O paradoxo da superproteção: ao "abrirmos caminho" para nossos filhos, estamos criando adultos que desmoronam ao primeiro sinal de problema

Superproteger crianças pequenas não é a melhor maneira de garantir um bom futuro para elas

Superproteger crianças pequenas não é a melhor maneira de garantir um bom futuro para elas.
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Fabrício Mainenti

Redator

Vivemos na era da hiperparentalidade, pois nunca houve tanta informação sobre a criação dos filhos e, paradoxalmente, nunca houve tanta culpa. Alguns pais temem que uma resposta dura, uma separação ou o tempo excessivo em frente às telas prejudiquem irreversivelmente seus filhos. Mas a verdade é que estamos protegendo as crianças em excesso.

Uma especialista

Diante dessa ansiedade, a psicóloga infantil Ana Aznar, autora de "Educar Também Significa Dizer Não", propõe uma mudança de paradigma: a parentalidade realista. Sua tese é que a superproteção está criando uma geração com baixa tolerância à frustração e que os pais precisam retomar a autoridade (não o autoritarismo). E, nesse sentido, a ciência tem muito a dizer sobre o verdadeiro peso que as decisões dos pais têm na vida adulta dos filhos.

O mito do determinismo

Uma das maiores fontes de ansiedade nesses casos pode estar na ideia de que o que acontece na infância é um destino imutável. Mas isso não é totalmente preciso. Um estudo clássico que acompanhou milhares de pessoas nascidas entre 1958 e 1970 indicou que todas as variáveis ​​da infância combinadas, como situação econômica, características familiares e saúde, explicam apenas entre 2,8% e 6,8% da variabilidade na satisfação com a vida aos 30 anos.

Isso não significa que a infância não importe; claro que importa. Evidências sugerem que o desenvolvimento humano é cumulativo e plástico, o que significa que fatores subsequentes têm um impacto maior na vida adulta. Isso se refere à adolescência, aos primeiros relacionamentos sociais e ao ambiente de trabalho, todos com peso significativo.

O paradoxo da superproteção

Embora o pretexto seja essencialmente o de evitar o sofrimento da criança, a verdade é que esse estilo parental tem efeitos colaterais significativos. Isso foi comprovado pela ciência, que constatou que a superproteção parental está positivamente associada a problemas de internalização, como ansiedade e depressão.

O mecanismo é perverso nesse caso porque, ao "limpar o caminho" de obstáculos, impedimos que a criança desenvolva sua tolerância à frustração. Estudos recentes associam a superproteção parental à menor autonomia e pior ajustamento emocional na vida adulta. Isso significa que garantir que uma criança nunca experimente frustração, mantendo-a constantemente em uma bolha, faz com que o adulto entre em colapso ao primeiro "não" na vida real, bem como no trabalho.

O problema com as telas

Atualmente, uma das grandes questões é quando dar um celular para uma criança pela primeira vez. A ciência sugere que o importante é oferecê-lo, mas também educá-la sobre seu uso desde o início.

Um estudo com a população canadense mostrou uma relação clara: ultrapassar duas horas diárias de tempo de tela recreativo está associado a uma maior probabilidade de ansiedade e dificuldades psicossociais.

A verdadeira questão

No entanto, a nuance fundamental apresentada por organizações como a Academia Americana de Pediatria é o deslocamento. O problema nem sempre são os pixels em si, mas o que a criança deixa de fazer por estar olhando para a tela: dormir menos, se movimentar menos e socializar menos pessoalmente.

A estratégia comprovada cientificamente não se resume a "tirar o celular", mas sim a "preencher a vida" com alternativas como esportes, sono e brincadeiras livres, e monitorar a qualidade do conteúdo, em vez de se obcecar com o cronômetro.

Conflito

Algo que pode estar profundamente enraizado nas famílias é a ideia de que presenciar um divórcio no seio familiar é devastador para uma criança. Mas a realidade é que o mais importante é o ambiente familiar, como aponta um estudo que analisou centenas de famílias.

Este estudo demonstrou claramente que a qualidade do relacionamento entre os pais, como o apoio mútuo e a ausência de conflitos hostis, é um indicador muito mais confiável do bem-estar infantil do que o fato de a criança viver ou não com ambos os pais biológicos.

Assim, de acordo com os dados do PMC, um lar com dois pais em constante conflito é um ambiente mais tóxico para o desenvolvimento infantil do que uma família monoparental onde reina a calma.

Imagens | Christian Mai 

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