Sócrates era muitas coisas, mas, acima de tudo, era um provocador. Um dia, enquanto conversava na rua, olhou para Antístenes e perguntou: “Os amigos têm um preço, como os escravos?”
Imagino que Antístenes tenha ficado um pouco desconcertado. Mas, enfim, já sabia como o velho agia e, além disso, Sócrates não lhe deu muito tempo para pensar. Continuou falando e explicando que, enquanto um escravo podia valer duas minas, outro valia meia mina, e um terceiro, cinco ou dez. Nícias, que devia ser alguém muito conhecido, chegou a pagar um talento por um capataz para suas minas de prata.
A mesma coisa acontecia com os amigos? Parece uma pergunta simples, quase absurda. Mas tentamos respondê-la há 2.400 anos.
Antístenes, que mais tarde seria um dos fundadores da escola cínica, respondeu que, de fato, gostava de alguns mais do que de duas minas, enquanto outros não valiam nem meia mina para ele. Por outros, pagaria o que não tinha.
Naquela época, segundo os registros de obras do Erecteion, o salário diário era de um dracma. Uma mina equivalia, segundo acreditamos, a cem dracmas. Isso nos dá uma ideia do valor que Antístenes atribuía às suas amizades. Mas Sócrates não estava fazendo um inventário.
Um dos amigos de Sócrates estava passando por dificuldades. Muitas dificuldades. Os problemas financeiros o atormentavam e ele vivia angustiado. Mas Sócrates tinha muitos amigos e, em particular, um deles era amigo dos dois. Era amigo de ambos, sabia que o pobre coitado estava passando por dificuldades e, mesmo assim, fazia vista grossa.
Então, o velho filósofo armou todo aquele circo para terminar dizendo que seria conveniente que cada um examinasse a si mesmo para saber quanto valia para seus amigos e procurasse valer o máximo possível. Quem conta tudo isso é Xenofonte que, no capítulo seguinte, explica que, quando perguntaram a Sócrates como reconhecer um bom amigo, ele respondeu que era da mesma forma que se reconhece um bom escultor: não pelo que diz, mas pelas estátuas que já fez.
2.400 anos fazendo a pergunta errada
Em 2018, os psicólogos Erica Boothby e Gus Cooney colocaram desconhecidos para conversar entre si durante cinco minutos e, depois, perguntaram quanto haviam gostado um do outro e quanto achavam que o outro havia gostado deles.
Parece uma pergunta boba, mas as conclusões foram muito curiosas: sistematicamente, as pessoas agradavam mais aos outros do que imaginavam. É o que conhecemos como liking gap (algo como “lacuna de simpatia”), e não é algo restrito aos primeiros encontros. Ao que parece, em estudos com colegas de quarto universitários, essa lacuna persistiu por vários meses.
E, de fato, isso nos afeta das maneiras mais inesperadas possíveis.
O que isso tem a ver com o assunto? É que, se hoje repetíssemos o exercício de Antístenes conosco, quase certamente atribuiríamos a nós mesmos um valor menor do que aquele que os outros nos atribuiriam.
E esse erro, que não precisaria ser necessariamente ruim, atrapalha nossas relações pessoais. Como acreditamos que não valemos muito para os outros, não escrevemos, não telefonamos, não sugerimos tomar um café. Nós nos isolamos porque pensamos que não somos tão importantes para eles quanto realmente somos.
Cícero, que havia lido Xenofonte de cabo a rabo, intuiu o problema fundamental em De amicitia: só é possível pôr um amigo à prova dentro da amizade, portanto, a amizade sempre precede o julgamento. É preciso investir primeiro, e é curioso que, numa época tão obcecada por investimentos, nos esqueçamos de investir em algo tão importante.
Imagem | Wikipédia
Texto traduzido e adaptado do portal parceiro Xataka Espanha.
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