O trem que só parava para uma pessoa: a estação que o Japão se recusou a fechar até que sua única passageira completasse uma missão

Uma estação ferroviária sem viabilidade econômica foi mantida em funcionamento para uma aluna

Estação ferroviária  Kami-Shirataki. Créditos: Wikimedia Commons
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Laura Vieira

Redatora
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Laura Vieira

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Jornalista recém-formada, com experiência no Tribunal de Justiça, Alerj, jornal O Dia e como redatora em sites sobre pets e gastronomia. Gosta de ler, assistir filmes e séries e já passou boas horas construindo casas no The Sims.

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O Japão possui uma cultura profundamente enraizada na preocupação com o coletivo, na harmonia social e no respeito ao próximo. Esses valores, presentes no cotidiano e nas políticas públicas do país, ajudam a explicar uma decisão que parece contrariar a lógica econômica atual. Embora a história seja antiga, ela segue surpreendendo pelo caráter empático.

O episódio ocorreu na ilha de Hokkaido, em 2016, quando veio à tona que trens continuavam parando diariamente em uma estação quase abandonada apenas para garantir que uma estudante do ensino médio pudesse ir e voltar da escola. A escolha não se baseava em demanda, lucro ou eficiência operacional, mas em uma decisão deliberada de política pública e infraestrutura: preservar o acesso à educação de quem dependia daquele serviço.

Uma estação sem passageiros é mantida aberta para garantir acesso à educação a uma única aluna

No início da década de 2010, a Japan Railways, principal grupo ferroviário do Japão, já havia decidido encerrar as atividades de pequenas estações rurais no norte do país. O número de passageiros diminuiu drasticamente e os serviços de carga haviam sido suspensos, por isso, manter estações isoladas parecia economicamente injustificável. Entre essas estações estavam Kami-Shirataki, Kyu-Shirataki e Shimo-Shirataki, localizadas em áreas remotas de Hokkaido, a cerca de 1.300 quilômetros de Tóquio. 

A decisão mudou quando a operadora identificou que estudantes ainda dependiam da linha. Em especial uma adolescente do ensino médio, Kana Harada. Para ela, a estação era fundamental para que chegasse até a escola. Sem o trem, o trajeto envolveria caminhar por mais de uma hora até uma outra estação que a levasse até a escola.  

Diante disso, a empresa decidiu manter a estação em funcionamento, ajustando os horários dos trens aos horários escolares. Em alguns dias, apenas dois trens paravam ali: um pela manhã, para levá-la às aulas, e outro à tarde, para trazê-la de volta. A estação seguia aberta não por demanda, mas por necessidade.

Estação seguiu em funcionamento por anos para garantir o acesso de uma aluna à escola

Mesmo com a estação ativa, a logística era restritiva. Poucos trens circulavam por dia, o que impedia a estudante de participar de atividades extracurriculares e exigia uma rotina rígida. Em algumas ocasiões, ela precisava sair correndo da sala de aula para não perder o último trem da noite.

Ainda assim, a alternativa seria pior. A estação representava acesso à educação, algo que o governo japonês optou por preservar até o fim do ciclo escolar da jovem. Em março de 2016, com a conclusão do ano letivo e a formatura da estudante, a estação foi finalmente fechada.

Na época, a história acabou se destacando nas redes sociais e foi celebrada como exemplo de governança sensível e centrada nas pessoas. Mas também houve controvérsias na história. Relatos posteriores indicaram que a estudante não era, necessariamente, a única jovem a usar a linha ferroviária da região e que outros alunos embarcavam em estações próximas, com horários semelhantes. Mesmo assim, uma estação pouco utilizada foi mantida em funcionamento para evitar que estudantes tivessem o acesso à escola interrompido.

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