Na maior parte do mundo, os tribunais de justiça funcionam em prédios majestosos e imponentes, funcionando como símbolos do poder e da autoridade do Estado. Mas isso não significa que a justiça precise permanecer fixa. Na China, por exemplo, ela também se desloca e, em alguns casos, a cavalo - literalmente.
No noroeste do país, em Narat, região autônoma de Xinjiang famosa por vastas pastagens, o juiz Aytnur Bolatbek lidera uma equipe judicial móvel que percorre a região para resolver conflitos no exato ponto onde eles surgem. Ligada ao Supremo Tribunal Popular, a iniciativa faz parte de um esforço nacional para levar serviços jurídicos a populações afastadas dos centros urbanos, como pastores nômades e turistas que cruzam a região durante a alta temporada.
O trabalho de Aytnur ajuda a entender como a China vem adaptando o sistema judicial para reduzir conflitos, acelerar soluções e impedir que disputas locais se transformem em problemas maiores. Tudo isso em um cenário onde as distâncias são significativamente longas e estradas precárias, com o tribunal mais próximo a centenas de quilômetros.
Justiça a cavalo resolve disputas entre pastores e turistas nas regiões mais remotas da China
Durante os meses de verão na China, que ocorrem entre junho e agosto, o fluxo de turistas aumenta e atinge seu pico na região de Xinjiang. É nesse período de maior circulação de pessoas que o juiz Aytnur Bolatbek e sua equipe são vistos com maior frequência nas pradarias de Narat. Montados a cavalo e portando o emblema oficial do Estado, eles percorrem áreas onde convivem pastores locais e visitantes vindos de diferentes partes do país para resolver potenciais conflitos.
A atuação do juiz envolve desde brigas familiares até disputas ligadas ao turismo, um setor que cresce rapidamente na região. Quedas de cavalo, desacordos sobre indenizações, danos a propriedades ou desentendimentos entre empresas de serviços turísticos e visitantes são tratados ali mesmo, sem a necessidade de longos deslocamentos ou processos demorados. O objetivo é evitar que o problema se prolongue, gere custos adicionais ou comprometa a convivência local.
Esse modelo de justiça também considera as especificidades culturais e linguísticas da região. As equipes contam com magistrados e servidores capazes de se comunicar nos idiomas dos grupos étnicos locais, o que facilita a mediação e reduz questões que poderiam agravar os conflitos. Em vez de uma abordagem puramente punitiva, o foco está na solução prática, rápida e compreensível para todas as partes envolvidas.
Juiz Aytnur prioriza a mediação antes do julgamento como ferramenta para evitar conflitos familiares e sociais no campo chinês
Juiz Aytnur Bolatbek lidera uma equipe judicial móvel para mediar conflitos em uma região afastada da China. Créditos: China Daily
Nem todos os casos envolvem turistas ou acidentes pontuais. Grande parte do trabalho de Aytnur está ligada a disputas entre moradores locais, especialmente relacionadas ao uso e à administração das pastagens, um recurso central para a subsistência das famílias da região. Em um desses episódios, o juiz foi acionado para intervir em um conflito entre dois irmãos após a morte do pai, que havia deixado indefinida a gestão da área de pasto da família.
Em vez de levar o caso diretamente a julgamento, Aytnur e sua equipe optam por uma abordagem preventiva e mediadora. Ao lado de autoridades locais e órgãos de supervisão, eles regulam o uso das pastagens, esclarecem limites legais e buscam uma solução que evite o rompimento dos laços familiares. Esse tipo de atuação ajuda a explicar por que o número de disputas resolvidas por tribunais móveis em Xinjiang cresceu rapidamente nos últimos anos, com milhares de casos.
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