Achávamos que o vício em apostas era apenas falta de controle até a psiquiatria revelar o que os aplicativos fazem com o seu cérebro

Dopamina, impulsividade e compulsão: o que os aplicativos de aposta fazem com o cérebro de milhões de brasileiros

Jogos de aposta
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Laura Vieira

Redatora
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Laura Vieira

Redatora

Jornalista recém-formada, com experiência no Tribunal de Justiça, Alerj, jornal O Dia e como redatora em sites sobre pets e gastronomia. Gosta de ler, assistir filmes e séries e já passou boas horas construindo casas no The Sims.

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Jogos de aposta nunca foram exatamente uma novidade. Loterias, cassinos, jogo do bicho, bingo, pôquer e corridas de cavalo sempre existiram, explorando um sentimento muito humano: a expectativa de ganhar um bom dinheiro, mas sem precisar fazer muita coisa. A diferença é que, agora, as apostas podem ser realizadas a qualquer hora do dia, em qualquer lugar do mundo. 

Com a explosão das bets e dos cassinos digitais nos últimos anos, apostar deixou de exigir deslocamento, dinheiro em espécie ou até um horário específico. Hoje, basta abrir o celular para receber estímulos constantes de ganho rápido, bônus, notificações e jogos que funcionam em ciclos acelerados. Essa facilidade transformou a aposta em algo permanente e acessível, impulsionando uma popularização quase instantânea desse mercado e, junto dela, um aumento preocupante dos casos de dependência.

O problema cresceu tanto que o próprio Ministério da Saúde passou a tratar o vício em apostas como questão de saúde pública. Em 2026, o órgão lançou um guia nacional para orientar o atendimento de pessoas com problemas relacionados aos jogos online dentro do SUS, reconhecendo oficialmente os impactos das apostas na saúde mental, nas relações familiares e na vida financeira dos brasileiros.

Segundo especialistas, o perfil dos casos também mudou nos últimos anos. Se antes o transtorno aparecia mais associado a apostas presenciais, hoje os aplicativos ampliaram a exposição constante ao jogo e facilitaram o acesso compulsivo às apostas digitais.

Para entender o que realmente acontece no cérebro de quem desenvolve esse transtorno, e por que as apostas online parecem potencializar o vício de forma tão intensa, conversamos com a psicóloga Amanda Garcia Dantas, doutoranda da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), e o psiquiatra Dr. Almir Marcelo C. F dos Santos, formado na Universidade Federal Fluminense (UFF), que explicaram como os aplicativos exploram mecanismos cerebrais ligados à recompensa, impulsividade e compulsão.

Apostas online provocam no cérebro um efeito semelhante ao observado em outros vícios compulsivos 

pessoa comemorando O cérebro do apostador entra em um ciclo químico de recompensa

Os jogos de aposta online deixaram de ser vistos apenas como entretenimento inocente. Hoje, a psiquiatria já entende que o transtorno do jogo funciona de maneira muito semelhante a outros vícios, como dependência de álcool, nicotina e drogas. Não é atoa que a condição já possui reconhecimento oficial na Classificação Internacional de Doenças (CID) e vem sendo tratada como um problema de saúde pública. A diferença é que, no caso das apostas, não existe uma substância química externa entrando no organismo, pois o estímulo vicioso acontece devido ao próprio comportamento do indivíduo.

Mas o que explica o vício? Quando a pessoa aposta e recebe uma recompensa, mesmo que pequena, o cérebro libera instantaneamente a dopamina, neurotransmissor ligado à sensação de prazer e satisfação. O mesmo acontece com outras atividades que trazem esse sentimento, como relações sexuais ou comer algo gostoso. E é exatamente aí que o problema está: os aplicativos de aposta foram desenhados justamente para manter esse circuito ativado o máximo possível.

Isso acontece porque as plataformas trabalham com recompensas rápidas, muitos estímulos visuais, notificações e promessas frequentes de ganho. Aos poucos, o cérebro começa a associar a aposta à sensação de alívio, prazer ou excitação. Marcelo explica que esse processo pode transformar rapidamente uma atividade casual em comportamento compulsivo:

“Os aplicativos potencializam o vício pela disponibilidade e pela velocidade dos ciclos.”

Os aplicativos potencializam o vício porque eliminam pausas e limites

A grande diferença entre os jogos de aposta tradicionais e as bets atuais está na velocidade e na disponibilidade da oferta. Antigamente, aqueles que queriam apostar, precisavam sair de casa para jogar, encontrar um local e esperar o resultado de uma aposta. Agora, tudo acontece em frações de segundos e em qualquer dispositivo que esteja conectado à internet.

Ou seja, diferente dos cassinos tradicionais, as bets passaram a funcionar dentro do celular, acessíveis a qualquer hora do dia e em poucos segundos, sem uma pausa entre uma aposta e outra. Isso acaba transformando o jogo em um estímulo constante na rotina do usuário. Com isso, a pessoa perde dinheiro e imediatamente recebe outro incentivo para continuar tentando. Em muitos aplicativos, esse ciclo entre perder e apostar novamente leva menos de um minuto. 

Amanda explica que o jogo funciona como um alívio emocional temporário e que, com o tempo, o cérebro passa a exigir apostas cada vez mais frequentes para produzir o mesmo efeito emocional. Isso acontece porque o jogo oferece um alívio emocional rápido, mas temporário, fazendo o cérebro buscar novas apostas de forma repetitiva:

“O jogo, nesses casos, entra como um anestésico. Enquanto a mente está focada nas cartas, nos números ou nas odds, ela não precisa estar em contato com o que dói.”

Além disso, os próprios aplicativos utilizam algoritmos que prendem a atenção do usuário por mais tempo, oferecendo bônus, notificações e recompensas variáveis que aumentam a sensação de expectativa constante. Como consequência, o cérebro entra em um estado contínuo de antecipação, e é essa expectativa que mantém o comportamento ativo, mesmo quando as perdas financeiras começam a se acumular.

Por que o apostador continua jogando mesmo depois de perder dinheiro? 

Um dos mecanismos mais perigosos do vício em jogos de azar é o chamado “perseguir perdas”. Funciona assim: a pessoa perde dinheiro, sente frustração, ansiedade ou culpa, mas acredita que uma nova aposta pode resolver tudo rapidamente. O problema é que o cérebro já está operando sob impulsividade e forte ativação emocional, então tomar uma decisão racional acaba sendo mais difícil. Amanda explica que muitos pacientes descrevem a sensação de acreditar genuinamente que “a próxima aposta” finalmente vai recuperar todo o prejuízo anterior:

“Perseguir perdas é o critério que melhor marca a transição do jogo recreativo para o jogo patológico. A lógica é simples na descrição, mas perturbadora na prática. O jogador que perde não para. Ele aposta mais para recuperar o que perdeu.”

Segundo a psicóloga, o cérebro passa a desenvolver uma distorção cognitiva muito específica, em que o indivíduo acredita que a persistência será recompensada e que, depois de tantas perdas, uma grande vitória inevitavelmente virá.

“É como se fosse uma espiral, em que cada perda intensifica a necessidade de apostar, que produz mais perdas, que intensifica mais a necessidade.”

Enquanto isso, áreas cerebrais ligadas ao autocontrole e à resolução de problemas passam a funcionar de maneira menos eficiente. O resultado é um ciclo emocional extremamente desgastante: perda, ansiedade, nova aposta, pequena recompensa ocasional e mais perda. É por isso que muitos jogadores continuam apostando mesmo quando já estão endividados ou comprometendo necessidades básicas da própria rotina.

Mentiras, isolamento e impulsividade: confira quais são os sinais de alerta

pessoa apostando As apostas online podem ativar mecanismos cerebrais semelhantes aos observados em outros vícios compulsivos

O transtorno do jogo raramente afeta apenas o dinheiro. Conforme o vício avança, muitos jogadores começam a esconder as perdas financeiras, mentir para familiares e se isolar socialmente. Isso acontece porque o comportamento compulsivo costuma vir acompanhado de vergonha, culpa e medo de julgamento. Ao mesmo tempo, existe uma necessidade intensa de continuar apostando. Marcelo explica que esse padrão é muito comum nos casos mais graves e que o vício costuma provocar mudanças profundas no comportamento e na relação do indivíduo com as pessoas ao redor:

“O que vemos com frequência é uma mudança progressiva no comportamento da pessoa. Ela começa a esconder apostas, minimizar prejuízos, mentir sobre dívidas e até manipular situações financeiras para continuar jogando. Muitos pacientes passam a viver em função da próxima aposta.”

Segundo o psiquiatra, esse processo costuma acontecer de forma silenciosa, o que faz com que familiares e amigos percebam o problema apenas quando os impactos emocionais e financeiros já estão muito avançados. Entre os principais sinais de alerta estão:

  • Necessidade de apostar valores cada vez maiores;
  • Tentativas frustradas de parar;
  • Irritação quando não consegue jogar;
  • Insônia e ansiedade constantes;
  • Mentiras frequentes sobre dinheiro;
  • Isolamento social;
  • Uso de empréstimos para continuar apostando;
  • Prejuízo no trabalho e nas relações pessoais.

Em muitos casos, o transtorno também aparece associado a ansiedade, depressão, TDAH e outros problemas de saúde mental.

Jovens e pessoas emocionalmente vulneráveis estão entre os grupos de maior risco

Os jogos de aposta online podem ser feitos por qualquer pessoa, mas especialistas alertam que adolescentes e jovens adultos estão entre os grupos mais vulneráveis ao desenvolvimento do transtorno, principalmente pela exposição precoce aos aplicativos. Isso porque o cérebro ainda está em desenvolvimento nessa fase da vida, especialmente nas áreas relacionadas ao controle de impulsos e tomada de decisão.

Além da idade, fatores emocionais também aumentam o risco de desenvolver compulsão por apostas. Marcelo explica que algumas pessoas apresentam maior vulnerabilidade ao vício:

“Qualquer pessoa pode desenvolver, mas podemos considerar como sendo fatores de risco: a pessoa ter uma impulsividade natural (um traço de personalidade), ou a pessoa já ter Transtorno Bipolar ou TDAH (Déficit de atenção/hiperatividade), ou quando a pessoa tem um início precoce no jogo e uma exposição constante ao jogo (problema do chamado ‘marketing agressivo’).”

Segundo especialistas, ansiedade, depressão, histórico de outras dependências e dificuldades emocionais também podem fazer com que as apostas sejam usadas como uma tentativa de aliviar sofrimento psicológico ou escapar temporariamente da realidade.

Como é feito o tratamento para vício em apostas? 

Tratar qualquer tipo de vício nunca é simples, e com as apostas online isso fica ainda mais complicado porque o estímulo está disponível o tempo inteiro, dentro do celular. E apesar de ainda existir muito preconceito sobre o tema, o transtorno do jogo já é reconhecido oficialmente pela psiquiatria como uma condição de saúde mental. Hoje, o tratamento pode envolver terapia cognitivo-comportamental, acompanhamento psiquiátrico, grupos de apoio e, em alguns casos, medicação para controle da impulsividade e da compulsão.

O próprio Ministério da Saúde já reconhece o avanço dos casos relacionados às apostas online e lançou novas estratégias dentro do SUS para ampliar o atendimento desses pacientes, incluindo um guia nacional voltado ao cuidado de pessoas com problemas relacionados aos jogos de aposta. Marcelo explica que o crescimento dos casos se tornou perceptível nos consultórios nos últimos anos:

“Antes eram mais casos de apostas presenciais em corridas de cavalo ou jogos (presenciais) de bingo, baralho ou pôquer. Porém, desde a legalização das apostas esportivas virtuais, temos visto muitas pessoas em situação econômica arruinada pela busca desenfreada desses jogos.”

Mas interromper as apostas é apenas uma parte do processo. Amanda explica que a recuperação costuma ser mais difícil justamente depois que o jogo sai da rotina do indivíduo. Segundo ela, muitos pacientes precisam lidar com um vazio emocional importante, já que a aposta ocupava um espaço constante na vida, tanto emocional quanto comportamental.

Além disso, o tratamento frequentemente envolve reconstruir vínculos familiares abalados pelas mentiras, dívidas e manipulações causadas pelo transtorno. Amanda também alerta que o apoio da família pode ajudar ou piorar a situação dependendo da forma como acontece. Em muitos casos, familiares acabam pagando dívidas, encobrindo problemas financeiros ou tentando proteger o jogador das consequências do vício, algo que, sem perceber, pode acabar mantendo o transtorno ativo. Por outro lado, confrontos agressivos, cobranças excessivas e humilhações também tendem a aumentar o isolamento, a culpa e a vergonha, sentimentos que frequentemente alimentam ainda mais o comportamento compulsivo. 

Outro desafio do tratamento é o endividamento. Mesmo quando a pessoa consegue parar de apostar, as dívidas continuam existindo e podem manter o sofrimento psicológico ativo por muito tempo. Por isso, Amanda explica que a recuperação mais eficaz costuma envolver não apenas acompanhamento psicológico e psiquiátrico, mas também reorganização financeira, suporte familiar e estratégias práticas para limitar o acesso constante aos aplicativos.

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