Uma doença que se curava com casamento: conhecida como “doença das virgens”, condição misteriosa afetava jovens mulheres e desapareceu no século 20

Sintomas físicos, interpretações morais e um diagnóstico que diz mais sobre a sociedade do que sobre a doença

Obra 'Clorose' do artista catalão Sebastià Junyent. Créditos: BBC
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Laura Vieira

Redatora
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Laura Vieira

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Jornalista recém-formada, com experiência no Tribunal de Justiça, Alerj, jornal O Dia e como redatora em sites sobre pets e gastronomia. Gosta de ler, assistir filmes e séries e já passou boas horas construindo casas no The Sims.

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Entre os séculos 16 e 19, médicos europeus descreveram uma condição de saúde que afetava principalmente meninas adolescentes e jovens mulheres: palidez intensa, fadiga, apatia, falta de apetite e alterações menstruais. A doença ficou conhecida como clorose, mas ganhou apelidos mais reveladores, como “doença verde”, “febre amorosa” ou “doença das virgens”. Documentada em pinturas, textos médicos e na literatura, ela foi tratada por muito tempo não como um problema biológico, mas como um desvio do comportamento feminino. O mais intrigante é que, sem nunca ter sido oficialmente erradicada, a doença simplesmente desapareceu no início do século 20.

Conhecida como clorose, a “doença das virgens” reunia sintomas como palidez, apatia e distúrbios menstruais

Descrita em documentos médicos a partir do século 16,  a clorose era associada quase exclusivamente a mulheres jovens consideradas “apáticas” ou “melancólicas”. Os relatos da época mencionavam um conjunto recorrente de sintomas, como palidez intensa, às vezes descrita como esverdeada, fadiga constante, falta de apetite, palpitações, dificuldade para respirar, inchaço nos tornozelos e ausência de menstruação. Sem tecnologia e conhecimento suficiente para explicar esses sinais, os médicos da época classificaram a condição como uma doença “nervosa”, associada ao temperamento e à sexualidade feminina.

Hoje, historiadores da medicina e pesquisadores apontam que esses quadros provavelmente reuniam diferentes condições físicas reais, com destaque para a anemia por deficiência de ferro, além de desnutrição e problemas hormonais. Um estudo da National Library of Medicine indica que a clorose desapareceu gradualmente no início do século 20 não por ter sido erradicada, mas porque passou a ser compreendida sob diagnósticos mais precisos, à medida que a medicina avançou e as condições sociais das mulheres começaram a mudar.

Na época, porém, a explicação dominante seguia outra lógica. Médicos renascentistas acreditavam que a doença resultava da falta de atividade sexual. Por isso, o tratamento mais recomendado não envolvia medicamentos, mas comportamentos considerados socialmente adequados à epoca, como casamento, relações sexuais e gravidez. Por outro lado, a educação formal, literatura ou vida intelectual ativa eram vistas como fatores agravantes do quadro.

Vale dizer que a clorose não ficou “popular” só nos consultórios, mas no meio artístico também. Pintores europeus dos séculos 17 e 18 retrataram mulheres jovens pálidas, abatidas e introspectivas em cenas domésticas, imagens hoje associadas à clorose. Nessas obras, a doença simbolizava não apenas um estado físico, mas a ideia de fragilidade feminina, repressão emocional e desejo não realizado

A doença das virgens como instrumento de controle social e o casamento como tratamento

A Mulher Doente de Jan Steen (1663/1666). Fonte: wikicommons. A Mulher Doente de Jan Steen (1663/1666): a cena apresenta uma mulher frágil sendo cuidada enquanto um médico a observa. Fonte: wikicommons

Embora os sintomas tivessem origens físicas e sociais, a forma como a clorose foi interpretada revela o quanto moralidade e medicina estavam entrelaçadas. A condição era vista como essencialmente feminina e associada à virgindade, à repressão sexual e à ideia de que o corpo da mulher só funcionaria “corretamente” dentro do casamento

Não por acaso, médicos da época defendiam que o tratamento mais eficaz era o casamento, seguido da gravidez. O alemão Johannes Lange, ainda no século 16, afirmava que as pacientes se recuperariam ao “viver com homens e copular”, reforçando a crença de que a sexualidade feminina precisava ser regulada para garantir o equilíbrio do corpo. 

Essa medicalização do comportamento feminino não se limitou à clorose. Mulheres que fugiam das normas sociais da época, incluindo aquelas que mantinham relações homoafetivas, também foram alvo de diagnósticos e tratamentos considerados hoje absurdos, como internações, terapias coercitivas e tentativas de “correção” do desejo. Em todos esses casos, a medicina funcionou como extensão do controle social.

Felizmente, no fim do século 19, alguns médicos começaram a questionar essa visão. Segundo o estudo e da National Library of Medicine, em 1898, a ginecologista holandesa Catharine van Tussenbroek destacou que fatores sociais, como a falta de perspectivas para mulheres jovens, estavam na raiz do problema. Com o avanço dos diagnósticos médicos, a melhora na alimentação e mudanças profundas no papel social das mulheres no início do século 20, o rótulo “doença das virgens” perdeu sentido e deixou de ser utilizado. Dessa forma, os sintomas passaram a ser tratados como anemia, distúrbios nutricionais ou questões psicológicas, sem que o casamento precisasse constar como prescrição médica.


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