A Michelin acertou em cheio ao desenvolver o Uptis (acrônimo para "Unique Puncture-proof Tire System", ou Sistema Único de Pneus à Prova de Furos): pneus sem ar. À prova de furos, resistentes a impactos, ecológicos, conectados e livres de manutenção, esses "pneus" prometem ser uma solução ideal para a mobilidade sustentável.
Embora nenhum veículo de passeio os utilize atualmente, eles têm uma aplicação vital no setor militar: o Michelin Tweel — uma fusão das palavras inglesas tire (pneu) e wheel (roda), já que combina pneu e roda em uma única unidade.
Em combate, um veículo parado é um veículo destruído
Não importa quanta blindagem pesada seja instalada na carroceria de um veículo tático sobre rodas — variando de Humvees a pequenos buggies de operações especiais, ATVs e UTVs — sua capacidade de sobrevivência no campo de batalha depende da manutenção do contato com o solo.
Um único disparo de fuzil de assalto, um furo acidental ou estilhaços de mina extremamente afiados podem imobilizar um veículo ao destruir a câmara de ar de um pneu convencional.
No entanto, um pneu do tipo Tweel consegue absorver múltiplos impactos de balas ou fragmentos de granada em seus raios de poliuretano e continuar rodando com capacidade total, pois os raios intactos redistribuem o peso mecanicamente.
Além disso, por não conterem ar, a banda de rodagem se molda aos obstáculos de uma maneira que um pneu inflado não consegue, aumentando significativamente a tração em inclinações íngremes, sem o risco de o pneu se soltar da roda (deslocamento do talão).
A inovação por trás desses pneus reside na eliminação completa do ar pressurizado, substituído por uma estrutura em rede de raios feitos de resina de poliuretano altamente flexível e aço de alta resistência. Esses raios se deformam para absorver impactos, assim como o ar comprimido faz. Isso oferece extrema durabilidade em zonas de combate — uma capacidade já testada com sucesso em simulações.
A principal limitação é que eles não suportam pesos superiores a 20 toneladas, embora vários exércitos e fabricantes de ponta já estejam utilizando ou testando ativamente veículos táticos leves, como os modelos norte-americanos Polaris MV850 e Polaris DAGOR.
Esses pneus também são utilizados em veículos táticos leves de operações especiais (ATVs/UTVs) e em certas plataformas robóticas terrestres de médio porte. O Departamento de Defesa dos EUA avaliou extensivamente essa tecnologia por meio de programas como o Combat Capabilities Development Command Ground Vehicle Systems Center.
Até mesmo fabricantes de pneus como a Hankook (com seu sistema iFlex) colaboraram com o Ministério da Defesa da Coreia do Sul para testar essas rodas em plataformas robóticas multiuso de patrulha de fronteira na Zona Desmilitarizada.
Se é tão bom, por que não o utilizamos em nossos carros?
Apesar de suas propriedades físicas, o Tweel não é comercializado para carros de passeio de alta velocidade devido ao atrito interno e à dissipação de energia. Em velocidades de rodovia superiores a 100 km/h, a flexão constante dos raios de poliuretano gera um calor extremo que degrada o material.
Além disso, o design de raios abertos cria ruído aerodinâmico significativo (assobio) e vibrações difíceis de isolar dos passageiros. Atualmente, seu uso limita-se a velocidades baixas ou moderadas (geralmente abaixo de 60–80 km/h) em setores específicos:
- Máquinas industriais e de construção: minicarregadeiras operando em áreas de demolição repletas de escombros e metais;
- Máquinas agrícolas e de paisagismo: cortadores de grama profissionais com raio de giro zero;
- Veículos militares e veículos leves fora de estrada: quadriciclos (ATVs) e veículos de operações especiais que exigem mobilidade garantida em combate, independentemente de danos às rodas.
Imagens | Michelin, Wikipedia/Carnegie Mellon University
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