Medicamento desenvolvido pela China para tratar a Covid-19 pode virar uma arma de combate contra o vírus Nipah

Com taxa de mortalidade de até 75% e sem vacina disponível, vírus Nipah leva cientistas a reaproveitar antivirais da Covid-19 e investir em novas soluções biotecnológicas

Virus Nipah. Créditos: ShutterStock
Sem comentários Facebook Twitter Flipboard E-mail
laura-vieira

Laura Vieira

Redatora
laura-vieira

Laura Vieira

Redatora

Jornalista recém-formada, com experiência no Tribunal de Justiça, Alerj, jornal O Dia e como redatora em sites sobre pets e gastronomia. Gosta de ler, assistir filmes e séries e já passou boas horas construindo casas no The Sims.

445 publicaciones de Laura Vieira

Em janeiro de 2026, dois novos casos confirmados do vírus Nipah na Índia causaram pânico global por ser um dos agentes infecciosos mais letais já identificados pela ciência. Com taxa de mortalidade que pode chegar a 75%, sem vacina, tratamento ou cura, o vírus preocupa pesquisadores e autoridades de saúde. Apesar do temor sentido pelo vírus Nipah, vale dizer que ele não é uma novidade: ele já provoca surtos esporádicos na Ásia desde 1999. A diferença é que, desta vez, cientistas chineses descobriram que um medicamento criado para combater a Covid-19 pode se tornar uma arma contra o Nipah.

O antiviral oral VV116, desenvolvido na China durante a pandemia, mostrou bons resultados em testes laboratoriais e em animais, trazendo esperança no combate a doença. A estratégia de reaproveitar medicamentos já existentes para responder a novas ameaças virais também foi testada durante a Covid-19, quando antivirais, anticorpos e vacinas originalmente pensadas para outras doenças foram adaptados em tempo recorde. 

O vírus Nipah é considerado uma ameaça prioritária global: entenda quais são os seus riscos

Identificado pela primeira vez entre 1998 e 1999, durante um surto na Malásia, o vírus Nipah pertence à família dos henipavírus e é transmitido principalmente por morcegos frugívoros do gênero Pteropus. Nos últimos anos, ele causou surtos recorrentes em países como Bangladesh e Índia, geralmente associados ao contato com animais infectados ou ao consumo de alimentos contaminados.

Mas por que esse vírus é tão temido? O que torna o Nipah especialmente perigoso não é apenas sua alta letalidade, que varia entre 40% e 75%, mas também o tipo de doença que provoca. A infecção pode começar com sintomas respiratórios e evoluir rapidamente para complicações neurológicas graves, como encefalite, convulsões, coma e morte. Em alguns casos, os sintomas aparecem semanas após a infecção inicial, o que dificulta o diagnóstico precoce e o controle de surtos. 

Devido a esses fatores, a Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica o Nipah como uma doença prioritária para pesquisa e desenvolvimento, apesar de não existir nenhuma terapia aprovada especificamente para combatê-lo.

Remédio criado por cientistas chineses para a Covid-19 virou alternativa contra um dos vírus mais letais do mundo

Sem muito sucesso na busca por formas de tratar a doença, pesquisadores do Instituto de Virologia de Wuhan, ligados à Academia Chinesa de Ciências, decidiram testar o potencial do VV116 contra o vírus Nipah. O medicamento é um antiviral oral desenvolvido durante a pandemia e já aprovado para o tratamento da Covid-19 na China e no Uzbequistão, o que significa que sua segurança em humanos já foi amplamente avaliada.

Na  pesquisa publicada na revista científica Emerging Microbes & Infections, os cientistas observaram que o VV116 conseguiu inibir duas cepas distintas do Nipah: a variante malaia e a bengalesa, sendo esta última responsável pelos surtos registrados na Índia. Isso significa que o medicamento conseguiu inibir a replicação do vírus. Embora seja necessário entender exatamente o mecanismo de ação do medicamento contra o Nipah, tudo indica que ele atua de forma semelhante à sua atividade contra o coronavírus, interferindo na replicação viral.

Os resultados mais impressionantes vieram dos testes em animais 

Para testar o impacto do VV116 no combate ao vírus, a equipe chinesa realizou testes em hamsters dourados, muito usado em pesquisas sobre doenças infecciosas. Os resultados mostraram que uma única dose oral do medicamento aumentou a taxa de sobrevivência dos animais para 66,7% em um contexto que normalmente seria letal.

Além de reduzir drasticamente a mortalidade, o medicamento diminuiu a carga viral em órgãos críticos, como pulmões, baço e cérebro, exatamente os tecidos mais afetados pela infecção por Nipah. Por já ter um perfil de segurança conhecido, os cientistas reforçam que o VV116 poderia ser usado como medida preventiva em grupos de alto risco e como resposta rápida a surtos no futuro.

Nanocorpos, alpacas e microscopia avançada: outras tecnologias também entram na tentativa de combater o Nipah

Além dos antivirais reaproveitados, a corrida contra o Nipah também avança pela biotecnologia de ponta. Pesquisadores internacionais identificaram recentemente um nanocorpo, uma versão muito menor e mais estável de um anticorpo tradicional,  capaz de neutralizar tanto o vírus Nipah quanto o vírus Hendra, outro henipavírus altamente letal.

Produzido a partir do sistema imunológico de uma alpaca, o nanocorpo conseguiu se ligar profundamente às proteínas dos vírus, bloqueando sua entrada nas células. Por ser menor, mais resistente e mais fácil de produzir em larga escala, esse tipo de tecnologia pode se tornar uma alternativa viável em situações de emergência sanitária, como foi o caso da Covid.

Inicio