Poucos sabem: a China tinha um plano 'secreto' para o Nordeste e isso foi o verdadeiro pesadelo dos EUA antes de 64

A reforma agrária e aproximação com a China colocou o Nordeste no centro da Guerra Fria e alimentou, nos Estados Unidos, o temor de uma possível porta de entrada do comunismo no Brasil

China e Brasil tabuleiro de xadrez. Créditos: ShutterStock
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Laura Vieira

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Laura Vieira

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Jornalista recém-formada, com experiência no Tribunal de Justiça, Alerj, jornal O Dia e como redatora em sites sobre pets e gastronomia. Gosta de ler, assistir filmes e séries e já passou boas horas construindo casas no The Sims.

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Em 31 de março de 1964, enquanto tropas se movimentavam entre Minas Gerais e o Rio de Janeiro para derrubar a presidência de João Goulart, um outro processo político e internacional vinha se consolidando paralelamente há alguns anos: a associação, no contexto da Guerra Fria, entre a reforma agrária brasileira e o comunismo chinês. Essa concepção conectava o sertão nordestino a Pequim, envolvendo camponeses sem terra, intelectuais brasileiros, diplomatas chineses e alimentando a paranoia anticomunista dos Estados Unidos.

Ou seja, naquele momento, o que estava em jogo não era apenas o futuro do governo do país, mas o medo dos Estados Unidos de que o Nordeste brasileiro se tornasse semelhante a Cuba. Isso porque a reforma agrária, defendida pelo líder das Ligas Camponesas, Francisco Julião, e apoiada pelo governo Goulart, passou a estruturar um discurso político que mobilizou as elites brasileiras e atraiu a atenção dos Estados Unidos. 

Entenda por que o Nordeste brasileiro virou uma ameaça aos Estados Unidos durante a Guerra Fria

Antes mesmo da Guerra Fria estourar, o Nordeste já era observado de perto pelos Estados Unidos. Isso porque a região reunia características que preocupavam o país no início dos anos 1960: pobreza extrema, concentração fundiária, analfabetismo elevado e mobilização popular crescente. Reportagens do New York Times daquele período ajudam a entender o clima. Em outubro de 1960, o correspondente latino-americano Tad Szulc descreveu um Nordeste onde até 75% da população era analfabeta em algumas áreas e a expectativa de vida mal passava dos 30 anos. Para a lógica da Guerra Fria, esse cenário era visto como um terreno possível para revoluções.

É nesse contexto que ganham força as Ligas Camponesas, lideradas por Francisco Julião, advogado pernambucano que defendia a reforma agrária e a organização dos trabalhadores rurais. O movimento, que começou localmente, logo foi enquadrado pela imprensa e por autoridades americanas como parte de uma ameaça comunista.

A resposta dos EUA a essa possível “ameaça” veio em forma de programas e presença direta. Em 1961, o presidente John F. Kennedy declarou o Nordeste uma prioridade máxima da Aliança para o Progresso, iniciativa criada para conter a influência de Cuba na América Latina. No ano seguinte, a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) instalou uma grande missão na região. Só em Recife, mais de 130 técnicos norte-americanos atuavam em projetos sociais e econômicos, com o intuito de impedir que a desigualdade rural produzisse sua "própria revolução".

Como a mídia e os serviços dos EUA ligaram a reforma agrária brasileira à China comunista?

A associação entre o Nordeste, o comunismo e a China não surgiu por acaso. Ela foi construída e amplificada pela mídia internacional e por produções audiovisuais com viés político. Um exemplo é o documentário “Brazil: The Troubled Land”, ou Brasil: A Terra Problemática, produzido em 1961 pela cineasta Helen Jean Rogers, que apresentava ligações com a CIA. Logo na abertura, Francisco Julião é apresentado ao público norte-americano como “seguidor de Fidel Castro e Mao Zedong”, líderes tratados como inimigos diretos dos Estados Unidos.

Essa narrativa também se repetia nos jornais. Tad Szulc escreveu, por exemplo, que Mao e Fidel eram vistos como heróis por camponeses e estudantes nordestinos, e destacou que Julião havia visitado a China comunista, algo que soava como um sinal de alinhamento ideológico.

Para os Estados Unidos, o problema não era apenas simbólico. Desde 1949, a República Popular da China investia em uma estratégia conhecida como “diplomacia povo a povo”, buscando laços culturais e políticos fora dos canais diplomáticos tradicionais, justamente para contornar o isolamento imposto pelos EUA. Entre 1949 e 1960, mais de 1.500 latino-americanos visitaram a China, incluindo centenas de brasileiros, como jornalistas, escritores, sindicalistas e políticos. Em plena Guerra Fria, essa movimentação alimentou as suspeitas de alinhamento e justificou as intervenções.

Entenda a aproximação entre o Brasil e a China antes do golpe de 1964

O ponto máximo dessa aproximação ocorreu em agosto de 1961, quando João Goulart, então vice-presidente do Brasil, visitou a China liderando uma missão comercial. Ele foi recebido por Mao Zedong, Zhou Enlai e Liu Shaoqi, tornando-se a autoridade latino-americana de mais alto escalão a pisar em Pequim até então.

Por essa razão, é claro que a visita do João Goulart acabou ganhando destaque internacional. O New York Times publicou alertando para a “admiração” de Goulart por Mao, mesmo ele admitindo não ser comunista. Para setores conservadores brasileiros e para os EUA, essa aproximação poderia diversificar as alianças econômicas do Brasil e reduzir a dependência dos mercados norte-americanos, o que também era visto como uma ameaça.

Além da política, essa aproximação também ocorria no campo cultural. Escritores como Jorge Amado, um dos maiores e mais reconhecidos do país, tiveram obras traduzidas e divulgadas na China, enquanto livros chineses sobre reforma agrária chegavam ao Brasil. Essa circulação de ideias, livros e pessoas contribuiu para que o alcance da reforma agrária brasileira fosse tratada como uma questão internacional.

Pouco depois, veio o golpe. As Ligas Camponesas foram proibidas, Francisco Julião cassado, e o Brasil entrou em 21 anos de ditadura militar. Segundo um estudo elaborado pelo pesquisador colaborador da Universidade de Brasília (UnB) e ex-preso político Gilney Viana, mais de 1.600 camponeses foram mortos ou desapareceram durante esse período.

Embora não tenha existido um acordo oficial entre Brasil e China naquele período, a combinação entre reforma agrária, conexões culturais e política externa independente colocou o Nordeste brasileiro sob olhares internacionais atentos. Isso ajudou a reforçar a percepção do governo dos Estados Unidos de que o país caminhava para “fora do alinhamento” esperado durante a Guerra Fria.

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