Nem todo mundo gosta: alguns cérebros não sentem prazer com música, mesmo com audição e emoções em perfeito estado

O fenômeno se chama anedonia musical

Cérebro e música
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Vika Rosa

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Vika Rosa

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Jornalista com mais de 5 anos de experiência, cobrindo os mais diversos temas. Apaixonada por ciência, tecnologia e games.


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Para a maioria das pessoas, a música é uma fonte quase automática de prazer: ela emociona, anima, conecta e até ajuda a atravessar momentos difíceis. No entanto, existe um pequeno grupo de indivíduos para quem ouvir música é uma experiência completamente neutra. Não há arrepio, alegria, vontade de dançar ou sensação de conforto. Esse fenômeno é conhecido como anedonia musical específica e tem intrigado a neurociência há mais de uma década.

Segundo pesquisadores da Universidade de Barcelona, pessoas com anedonia musical possuem audição normal e são capazes de sentir prazer em outras atividades, como comer, socializar ou ganhar dinheiro. O que falha, nesse caso, não é o ouvido — mas a comunicação entre regiões do cérebro. Estudos publicados na revista Trends in Cognitive Sciences, do grupo Cell Press (link no primeiro parágrafo), mostram que o sistema auditivo não se conecta de forma eficiente ao circuito de recompensa, responsável por gerar sensações de prazer.

Quando o cérebro ouve, mas não recompensa

Exames de neuroimagem revelam que indivíduos com anedonia musical reconhecem melodias, ritmos e harmonias sem dificuldade. Ainda assim, ao ouvir música, apresentam baixa ativação nas áreas cerebrais ligadas à recompensa — as mesmas envolvidas no prazer associado à comida, ao sexo ou à arte. 

Curiosamente, essas regiões funcionam normalmente quando o estímulo prazeroso não é musical, como ao ganhar dinheiro em um jogo. Isso indica que o problema não está no sistema de recompensa em si, mas na falta de “conversa” entre ele e as áreas que processam o som.

Para identificar essa condição, os pesquisadores desenvolveram o Barcelona Music Reward Questionnaire (BMRQ), um questionário que mede o quanto a música é recompensadora em cinco dimensões: emoção, regulação do humor, movimento físico, interação social e interesse em buscar novas experiências musicais. Pessoas com anedonia musical tendem a pontuar baixo em todas elas.

Existe alguma causa aparente?

Os cientistas acreditam que fatores genéticos e ambientais influenciam essa desconexão. Estudos com gêmeos sugerem que até 54% das diferenças individuais no prazer musical podem ser explicadas pela genética. Ainda assim, o prazer não é algo binário: ele existe em um espectro.

Essa descoberta vai além da música. Os pesquisadores defendem que o mesmo modelo pode ajudar a entender outras formas específicas de anedonia, como a falta de prazer com comida ou atividades sociais. 

No futuro, compreender essas conexões cerebrais pode abrir caminhos para novos tratamentos — e mudar a forma como entendemos o prazer humano. Este tipo de estudo pode auxiliar com questões ainda mais profundas, como a depressão.

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