Arábia Saudita quer construir lago artificial a 2.600 metros de altitude, mas ninguém sabe de onde virá a água

O lago artificial mais ambicioso do mundo está no deserto saudita

Lago suspenso na Arábia Saudita
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Victor Bianchin

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Victor Bianchin

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Victor Bianchin é jornalista.

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Se você entrar no Google Maps e buscar por “Arábia Saudita”, vai encontrar um grande pedaço de terra dentro da Península Arábica. E “terra” não é só modo de dizer: a cor de areia predomina em toda a sua geografia. Porque a Arábia Saudita é areia. Sob essa superfície há importantes e valiosos depósitos de petróleo, gás natural e minerais, o que faz com que praticamente qualquer construção — mesmo que desafie a lógica, a rentabilidade ou o bom senso — seja possível.

Como uma megaestação de esqui no meio do deserto. Ou parques aquáticos em pleno terreno árido. Ou um resort ao estilo caribenho. Já mencionamos que na Arábia Saudita não há água? Isso não é obstáculo para construir um lago artificial de alta montanha com três represas. 

O projeto se chama Trojena Lake e será um lago de água doce em pleno deserto, a 2.600 metros de altitude, nas montanhas de Tabuk, servindo como cenário bucólico para sua estação de esqui. Segundo a empresa construtora, o reservatório será o maior corpo de água artificial de todo o país, com 2,8 quilômetros de comprimento e 1,5 quilômetro quadrado de superfície. Para conter a água entre as montanhas, será utilizado um sistema com três barragens e, no interior, haverá uma ilha artificial para uso recreativo.

Como se isso não bastasse, o lago não terá um formato convencional: de um lado estará o The Bow, uma estrutura em balanço que estenderá a superfície do lago para além da frente da barragem principal, como se fosse uma espécie de varanda com vista para a montanha. Terá formato de proa de navio suspensa, onde serão instalados um hotel de luxo, áreas residenciais e espaços de entretenimento.

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Como se pode perceber pelos detalhes, estamos diante de um projeto desafiador do ponto de vista de engenharia: pelo seu tamanho, pelos desafios de construção das barragens, pela escavação na rocha e até pela forma de obter a água. Ou, simplesmente, porque está em um ambiente hostil onde a água não deveria nem existir de forma natural.

O projeto também pode ser entendido como um termômetro do estado real do NEOM, um conceito cujo futuro parece cada vez mais incerto após cortes e atrasos. O Trojena Lake é um dos projetos árabes mais avançados e tangíveis: há um contrato de 4,7 bilhões de dólares assinado com uma renomada construtora italiana, máquinas já operando na montanha e avanços concretos. Embora sua conclusão estivesse prevista para o final de 2026, já há vazamentos de funcionários sauditas que apontam para atrasos de três a quatro anos.

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Estes são alguns dos dados astronômicos do Trojena Lake:

  • Um contrato inicial de 4,7 bilhões de dólares assinado com a WeBuild em janeiro de 2024
  • Um lago de 2,8 quilômetros de extensão e 1,5 quilômetro quadrado de superfície
  • Uma escavação de 90.000 metros cúbicos de rocha por semana
  • Mão de obra: 10.000 pessoas

Desafios técnicos

Há muitos obstáculos para o projeto, e de grande escala. Para construir o lago, serão utilizadas três barragens: a principal terá 145 metros de altura e 475 metros de comprimento e será feita de concreto HCR, assim como a segunda barragem. A terceira, por sua vez, será de rocha e terá um volume de 4,3 milhões de metros cúbicos. A logística é extrema, já que o projeto está no deserto, sem infraestrutura pré-existente, o que exige transportar tudo até esse local remoto.

Por outro lado, o The Bow é uma estrutura em balanço de grande vão, suspensa sobre um reservatório ativo, combinando engenharia estrutural complexa com exposição contínua à carga hídrica. A cereja do bolo é a água: o comunicado da WeBuild não especifica sua origem e não há rios nas proximidades, o que implica bombeamento, dessalinização ou captação de aquíferos. Segundo o Arabian Gulf Business Insight, a água virá de uma área próxima ao Golfo de Aqaba, a mais de 200 quilômetros de distância.

O fracasso do NEOM

O Trojena Lake não pode ser entendido sem o contexto que o cerca — e é aqui que é preciso citar o NEOM.

O motor econômico da Arábia Saudita é, há décadas, o petróleo. Mas o “ouro negro” tem prazo de validade, por isso o país do Oriente Médio vem buscando há algum tempo diversificar sua economia. Como? Com seu plano Vision 2030, voltado a impulsionar o turismo, as infraestruturas e, em resumo, outras formas de gerar receita.

O megaprojeto de desenvolvimento urbanístico NEOM é a face mais expressiva desse plano: um instrumento de projeção internacional que busca atrair investimento, talento e turismo por meio de uma imagem moderna e futurista. Em poucas palavras: outro Dubai (a Dubai de antes do conflito entre EUA, Israel e Irã). Por enquanto, já conseguiu atrair influenciadores.

Só que o projeto, nos últimos anos, tem sofrido sucessivos atrasos e estouros de orçamento, colocando em dúvida sua viabilidade. A “cidade futurista” anunciada provavelmente terá sua escala severamente diminuída.

A guerra acrescenta uma nova camada de dificuldade, tanto de forma direta (ataques com drones já chegaram a Riad) quanto indireta, com o bloqueio do tráfego marítimo no estreito de Ormuz, a incerteza no comércio de energia e, de modo geral, a redução do investimento estrangeiro diante da instabilidade.

Imagem | NEOM

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


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