Construída há 1.700 anos, a maior estrutura de tijolos conhecida fica no Sri Lanka

Uma estupa erguida há mais de 1.000 anos não passa despercebida em Anuradhapura

Jetavanaramaya / Imagem: erdbeernaut (CC BY-SA 2.0)
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Victor Bianchin

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Victor Bianchin é jornalista.

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Vivemos cercados por cidades cada vez mais modernas, conectadas por redes de transporte, tecnologia e serviços que parecem definir completamente o nosso tempo. No entanto, em diferentes cantos do planeta, persistem vestígios materiais de sociedades antigas que ergueram obras destinadas a durar muito mais do que aqueles que as construíram, lembrando-nos de que a ambição humana de transcender não é um traço exclusivo do presente. Algumas dessas estruturas continuam fazendo parte da paisagem cotidiana milhares de anos depois, silenciosas, mas imponentes. Uma delas se ergue em Anuradhapura, no Sri Lanka. Apesar de sua escala extraordinária, segue sendo pouco conhecida fora de seu entorno imediato.

No centro-norte da ilha, encontra-se a primeira grande capital do território e um dos lugares mais sagrados do budismo, onde a prática religiosa continua se desenvolvendo com uma continuidade pouco comum no mundo contemporâneo. Nos dias de lua cheia, peregrinos vestidos de branco percorrem descalços caminhos empoeirados enquanto os monges entoam cânticos ao amanhecer e visitantes estrangeiros se juntam a rituais que vêm sendo celebrados nesse mesmo ambiente há séculos.

Jetavanaramaya, a cúpula de tijolos que desafiou o tempo

A construção que domina esse conjunto recebe o nome de Jetavanaramaya e sua escala é difícil de assimilar sem se deter nos números. A estupa (construção budista em forma de cúpula) foi concluída por volta do ano 301 d.C., utilizando cerca de 93,3 milhões de tijolos de barro cozido, e chegou a atingir aproximadamente 122 metros de altura, uma das maiores alturas do mundo antigo. Pelo seu tamanho, quando foi concluída, chegou a figurar como a terceira maior construção feita pelo ser humano, atrás apenas das pirâmides de Gizé. Essa ambição material resume por si só a magnitude do projeto.

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O aspecto atual de Jetavanaramaya também é resultado de uma longa história de deterioração e recuperação. Após desabamentos progressivos e períodos de abandono, a estupa atinge hoje cerca de 71 metros de altura, bem distante da imagem que projetava em sua origem. Apesar dessa redução, seu volume a mantém como a maior construção de tijolos conhecida, uma escala tão extrema que, segundo uma comparação registrada em fontes históricas, seus tijolos seriam suficientes para erguer um muro de cerca de 30 centímetros de espessura e quase três metros de altura entre Londres e Edimburgo. O fato de ter permanecido coberta por vegetação durante séculos contribuiu para que essa façanha de engenharia antiga permanecesse relativamente ignorada fora da região.

Além de sua dimensão arquitetônica, a estupa fazia parte de uma organização religiosa complexa que estruturava a vida monástica ao redor. O conjunto, chamado Jetavana Vihara, foi projetado para abrigar uma ampla comunidade de monges e situar a prática espiritual em torno da presença permanente da construção principal, visível de qualquer ponto do recinto.

A escolha do tijolo como material principal condicionou completamente a logística do projeto. Diferentemente das pirâmides de Gizé, construídas em pedra, essa estupa exigiu preparar, transportar e montar milhões de peças mais vulneráveis à erosão. Vestígios de antigos fornos encontrados na região confirmam uma produção em larga escala, embora sem atribuição conclusiva à obra nem uma datação segura para o início do século 4. A mobilização da mão de obra necessária para completar a construção continua sendo um dos aspectos menos claros do registro histórico.

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Parte do mistério que envolve a estupa vem daquilo que foi encontrado em seu interior. Foram achados cofres relicários colocados em vários níveis construtivos, uma disposição que confirma sua função como recipiente de significado religioso, além de proeza técnica. Junto a eles, apareceram painéis de ouro com representações de bodhisattvas, hoje preservados no Museu Nacional de Colombo. Esse conjunto de achados fornece evidências materiais de correntes doutrinárias diversas e sugere que o local participava de redes culturais conectadas à Índia e a outras regiões do entorno do Índico.

Talvez o mais impressionante não seja apenas o fato de uma estrutura dessas dimensões ter sobrevivido por mais de 1.700 anos, mas que, durante séculos, não tenha sido erguida na região nenhuma estupa de escala comparável. Esse dado coloca Jetavanaramaya como o ponto culminante de uma tradição construtiva que depois evoluiu para outras formas e proporções. Sua presença atual lembra que sociedades muito anteriores à modernidade já eram capazes de coordenar trabalho, conhecimento técnico e crenças coletivas com uma ambição extraordinária.

Imagens | erdbeernaut (CC BY-SA 2.0) | Wimukthi Bandara (CC BY-SA 4.0)

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


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