A ideia de comer carne podre soa, na melhor das hipóteses, como um caminho direto para o pronto-socorro com uma gastroenterite grave, mas nas latitudes mais extremas do planeta, é uma técnica de sobrevivência aperfeiçoada ao longo de milênios.
Agora, o explorador e chef Mike Keen se propôs um desafio que desafia a fisiologia ocidental: comer exclusivamente carne de foca em decomposição durante um mês na Groenlândia. E tudo isso para ver como sua microbiota intestinal se adapta a essa nova dieta, como um mero "experimento social".
Mais do que apenas carne podre
Quando falamos da dieta que Keen seguirá em sua expedição, a imagem mental automática é a de carne deixada exposta aos elementos sem qualquer tipo de controle. No entanto, há uma nuance crucial, já que as práticas tradicionais inuítes, como o kiviak ou o igunaq, não se tratam simplesmente de carne podre aleatória, mas sim de carne que passou por um processo de fermentação.
Do que consiste?
Trata-se de uma fermentação controlada culturalmente, visto que, durante meses, essas preparações passam por processos que envolvem bactérias e metabólitos muito específicos, que a ciência está apenas começando a catalogar.
Essa fermentação não só preserva os alimentos durante os longos e escuros invernos do Ártico, como, segundo a hipótese dos pesquisadores, pode ter sido fundamental para a sobrevivência dos Inuit e para a extração de nutrientes vitais de uma dieta baseada quase exclusivamente em produtos de origem animal, desprovida das fibras vegetais que normalmente alimentam nossas bactérias intestinais.
O segredo deles
O cerne científico desse tipo de dieta reside em nosso sistema digestivo, já que diversos estudos têm se concentrado na relação entre alimentos fermentados tradicionais e a saúde intestinal das populações do Ártico.
Um estudo publicado na revista Microbiome sobre o microbioma intestinal dos Inuit demonstrou que ele é altamente dinâmico ao longo do tempo e profundamente moldado pela ingestão de alimentos tradicionais. Assim, diferentemente de populações como a nossa, em que a dieta ocidental homogeneiza as bactérias intestinais, os Inuit possuem assinaturas únicas.
Séculos de história
A dependência da Groenlândia da carne de foca não é uma excentricidade moderna, mas sim um pilar histórico. Registros históricos e análises isotópicas confirmaram que até mesmo os colonizadores vikings da Groenlândia dependiam fortemente de focas para sobreviver. É um alimento que sustentou a vida humana na ilha por séculos.
No entanto, replicar esse tipo de dieta sem o conhecimento ecológico tradicional acarreta um risco letal, já que carne mal conservada e em decomposição é um jogo de roleta russa microbiológico. Sem o controle preciso de temperatura, preparo e selagem anaeróbica exigidos por receitas como o igunaq, a carne se torna um terreno fértil para patógenos graves como Salmonella ou Listeria, que causam doenças severas.
O experimento
Ao consumir esses alimentos, os pesquisadores esperam compreender precisamente as adaptações metabólicas que ocorrem ao seguir essas dietas e também observar como a microbiota intestinal se altera quando submetida a uma dieta 100% animal e fermentada durante um mês.
Para chegar a conclusões claras, serão realizadas análises de fezes ou sangue ao longo desse mês de testes e também posteriormente, a fim de compreender como seu estado interno se altera.
Imagens | DejaVu Designs no Magnific
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