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“O amigo deve ser como o dinheiro”: a frase atribuída a Sócrates que explica por que devemos conhecer o seu valor antes de precisarmos dele

Quantos amigos você tem e com quantos realmente pode contar?

“O amigo deve ser como o dinheiro”: a frase atribuída a Sócrates que explica por que devemos conhecer o seu valor antes de precisarmos dele.
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Fabrício Mainenti

Redator

Imagine que amanhã você tenha um problema sério e precise ligar para alguém. Não estamos falando de enviar uma mensagem no grupo do WhatsApp para perguntar quem pode ajudar. Pensemos em algo mais concreto: para quem você ligaria se precisasse de dinheiro, de companhia para ir ao hospital, de ajuda em uma mudança de emergência ou simplesmente de alguém para ficar ao seu lado quando não quisesse estar sozinho?

Provavelmente, você não pensaria em todas as pessoas que conhece, mas sim em algumas poucas; é aí que ganha sentido uma frase que circula há anos atribuída a Sócrates:

"O amigo deve ser como o dinheiro; antes de precisar dele, é preciso saber o seu valor".

A comparação pode soar um pouco fria, já que, afinal, estamos falando de amizade, não de uma conta bancária. Mas, por trás dela, há uma ideia bastante simples: não deveríamos esperar estar em apuros para descobrir o quanto valorizamos uma pessoa ou quão sólida é a relação que temos com ela. No entanto, há um detalhe importante: não existe uma fonte primária que permita comprovar que Sócrates tenha dito exatamente essas palavras.

Sócrates não deixou um livro onde possamos procurar a frase

Sócrates não escreveu tratados filosóficos que tenham chegado aos nossos dias. O que sabemos sobre o seu pensamento provém principalmente de autores que escreveram sobre ele, especialmente Platão e Xenofonte.

Por isso, quando encontramos uma frase moderna atribuída a Sócrates, não basta que ela apareça milhares de vezes em sites de citações. Para saber se ele realmente a disse, precisaríamos encontrá-la em uma fonte antiga que permitisse rastreá-la.

Nesse caso, tal comprovação não é simples. A frase aparece em coletâneas modernas e em artigos sobre amizade, mas o fato de uma citação ser repetida ao longo dos anos não significa que sua autoria esteja comprovada.

Assim, é melhor adotar uma formulação mais cautelosa: trata-se de uma frase atribuída a Sócrates cuja autoria exata não podemos confirmar — e talvez isso não seja o mais importante. Afinal, a ideia que ela transmite é bastante fácil de reconhecer.

A frase compara a amizade a algo que todos compreendemos

Pense no dinheiro. Se amanhã você tiver uma emergência e precisar de 50 mil pesos (cerca de R$ 15.065), não vai construir suas economias naquele mesmo dia. O que você tem disponível naquele momento é, praticamente, tudo o que pode utilizar.

A frase propõe aplicar essa lógica à amizade. Não esperar ter problemas para descobrir em quem você pode confiar — o que também não significa transformar seus amigos em uma espécie de seguro contra infortúnios.

Não se trata de guardar pessoas para usá-las quando surgir uma emergência, mas sim de reconhecer a importância delas antes que isso aconteça. Pois, quando uma crise chega, você pode até descobrir o caráter de alguém, mas construir do zero uma relação de confiança enquanto tudo ao redor está em chamas é muito mais complicado.

A amizade não começa quando você precisa de um favor

Pensemos em uma relação que surge quase exclusivamente quando alguém precisa de algo: "Pode me emprestar dinheiro?", "Pode me dar uma carona?", "Pode me ajudar com isso?", "Pode me fazer um favor?"

Pode haver carinho entre essas pessoas, é claro. Mas, se praticamente toda a relação gira em torno do que uma pode obter da outra, há algo que não parece certo.

E, aqui, Aristóteles mostra-se ainda mais útil do que a própria frase atribuída a Sócrates. Para o filósofo grego, existem amizades baseadas na utilidade, outras no prazer e uma terceira forma que ele considerava mais completa: aquela que existe quando ambas as pessoas desejam o bem da outra pelo que ela é, e não apenas pelo que podem obter.

Dito de forma muito mais simples: não é a mesma coisa dizer "me dou bem com você porque você me convém" e "você é importante para mim, mesmo que eu não precise de nada de você". Essa diferença muda bastante a forma como podemos interpretar a comparação com o dinheiro.

No México, a psicologia também tentou medir o que significa "ter alguém"

A frase fala sobre conhecer o valor de um amigo antes de precisar dele, mas o que significa realmente ter uma pessoa em quem você pode confiar? Pesquisadores da UNAM desenvolveram uma escala para estudar o apoio social em adultos mexicanos e descobriram que não se trata apenas de receber ajuda quando surge um problema.

O estudo identificou quatro dimensões: apoio emocional, companheirismo, validação e apoio prático ou instrumental. Esta última é, provavelmente, a que mais se assemelha à imagem tradicional do "amigo que ajuda quando você precisa": emprestar dinheiro, resolver um problema ou oferecer algum tipo de ajuda concreta; no entanto, as outras três são igualmente interessantes.

Ter uma rede de apoio também significa contar com alguém que saiba ouvir, que acompanhe você e que o faça sentir-se valorizado. Isso altera ligeiramente a interpretação da frase, pois o valor de um amigo não reside apenas no que ele pode fazer por nós quando enfrentamos um problema; reside também em saber que existe uma relação sólida o suficiente para compartilhar uma preocupação, celebrar uma conquista ou simplesmente passar um tempo juntos.

“O amigo deve ser como o dinheiro”: a frase atribuída a Sócrates que explica por que devemos conhecer o seu valor antes de precisarmos dele.

O verdadeiro teste acontece quando nada acontece

Costumamos dizer que os verdadeiros amigos aparecem durante as crises e, sim, uma situação complicada pode revelar muito sobre uma relação, mas uma amizade também se constrói durante os dias em que não acontece absolutamente nada.

Quando alguém pergunta como você está sem precisar de um favor, quando se lembra de algo que você contou semanas atrás, quando se alegra por algo ter dado certo para você, quando consegue lhe dizer que você está errado sem tentar humilhá-lo.

Inclusive quando passam semanas sem se falar e a relação não desaparece por isso. A emergência pode revelar uma amizade, mas não necessariamente criá-la, e essa é provavelmente a parte mais importante de toda a frase.

Você não precisa de todos os seus contatos; precisa saber com quem pode contar

Hoje podemos ter centenas de pessoas ao nosso redor. Grupos de WhatsApp, seguidores, colegas de trabalho, antigos colegas de escola, contatos da faculdade, amigos do Facebook e pessoas com quem trocamos mensagens de vez em quando.

Mas, se algo sério acontecer amanhã, provavelmente não ligaríamos para todos; talvez nem para dez. A quantidade de pessoas ao nosso redor não indica necessariamente a quantidade de amizades profundas que construímos.

Você pode falar todos os dias com alguém e não ter confiança suficiente para contar um problema importante. Também pode passar semanas sem falar com outra pessoa e saber perfeitamente que ela estaria lá se um dia você precisasse dela; por isso, uma grande rede social não é necessariamente uma grande rede de apoio.

Também não significa colocar seus amigos à prova

É aqui que podemos cair facilmente em uma interpretação equivocada. Conhecer o valor de uma amizade antes de precisar dela não significa começar a testar as pessoas; não é preciso desaparecer para ver quem procura por você.

Você não precisa inventar uma emergência para descobrir quem o ajudaria, e também não faz muito sentido pedir favores desnecessários apenas para medir a lealdade de alguém. Isso transformaria a relação, justamente, em uma transação.

Uma amizade não precisa de auditoria. A reciprocidade existe, mas não funciona necessariamente como uma conta em que cada favor precisa ser retribuído com outro idêntico. Às vezes, você está lá por alguém; Em outras ocasiões, a outra pessoa está presente para você e, em muitos momentos, vocês não precisam de nada um do outro — e isso também é amizade.

A pergunta também funciona ao contrário

Até agora, falamos sobre: ​​"Quem estaria lá se eu tivesse um problema amanhã?" Mas existe uma pergunta muito mais desconfortável: "Para quem eu estaria lá?" Porque, se a frase fala sobre reconhecer o valor dos nossos amigos antes de precisarmos deles, ela também implica que nós deveríamos fazer o mesmo por eles.

Não esperar alguém ficar doente para perguntar como está, não aparecer apenas quando precisamos de algo, não se lembrar de uma amizade somente quando temos um favor a pedir. Uma relação sólida não se constrói acumulando favores; constrói-se com tempo, confiança, conversas e presença.

Por isso, a comparação com o dinheiro não é tão fria assim

À primeira vista, dizer que um amigo deve ser como o dinheiro parece reduzir uma relação humana a uma questão de utilidade, mas também podemos interpretar essa comparação de outra maneira.

Não se trata de pensar: "Quanto essa pessoa pode me emprestar?", mas sim: "Qual é a importância dessa pessoa para mim antes mesmo de eu precisar de algo dela?" E aí a ideia muda completamente.

A primeira pergunta fala de utilidade; a segunda fala de vínculo. Aristóteles já havia estabelecido essa diferença muitos séculos antes: uma amizade baseada apenas no que podemos obter do outro é diferente de uma relação em que ambas as pessoas desejam genuinamente o bem uma da outra.

“O amigo deve ser como o dinheiro”: a frase atribuída a Sócrates que explica por que devemos conhecer o seu valor antes de precisarmos dele.

Talvez seja por isso que continuamos falando dessa frase

Não sabemos com certeza se Sócrates disse exatamente essas palavras, mas talvez isso também explique por que a frase sobreviveu. Não precisamos acreditar literalmente que um amigo "vale" uma certa quantia em dinheiro para entender o que se quer dizer com isso. Basta imaginar aquela ligação que provavelmente todos nós já fizemos alguma vez.

A emergência chega, você precisa de ajuda e sabe exatamente para quem ligar. Não porque tenha feito uma lista de contatos de emergência, nem porque tenha colocado essa pessoa à prova.

Você sabe disso porque a relação já havia sido construída muito antes, e talvez essa seja a verdadeira ideia por trás da frase atribuída a Sócrates: não espere precisar de alguém para descobrir o valor de tê-lo em sua vida. A emergência pode revelar uma amizade, mas não pode criá-la.

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