Algumas empresas existem há tanto tempo que sua história não é mais contada apenas por meio de grandes lançamentos de produtos, aquisições ou disputas comerciais. A história também se revela nos pequenos detalhes, naquelas cenas aparentemente insignificantes que, vistas com a vantagem da retrospectiva, acabam explicando uma era melhor do que muitas declarações oficiais. Microsoft e IBM pertencem a essa categoria. Seus caminhos se cruzaram quando o computador pessoal ainda estava definindo muitas de suas regras, e algumas dessas discussões, mesmo as mais banais, revelaram algo mais profundo do que uma simples diferença técnica.
A cena foi recuperada por Raymond Chen, um engenheiro veterano da Microsoft que esteve envolvido na evolução do Windows por mais de três décadas e que, durante anos, compilou algumas das histórias mais curiosas do ecossistema Windows e Microsoft em "The Old New Thing". Chen não apresenta o episódio como uma experiência pessoal, mas como a lembrança de um colega que foi designado para os escritórios da IBM em Boca Raton, Flórida, durante a colaboração entre as duas empresas no OS/2.
OS/2 foi muito mais do que apenas mais um nome perdido na história do software. A IBM e a Microsoft apresentaram o OS/2 em 1987 como um sistema operacional projetado para a linha IBM PS/2, com o objetivo de levar o PC além das limitações do DOS, com uma base mais moderna e ambições condizentes com um mundo da computação que começava a olhar para além das fronteiras. A colaboração surgiu de um acordo de desenvolvimento conjunto assinado em 1985, quando o projeto ainda não se chamava OS/2. Nesse contexto, qualquer decisão sobre a interface poderia ter tido um peso maior do que parece hoje, pois muitas convenções do PC moderno ainda estavam sendo estabelecidas.
Duas empresas muito semelhantes e também muito diferentes
O problema é que essa colaboração uniu duas empresas em estágios de desenvolvimento muito distintos. A Microsoft ainda era uma empresa jovem, muito focada em software e em uma forma de trabalho mais direta, enquanto a IBM chegava com décadas de história, uma estrutura enorme e o peso de uma cultura corporativa muito mais consolidada. Chen resume isso como um choque de percepções: a Microsoft via a IBM como presa a uma burocracia sem sentido, e a IBM via a Microsoft como um bando de hackers indisciplinados. A nuance da questão é importante: provavelmente havia alguma verdade em ambas as interpretações.
A história começa em Boca Raton, onde um colega de Chen trabalhava nos escritórios da IBM. Em certo momento, surgiu uma discussão sobre qual tecla deveria ser usada para navegar entre os campos das caixas de diálogo. O engenheiro da Microsoft tomou uma decisão que hoje nos é quase imperceptível, pois está muito arraigada: usar a tecla Tab para a função. A IBM não se convenceu com a escolha e pediu que o assunto fosse encaminhado ao supervisor do engenheiro em Redmond, uma reação que já indicava que a discordância ia além da própria tecla.
Em Redmond, a solicitação não foi considerada um assunto que justificasse um encaminhamento mais detalhado. O supervisor do engenheiro respondeu com uma ideia muito clara: se a Microsoft havia enviado alguém a Boca Raton, era para que pudessem resolver decisões como essa lá. Traduzindo para um tom mais institucional, a mensagem que retornou à IBM foi que a Microsoft apoiava a escolha da tecla Tab. A reação da IBM foi justamente a oposta. Em vez de encerrar a discussão, a empresa a escalou em sua própria cadeia de comando até um vice-presidente, vários níveis acima daqueles que de fato programavam.
A IBM não apenas escalou a discussão, como também queria uma resposta no mesmo nível hierárquico. Se seu vice-presidente era contra o uso da tecla Tab, a Microsoft precisava encontrar alguém equivalente para argumentar o contrário. O colega de Chen então respondeu com uma frase maravilhosa, traduzida aqui para o português: "A mãe de Bill Gates não está interessada na tecla Tab". Foi uma maneira bastante sutil de dizer que isso não justificava uma escalada maior. Não havia necessidade de chegar ao topo da Microsoft para decidir como alternar entre campos em uma caixa de diálogo.
A frase funcionou, pelo menos segundo o relato de Chen: aparentemente, após essa resposta, a discussão terminou e Tab continuou sendo a tecla escolhida para navegar entre os campos. O detalhe é curioso porque hoje em dia quase ninguém para para pensar nisso: simplesmente pressionamos Tab e esperamos que o cursor pule para o próximo espaço disponível. Mas houve uma época em que essa convenção não era tão rígida. E o que vemos nesta história é justamente isso: uma pequena decisão de interface que se tornou um campo de batalha entre costumes, hierarquia e critérios técnicos.
A data exata, no entanto, não aparece no relato de Chen. Sabemos que o episódio pertence aos anos de colaboração entre a Microsoft e a IBM em torno do OS/2, cujo acordo de desenvolvimento conjunto data de 1985 e cujo lançamento público ocorreu em 1987. Isso nos permite delimitar o contexto, mas não precisar o dia ou o ano do debate sobre a tecla Tab.
Há muitas decisões por trás dos produtos e serviços que usamos diariamente. Algumas são enormes e visíveis, mas outras passam despercebidas: uma tecla, um gesto, uma convenção de interface que aprendemos uma vez e repetimos por anos sem questionar sua origem. Muitas dessas histórias certamente têm um contexto, embora a maioria nunca venha à tona, e outras não sejam particularmente interessantes. De vez em quando, porém, surge uma anedota como esta, oferecendo-nos um vislumbre de algo que quase nunca vemos: como as coisas são conduzidas dentro das empresas que desenvolvem a tecnologia que usamos.
Imagens | Kaatvrtg (Wikimedia Commons)
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