85% dos brasileiros têm medo de golpes online, mas quase metade compra sem verificar o site

Levantamento sobre comportamento de compra no Brasil aponta que a urgência das ofertas por tempo limitado faz o consumidor pular etapas de verificação, mesmo sabendo que os golpes existem.

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Vinicius Braga

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Vinicius Braga trabalha há mais de 20 anos com conteúdo digital. Sempre foi um entusiasta da tecnologia e sempre acreditou que inovação não é só sobre máquinas ou códigos, mas sobre pessoas. No Xataka Brasil, usa suas experiências com mídia digital, dados e inteligência artificial para aproximar o público das grandes transformações do mundo tech e mostrar como o futuro já está acontecendo e pode ser acessado por todos.

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Quase metade dos consumidores brasileiros, 47%, já finalizou uma compra durante uma promoção-relâmpago sem verificar se o site era seguro. O dado vem de um estudo divulgado pela empresa de cibersegurança Akamai, e ganha peso quando colocado ao lado de outro número do mesmo levantamento: 85% dos entrevistados dizem ter receio de fraudes online.

Ou seja, o medo existe. Ele só não sobrevive ao cronômetro.

A urgência funciona porque o cérebro não gosta de perder

O mecanismo é conhecido pelo varejo há décadas e ganhou escala no ambiente digital. Uma oferta com prazo curto transforma a decisão de compra em uma decisão de não perder. O tempo dedicado a olhar o endereço do site, conferir o cadeado da conexão ou desconfiar de um preço fora da curva simplesmente não cabe na janela.

Segundo o estudo, quase 80% dos consumidores afirmam que ofertas-relâmpago recebidas por e-mail, aplicativos ou marketplaces influenciam fortemente suas decisões. E o comportamento se concentra em datas específicas: os entrevistados atribuem à Black Friday mais de 40% de suas compras anuais, e ao período de festas de fim de ano quase 25%.

São exatamente os momentos em que o volume de transações explode, e em que uma página falsa passa mais facilmente por legítima no meio do ruído.

Metade dos entrevistados troca dado pessoal por desconto

O levantamento aponta ainda que 51% dos consumidores compartilhariam dados pessoais em troca de benefícios como desconto ou frete grátis. É um número que ajuda a explicar por que golpes de coleta de dados funcionam tão bem no Brasil: eles não precisam invadir nada. Basta oferecer algo em troca.

Entre os fatores que mais pesam na decisão de compra, o estudo lista ofertas promocionais (25%), variedade de produtos (22%) e conveniência (20%). Quase 90% dos entrevistados dizem ser influenciados por avaliações positivas de outros clientes, e mais de dois terços, por conteúdo de marcas nas redes sociais.

Vale registrar que avaliação de cliente é justamente um dos elementos mais fáceis de fabricar em uma loja falsa.

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Compra no celular, pagamento instantâneo, reversão difícil

O comportamento de compra brasileiro é descrito no estudo como mobile first: 41% dos entrevistados usam o smartphone como principal canal em lojas, marcas e marketplaces. E 80% pagam com cartão de crédito ou Pix.

A combinação importa para o tema segurança. O Pix é um sistema de pagamento instantâneo, o que significa que a transferência é liquidada em segundos e não tem o mesmo mecanismo de contestação que existe em uma compra no cartão. Quando o dinheiro sai, sai. Isso reduz o atrito da compra legítima, mas também reduz a janela para perceber e reverter uma fraude.

As categorias mais compradas no último ano, segundo o estudo, foram roupas e vestuário (64%), beleza e cuidados pessoais (49%) e eletrônicos (31%).

Três em cada quatro já foram vítimas ou conhecem alguém que foi

O estudo indica que quase 75% dos entrevistados relataram ter sofrido fraude ou conhecer alguém afetado. Entre os incidentes citados, aparecem compras que nunca foram entregues (46%), golpes com falso atendimento ao cliente (41%) e clonagem de cartão de crédito (29%).

A pesquisa menciona ainda o comprometimento de dispositivos ou celulares, atribuído a "quase metade" dos entrevistados, mas sem o percentual fechado que acompanha os demais itens da lista. É um dado que merece leitura mais cuidadosa até que a metodologia completa seja divulgada.

Já o risco que mais assusta é o acesso não autorizado a contas bancárias, apontado por 45%.

O que o consumidor quer é que a plataforma cuide disso por ele

Talvez o achado mais revelador do estudo esteja nas expectativas. Perguntados sobre quais proteções querem das empresas, os entrevistados pediram notificações de transação em tempo real (67%), políticas claras de reembolso em caso de fraude ou cobrança duplicada (57%) e autenticação em dois fatores nos pagamentos (53%).

A leitura é direta: o consumidor não pretende ficar mais atento. Ele quer que a segurança aconteça sem que ele precise fazer nada. E, na prática, isso empurra a responsabilidade para o lado de quem opera a plataforma, não para quem clica.

"As decisões de compra são cada vez mais influenciadas por estímulos em tempo real, como avaliações de clientes e ofertas por tempo limitado. Esses fatores encurtam o caminho até a compra e criam um senso de urgência em momentos importantes para o varejo. Por isso, as marcas precisam equilibrar velocidade e confiança para permanecer competitivas e, ao mesmo tempo, proteger os consumidores durante os períodos de maior demanda", afirma Fernando Serto, Field CTO da Akamai para a América Latina.

Para Serto, "embora a conscientização sobre fraudes esteja aumentando, a evolução do comportamento dos consumidores continua introduzindo novas vulnerabilidades ao longo do processo de transação digital".

O próximo teste é em novembro

A Black Friday de 2026 vai encontrar um consumidor brasileiro que já sabe que os golpes existem, já foi vítima ou conhece quem foi, e mesmo assim tende a comprar mais rápido do que consegue verificar. O estudo não descreve um problema de informação, e sim de arquitetura: enquanto a urgência for a principal ferramenta de conversão do varejo digital, ela vai continuar sendo também a principal porta de entrada da fraude. Quem vende tem os próximos meses para decidir se trata segurança como custo ou como parte do produto. Quem compra, por ora, segue sendo a última linha de defesa de um sistema que foi desenhado justamente para não deixar tempo de pensar.

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