Achávamos que a nova geração era progressista até uma pesquisa com 23 mil pessoas provar que a juventude atual quer forçar as mulheres de volta à submissão

Estudo indica crescimento de ideias conservadoras entre jovens e alerta sobre retrocesso nas relações de gênero

Homem E Mulher Brigados
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Laura Vieira

Redatora
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Laura Vieira

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Jornalista recém-formada, com experiência no Tribunal de Justiça, Alerj, jornal O Dia e como redatora em sites sobre pets e gastronomia. Gosta de ler, assistir filmes e séries e já passou boas horas construindo casas no The Sims.

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Ao longo de vários anos, mulheres têm lutado para conquistar espaço e garantir direitos básicos. No entanto, mesmo com muita batalha e avanços importantes, o machismo nunca deixou completamente de existir, e parece estar mudando de forma. A expectativa era de que as novas gerações, especialmente a Geração Z, representassem uma virada definitiva rumo à igualdade. Mas uma pesquisa mostra que a realidade pode ser bem diferente.

O levantamento, conduzido pela Ipsos em parceria com o Instituto Global de Liderança Feminina da King’s Business School, ouviu cerca de 23 mil pessoas em 29 países. E o dado que mais chama atenção vem justamente dos mais jovens: 31% dos homens da Geração Z afirmam que a esposa deve obedecer ao marido. Além disso, 33% acreditam que o homem deve ter a palavra final em decisões importantes, enquanto 24% dizem que mulheres não deveriam parecer independentes demais.

Pesquisa mostra que jovens homens da Gen Z apoiam ideias conservadoras sobre gênero e visões mais tradicionais sobre o papel das mulheres

O mundo está diante de um movimento inesperado de retrocesso, não necessariamente nas leis ou nos direitos conquistados, mas na forma como as novas gerações enxergam as relações entre homens e mulheres. Em um momento em que a igualdade de gênero parecia avançar, parte dos jovens, especialmente homens, pode estar resgatando visões mais tradicionais sobre papéis sociais. Pelo menos é isso o que afirma a pesquisa realizada pelo Instituto Global de Liderança Feminina da King's Business School.

Mas não é apenas o resultado da pesquisa que surpreende, mas a origem: a geração que cresceu conectada na internet, em meio a diferenças e exposta a debates sobre diversidade e igualdade, é a mesma que apresenta opiniões consideradas mais conservadoras sobre gênero. Mas o curioso é que, ao mesmo tempo em que muitos jovens demonstram visões progressistas, existe uma pressão social percebida, especialmente entre homens, para se encaixar em papéis tradicionais. Isso inclui a expectativa de liderança masculina nas relações e a ideia de que homens que se envolvem nos cuidados dos filhos seriam “menos masculinos”, uma opinião compartilhada por 21% dos entrevistados da Geração Z.

Outro dado da pesquisa reafirma esse pensamento. De acordo com a pesquisa, 57% desses jovens acreditam que a luta por igualdade de gênero passou dos limites e que hoje acaba prejudicando os próprios homens. Esse sentimento aparece com mais força na Geração Z do que entre os Millennials, sugerindo uma mudança na forma como essa geração enxerga os avanços sociais recentes.

Redpill, masculinismo e a nova narrativa sobre relações de poder

Quando se aprofunda na análise por trás dos dados, a situação fica ainda mais preocupante. A pesquisa revela uma mudança cultural perigosa e silenciosa, com foco na misoginia, o ódio disfarçado de autoajuda e a negação da igualdade de gênero. Nos bastidores da internet e também fora dela, cresce uma onda de discursos que questionam diretamente os avanços das mulheres e defendem a retomada de papéis tradicionais de poder.

Esse movimento não surge do nada. Ele se conecta a comunidades e conteúdos que ganharam força nos últimos anos, especialmente nas redes sociais. Um dos exemplos mais é o chamado “redpill”, termo que nasceu no filme Matrix e foi ressignificado para representar um suposto “despertar” sobre as dinâmicas sociais e de gênero.

Mas o que ele defende? O redpill reúne ideias que defendem uma visão hierárquica das relações entre homens e mulheres. Parte desse discurso sustenta que os homens teriam perdido espaço com os avanços femininos e que seria necessário recuperar uma posição de controle, seja nos relacionamentos, na vida social ou no campo econômico.

Essas narrativas costumam valorizar o ideal do “macho alfa”, com foco em dominância, controle emocional e liderança, ao mesmo tempo em que criticam o feminismo e desencorajam demonstrações de vulnerabilidade. Em muitos casos, relações passam a ser vistas como disputas de poder, onde é preciso “vencer” o outro.

Especialistas alertam que esse tipo de conteúdo, disseminado em vídeos curtos, fóruns e plataformas digitais, cresce entre jovens que se sentem inseguros ou deslocados diante das transformações sociais. Ao oferecer respostas simples para frustrações reais, essas comunidades acabam reforçando estereótipos e distorcendo o debate sobre igualdade. 

Casos recentes ajudam a ilustrar os riscos por trás da popularização desses discursos, mostrando como essas ideias podem extrapolar o ambiente digital e ganhar contornos concretos. Em um episódio ocorrido no Rio de Janeiro, jovens acusados de violência sexual chamaram atenção não apenas pelo crime, mas pelos símbolos e referências associados a esse universo. Ao se entregar à polícia, um dos envolvidos, de 19 anos, usava uma blusa com a frase “regret nothing” (“não se arrependa de nada”). A expressão é popularizada por Andrew Tate, influenciador conhecido por disseminar conteúdos misóginos e promover uma visão extrema de masculinidade, frequentemente associada a discursos de dominação e desprezo pelas mulheres. A seguir, confira os principais riscos associados a esse pensamento: 

  • Violência de gênero e misoginia: discursos que reforçam a inferiorização feminina podem alimentar agressões físicas, psicológicas e sexuais;
  • Radicalização e extremismo: comunidades online podem evoluir para grupos mais extremos, como incels, que promovem ódio e, em casos extremos, incentivam violência;
  • Difusão de discursos autoritários: defesa de papéis rígidos de gênero e rejeição à igualdade de direitos;
  • Assédio online: mulheres que criticam esses movimentos frequentemente se tornam alvo de ataques, ameaças e campanhas de difamação

Diante disso, os dados da pesquisa deixam de ser apenas estatísticas e sinalizam uma transformação perigosa, especialmente para as mulheres. Mais do que um retrocesso de pensamento, o que se observa é uma disputa sobre o significado de igualdade e sobre qual será o papel de homens e mulheres nas próximas gerações.


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