Søren Kierkegaard decifrou o maior dilema humano: "A vida só pode ser compreendida olhando para trás, mas só pode ser vivida olhando para frente"

Filósofo dinamarquês explicou por que só conseguimos entender muitas das decisões da vida quando elas já ficaram para trás

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Natália P. Martins

Redatora

Escrita no século XIX, "A vida só pode ser compreendida olhando para trás, mas só pode ser vivida olhando para frente", do filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard a continua extremamente atual. 

Ela descreve um paradoxo que praticamente todas as pessoas experimentam. Somente depois que os acontecimentos passam é que conseguimos entender por que determinadas escolhas fizeram sentido, mas, no momento de decidir, nunca temos acesso a esse conhecimento.

Frase resume um dos principais conceitos do existencialismo

A citação aparece na obra Diários (Journals), escrita por Kierkegaard ao longo de sua vida.  Sua principal preocupação era entender como os seres humanos tomam decisões em um mundo onde não existe um roteiro pronto.

Segundo Kierkegaard, a razão consegue organizar os acontecimentos apenas depois que eles já ocorreram. Ao olhar para o passado, é comum perceber relações de causa e efeito que antes pareciam invisíveis.

Enquanto isso, para o filósofo, o futuro funciona de maneira completamente diferente: ele exige escolhas sem garantias.

Por isso, viver significa aceitar que nunca haverá informações suficientes para eliminar totalmente o medo de errar.

Só entendemos muitas escolhas quando elas já passaram

Segundo Kierkegaard, a ideia de "olhar para trás" não significa viver preso ao passado. O pensador acreditava que a experiência humana produz significado apenas com o tempo. 

Um relacionamento que termina, uma mudança de carreira ou uma decisão importante podem parecer incompreensíveis quando acontecem. Apesar disso, anos depois, muitas pessoas conseguem enxergar como aquele evento influenciou toda a trajetória seguinte.

Esse fenômeno também é estudado pela psicologia moderna. Pesquisadores chamam esse processo de retrospective coherence — ou coerência retrospectiva —, uma tendência natural do cérebro de organizar acontecimentos passados em uma narrativa lógica. 

Em outras palavras, nossa mente constrói uma história que faz o passado parecer mais previsível do que realmente era.

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A ansiedade faz parte da liberdade

Kierkegaard também foi um dos primeiros filósofos a tratar a ansiedade não apenas como um sofrimento, mas como consequência natural da liberdade.

Na obra O Conceito de Angústia (1844), ele argumenta que a angústia surge justamente porque somos livres para escolher.

Quanto maior o número de possibilidades, maior também a responsabilidade por decidir.

Em vez de enxergar esse sentimento como um defeito, Kierkegaard acreditava que ele faz parte da própria condição humana. A ansiedade seria o preço da liberdade.

Por que essa frase continua tão atual?

Em uma época marcada por excesso de informações, comparações constantes nas redes sociais e pressão para fazer sempre a escolha "certa", a reflexão de Kierkegaard continua relevante porque lembra uma verdade simples: ninguém consegue prever a própria vida. As explicações quase sempre chegam depois.

O filósofo propõe que compreender o passado é importante para aprender com a experiência, mas insiste que isso não deve impedir o movimento em direção ao futuro.

Em outras palavras, é impossível viver esperando que todas as peças do quebra-cabeça estejam montadas antes da próxima decisão.


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