do mundo. 

O Brasil também possui ecopontes para proteção de animais silvestres

Viaduto km 218 da BR-101, em Silva Jardim O viaduto foi construído para proporcionar segurança na travessia de animais silvestres na BR-101, no RJ. Créditos: Divulgação/Arteris Fluminense

Iniciativas como essa também existem no Brasil. Um exemplo foi inaugurado no Rio de Janeiro no início de 2024, o primeiro viaduto vegetado do país, construído para proteger o mico-leão-dourado, espécie ameaçada de extinção e símbolo da Mata Atlântica. A estrutura foi erguida no km 218 da BR-101, em Silva Jardim, com investimento de cerca de R$9 milhões, e conecta dois fragmentos florestais separados pela rodovia. 

Revestido com vegetação nativa e cercas de condução de fauna, o viaduto permite que os animais atravessem a estrada sem risco de atropelamento, restaurando corredores ecológicos essenciais para a sobrevivência da espécie. Ou seja, assim como na Califórnia, o Brasil também começa a apostar em soluções que unem infraestrutura e conservação ambiental.


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