Da dependência da Coreia do Sul e do Japão à construção de seus próprios mega-navios: é assim que a China domina o transporte marítimo de automóveis

  • Uma de suas embarcações mais recentes tem capacidade para 10.800 veículos;

  • A China tornou-se a maior exportadora de automóveis do mundo; portanto, também precisa que o transporte desses veículos esteja à altura da demanda

Da dependência da Coreia do Sul e do Japão à construção de seus próprios mega-navios: é assim que a China domina o transporte marítimo de automóveis
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Fabrício Mainenti

Redator

A Guangzhou Shipyard International, um importante estaleiro chinês, acaba de entregar a terceira embarcação de uma série capaz de transportar 10.800 veículos. Esses números se encaixam perfeitamente no cenário atual, em que a China exporta veículos de novas energias em ritmo acelerado.

No entanto, esse detalhe também destaca uma das transformações mais interessantes na logística automotiva dos últimos anos: a mudança da China, que deixou de depender de companhias de navegação sul-coreanas e japonesas para construir os próprios navios que agora transportam seus carros pelo mundo.

O que aconteceu

O estaleiro em questão — uma subsidiária da estatal China State Shipbuilding Corporation (CSSC) — entregou a terceira embarcação de uma série de "meganavios" projetados para transportar 10.800 veículos por viagem.

O primeiro, chamado Glovis Leader, foi entregue em abril passado; segundo a publicação The Maritime Executive, foi o primeiro navio do mundo a superar a marca de 10 mil carros em uma única travessia.

Este terceiro navio da série — cujo nome ainda não foi revelado — foi entregue no final de junho. Ele seguirá o mesmo caminho de suas embarcações irmãs, operando sob a gestão da empresa de navegação sul-coreana Hyundai Glovis.

Os detalhes

Essas embarcações pertencem a uma categoria específica de transporte marítimo conhecida como PCTC (Pure Car and Truck Carriers ou Transportadores Puros de Carros e Caminhões) — navios projetados exclusivamente para transportar veículos, em vez de outros tipos de carga.

Eles não transportam guindastes nem contêineres; em vez disso, os carros são carregados por uma rampa traseira e estacionados no interior, de forma semelhante a um edifício-garagem de vários andares.

Neste caso, o navio mede 230 metros de comprimento e 40 metros de largura, distribuindo sua carga por 14 conveses. Cinco desses conveses são móveis (eleváveis), permitindo o transporte de itens maiores, como ônibus, reboques ou maquinário pesado, de acordo com dados técnicos divulgados pela Baird Maritime. Esse meganavio pode ser propulsionado tanto por gás natural liquefeito (GNL) quanto por combustível convencional.

Por que isso é importante

Até pouco tempo atrás, grande parte do transporte marítimo de carros chineses dependia de transportadoras estrangeiras — principalmente sul-coreanas, japonesas e norueguesas. O problema foi o aumento repentino da demanda; à medida que a China se tornava a maior exportadora de carros do mundo — especialmente de veículos elétricos — não havia navios suficientes disponíveis para transportá-los para fora do país.

Essa escassez elevou as tarifas de frete, levando a China a enfrentar essa dependência por meio da construção de sua própria frota.

Em apenas uma década, a capacidade média dessas embarcações cresceu significativamente. Enquanto um navio típico em 2014 transportava cerca de 6 mil a 7 mil veículos, os estaleiros chineses agora entregam rotineiramente embarcações capazes de transportar mais de 10 mil unidades.

Embarcações que quebram recordes

Os estaleiros chineses travam uma disputa acirrada entre si há algum tempo. Antes do Glovis Leader e de suas embarcações irmãs, o recorde pertencia ao Anji Soundness e ao Anji Ansheng — navios gêmeos com capacidade para 9.500 veículos operados pela Anji Logistics, subsidiária de logística da gigante automotiva SAIC Motor. A BYD, maior fabricante de veículos elétricos da China, agora possui sua própria frota de oito navios, o que lhe permite exportar mais de um milhão de veículos por ano, segundo dados do CnEVPost.

O GSI, estaleiro responsável por essa terceira embarcação, conquistou mais de 40 encomendas e realizou 26 entregas — sendo mais de 95% delas para clientes estrangeiros — o que ilustra a dimensão que a indústria naval chinesa alcançou como fornecedora para o restante do mundo.

Nas entrelinhas

O Glovis Leader e suas embarcações irmãs operarão em rotas marítimas conectando a Coreia do Sul ao Sudeste Asiático, à América do Norte e à Europa, atendendo principalmente a Hyundai e a Kia, segundo a Baird Maritime. Em outras palavras, embora os navios estejam sendo construídos na China, eles não transportarão carros chineses, mas sim sul-coreanos.

O fato é que a China não apenas exporta seus próprios veículos em navios próprios, mas também se tornou o estaleiro de referência para outras potências automotivas que buscam solucionar seus problemas de capacidade.

E agora?

O GSI tem outras onze embarcações em construção, com entregas previstas até 2028, segundo a Shippax. Além disso, o recorde de maior capacidade não deve durar muito, já que a empresa de navegação norueguesa Wallenius Wilhelmsen anunciou planos de ampliar a capacidade de quatro de suas embarcações da série "Shaper" para 11.700 veículos.

Imagem de capa | ShanghaiEye (X)

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