Em 1962, os EUA detonaram uma bomba atômica no espaço para criar uma "barreira" antimísseis. O resultado foi um caos elétrico a mais de 1.000 km de distância

O que aconteceu em 1962 não pode se repetir. Por isso, um cientista do MIT idealizou uma forma de detectar armas nucleares no espaço

Starfish Prime
Sem comentários Facebook Twitter Flipboard E-mail
victor-bianchin

Victor Bianchin

Redator
victor-bianchin

Victor Bianchin

Redator

Victor Bianchin é jornalista.

2163 publicaciones de Victor Bianchin

Em 9 de julho de 1962, uma aurora surgiu nos céus do Havaí, de Tonga e de Samoa. Era estranho que esse fenômeno se formasse tão longe dos polos, embora a experiência tenha mostrado que isso não é impossível. Ainda assim, nesse caso, as auroras não foram causadas por uma tempestade solar, mas pela Starfish Prime, um experimento dos EUA que deu errado. Muito errado.

Basicamente, os EUA decidiram lançar uma bomba atômica no espaço para ampliar o cinturão de radiação natural que envolve a Terra e, assim, criar uma barreira contra mísseis soviéticos. Conseguiram alterá-lo, sim, mas não da forma que esperavam. Além disso, acabaram danificando sistemas elétricos, satélites e redes telefônicas, provocaram apagões a mais de 1.000 quilômetros de distância e chegaram até a levantar preocupações sobre a saúde dos astronautas que viajariam à Lua sete anos depois.

Como consequência desse incidente, foi assinado um acordo internacional para proibir a realização de testes nucleares na atmosfera, no espaço sideral e no fundo do mar. Desde então, todos os países têm cumprido esse tratado. Ainda assim, há cientistas que não confiam que isso continuará sendo respeitado, por isso elaboraram um plano curiosamente relacionado a Starfish Prime.

Starfish Prime

O projeto Starfish Prime consistiu na detonação, em órbita baixa da Terra, de uma ogiva nuclear de 1,44 megaton. Em outras palavras, foi usada uma bomba 100 vezes mais poderosa do que a lançada sobre Hiroshima. O objetivo era expandir o cinturão de Van Allen, uma região formada por enxames de partículas altamente energéticas carregadas eletricamente, presas pelo campo magnético da Terra. A ideia era que, ao expandir esse cinturão, seria possível inutilizar mísseis soviéticos considerados uma ameaça ao país. O objetivo foi alcançado, mas as demais consequências foram graves demais para que a experiência voltasse a ser repetida.

A quantidade de radiação no cinturão de Van Allen aumentou. Em 1969, quando os astronautas da Apollo 11 viajaram à Lua, ainda havia um leve aumento nos níveis de radiação que eles poderiam absorver durante a viagem até o satélite natural da Terra. Foram realizados diversos estudos para avaliar se isso representaria um risco sério à saúde da tripulação, mas concluiu-se que o perigo era administrável. Assim, a missão foi mantida.

Em 1963, os EUA, o Reino Unido e a União Soviética assinaram o Tratado de Proibição Parcial de Testes Nucleares, comprometendo-se a proibir testes nucleares na atmosfera, no espaço sideral e no fundo do mar. Mais tarde, em 1967, foi assinado o Tratado do Espaço Exterior, por meio do qual as grandes potências estabeleceram regras para a exploração e o uso do espaço.

Desde então, não há registro de que armas nucleares tenham sido enviadas ao espaço. Ainda assim, alguns cientistas não confiam que todos os países estejam cumprindo o acordo. Um deles é Areg Danagoulian, do MIT, cuja proposta para resolver esse problema é, no mínimo, curiosa.

Espalação de nêutrons

A proposta de Danagoulian consiste em aproveitar um fenômeno chamado espalação de nêutrons, no qual partículas de altíssima energia fazem com que núcleos atômicos expulsem nêutrons. E onde encontramos partículas carregadas com tanta energia? Justamente no cinturão de Van Allen.

O cientista do MIT acredita que, se um satélite transportando um dispositivo nuclear atravessar esse cinturão — algo inevitável para alcançar determinadas órbitas —, as partículas presentes na região poderão fazer com que os núcleos dos átomos de urânio emitam nêutrons. Por isso, ele propõe a construção de um detector específico para esse tipo de emissão, que seria responsável por disparar um alerta caso identificasse esse fenômeno.

Aurora A aurora vista do Havaí

Até o momento, Danagoulian não construiu nenhum equipamento. Ele realizou um estudo de viabilidade no qual demonstra que sua proposta é plausível. Ela se baseia em princípios sólidos da física e as técnicas necessárias já existem. Caso a Rússia realmente possua um satélite equipado com uma arma nuclear, como temem ele e outros cientistas, esse dispositivo poderia ser útil.

No entanto, o fato de a ideia ser viável não significa que seja simples de colocar em prática. Seria necessário diferenciar os nêutrons provenientes do urânio daqueles emitidos por outros elementos e, além disso, distingui-los dos nêutrons que possam vir da própria Terra. Ainda há muito trabalho pela frente.

A Starfish Prime mostrou que as consequências de uma liberação abrupta de radiação no campo magnético terrestre podem ser muito graves, tanto quando provocada artificialmente por uma bomba atômica quanto quando ocorre naturalmente devido à atividade solar. É importante estar preparado para essas situações. O ideal é que todos os países continuem cumprindo os acordos internacionais, mas, por precaução, não é má ideia recorrer a técnicas de detecção. Sem dúvida, essa é uma forma muito mais segura de aproveitar o que o cinturão de Van Allen pode oferecer.

Imagem | U.S. Air Force 1352nd Photographic Group, Lookout Mountain Station/NASA

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


Inicio