Japão rejeita métodos modernos em templos centenários: país usa trabalho de mestres artesãos com técnica milenar

Nada de pregos ou parafusos

Templo antigo do Japão
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Vika Rosa

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Vika Rosa

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Jornalista com mais de 5 anos de experiência, cobrindo os mais diversos temas. Apaixonada por ciência, tecnologia e games.

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Enquanto boa parte das construções modernas depende de pregos, parafusos e estruturas metálicas, alguns dos templos mais antigos do Japão continuam sendo restaurados exatamente da mesma forma como foram erguidos há mais de mil anos. Em vez de recorrer a fixadores modernos, mestres artesãos (ou mestres carpinteiros) utilizam uma técnica tradicional chamada kigumi, baseada em encaixes de madeira feitos com extrema precisão.

O método consiste em esculpir vigas, pilares e outras peças para que elas se encaixem perfeitamente umas nas outras, como um quebra-cabeça tridimensional. Dessa forma, toda a estrutura permanece unida sem a necessidade de qualquer elemento metálico.

A técnica é preservada pelos miyadaiku, artesãos especializados na construção e restauração de templos e santuários japoneses. O aprendizado leva anos e envolve muito mais do que habilidades de carpintaria: os profissionais estudam o comportamento de cada tipo de madeira, analisando seus veios, curvaturas naturais e resistência antes mesmo de decidir onde cada peça será utilizada.

Técnica é particularmente útil para o Japão

A escolha por evitar pregos não acontece apenas para manter viva uma tradição milenar. Ela também oferece vantagens práticas em um país marcado por terremotos, tufões, chuvas intensas e alta umidade.

Com o passar do tempo, pregos e outras peças metálicas podem enferrujar conforme a umidade penetra na madeira, enfraquecendo as conexões estruturais. Já os encaixes de madeira acompanham a expansão e a contração natural do material conforme as mudanças de temperatura e umidade, reduzindo tensões na construção.

Outro benefício aparece durante os terremotos. Enquanto ligações metálicas tendem a ser mais rígidas, os encaixes tradicionais permitem pequenas movimentações entre as peças, distribuindo melhor as vibrações causadas pelos abalos sísmicos. Essa flexibilidade é apontada como um dos fatores que ajudaram muitos templos históricos de madeira a permanecerem de pé após séculos enfrentando terremotos.

Engenharia artesanal

Cada tipo de encaixe possui uma função específica. As junções conhecidas como tsugite são usadas para unir duas peças de madeira e formar vigas ou pilares maiores. Já os encaixes chamados shiguchi conectam vigas e colunas em diferentes ângulos, criando o esqueleto da construção.

Grande parte desses encaixes fica escondida dentro da estrutura, mas qualquer pequena imperfeição pode comprometer a estabilidade do edifício. Por isso, todo o trabalho é feito manualmente e exige um nível de precisão extremamente elevado.

Uma técnica com mais de 1.400 anos

A tradição da carpintaria de templos remonta à construção do Templo Shitenno-ji, fundado no ano 593 d.C., e continua sendo transmitida de mestre para aprendiz ao longo das gerações.

Hoje, o Japão possui mais de 150 mil templos e santuários, muitos deles construídos com esse sistema de encaixes de madeira. Além da resistência, a técnica também facilita futuras restaurações: como as estruturas podem ser desmontadas e remontadas sem danificar a madeira, peças individuais podem ser substituídas quando necessário, prolongando a vida útil dos edifícios e reduzindo o desperdício de materiais.

O resultado é uma combinação rara entre patrimônio histórico, engenharia e sustentabilidade.

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