Temos medido mal a morte: a ciência acredita agora que a nossa data de validade biológica é mais hereditária do que pensávamos

Os hábitos pessoais também continuam a ser importantes para o envelhecimento

Foto: LOGAN WEAVER | @LGNWVR
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Matheus de Lucca

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Matheus de Lucca

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Editor-chefe do Xataka Brasil. Jornalista há 10 anos, entusiasta de tecnologia, principalmente da área de computação e componentes de PC. Saudosista da época em que em vez de um celular fazer tudo que se possa imaginar, tínhamos MP3, alarme e relógio.

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Durante anos, o consenso científico e a cultura popular nos repetiram um mantra tranquilizador: os genes determinam apenas 20 ou 25% da expectativa de vida. O resto recaía diretamente sobre os nossos ombros, dependendo do estilo de vida, da dieta ou mesmo do ambiente que nos rodeava. Mas este número, que correspondia a estudos antigos, mudou radicalmente.

Um estudo publicado esta semana na revista Science abalou os alicerces da biogerontologia. Liderada pelo biólogo molecular Uri Alon, do Instituto Weizmann, em Israel, a pesquisa sugere que temos subestimado enormemente o papel do DNA. Isso foi descoberto após limpar os dados do “ruído” estatístico, com uma conclusão muito categórica: a herdabilidade da expectativa de vida humana é de cerca de 55%.

A porcentagem de participação da genética atual se baseava em pesquisas realizadas na década de 90 e que tinham como chave a definição de “morrer”. Os estudos mais antigos analisavam coortes de gêmeos dinamarqueses e suecos, considerando a mortalidade como um todo. 

Assim, se um gêmeo morresse de câncer aos 90 anos e o outro fosse atropelado aos 30, a estatística interpretaria que a genética tinha pouca influência.

Mas agora, a equipe de Alon aplicou um novo modelo matemático para separar dois conceitos que costumavam se misturar. Um deles era a mortalidade extrínseca, ou seja, as mortes causadas por fatores externos e aleatórios, como acidentes, pandemias ou guerras.

Por outro lado, temos a mortalidade intrínseca, que é o verdadeiro envelhecimento biológico e que não se deve a um acidente, mas ao “desgaste” do organismo com o passar do tempo. Assim, ao eliminar o ruído da mortalidade extrínseca dos dados históricos, o peso da genética começa a disparar.

O novo estudo, publicado no final de janeiro, não se baseia apenas em uma simulação, mas analisou décadas de registros. Por um lado, foram reanalisados os dados de gêmeos nascidos entre 1870 e 1900, que são os estudos originais onde se contabilizava o fator extrínseco. Ao eliminá-lo, novamente a correlação genética se tornou muito mais forte. 

A equipe cruzou seus modelos com dados de irmãos de 444 centenários americanos, confirmando que a longevidade extrema se agrupa em famílias muito mais do que o acaso ou o ambiente compartilhado poderiam explicar. Dessa forma, o estudo corrige o que os especialistas chamam de vieses de estimativa anteriores. Ou seja, os números de 20-25% não estavam errados em si, mas incluíam muita “má sorte”.

O fato de o peso da genética ser muito maior do que pensamos não significa que devemos abandonar a academia e a dieta equilibrada. Embora a genética determine 55% do envelhecimento, a outra metade continua sendo determinada pelo ambiente e pelo estilo de vida. E isso deve continuar sendo mantido.

Por outro lado, isso tem implicações enormes para a medicina personalizada. Se a “data de validade” dos nossos tecidos está mais programada do que pensávamos, as terapias antienvelhecimento devem se concentrar muito mais em editar ou modular essa carga genética, e não apenas em nos dizer para comer mais vegetais (o que também é importante).

Imagem de capa:| LOGAN WEAVER | @LGNWVR 


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