"Não sobreviveremos": a Toyota percebeu que seu perfeccionismo a está prejudicando na corrida com as marcas chinesas

Koji Sato, CEO da Toyota, prevê o risco de a China ultrapassá-los devido aos seus processos de produção mais avançados

Imagem de capa | Toyota
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Fabrício Mainenti

Redator

O Japão é um país extremamente peculiar. E por muitas razões. Uma delas é a combinação de humildade no ambiente de trabalho e dedicação absoluta à empresa para alcançar um objetivo comum, que se materializa no desenvolvimento e na produção dos melhores produtos possíveis.

O contraste é ainda mais difícil de compreender na indústria automobilística. A Toyota é considerada a criadora do que hoje conhecemos como "Toyotismo". Trata-se de uma fórmula para trabalhar em uma linha de montagem com estoque extremamente limitado. Ou seja, sem uma rede de segurança para lidar com imprevistos, mas com um armazém suficientemente grande para sustentar a produção até que o problema seja resolvido.

Isso é alcançado, naturalmente, construindo uma linha de montagem que funciona com a precisão de um relógio suíço. Mas também com a garantia de que o que chega ao mercado é a melhor versão do que cada trabalhador tem em mãos. A Toyota revolucionou a produção de automóveis em linha de montagem ao dar aos próprios trabalhadores o poder de interromper a produção caso detectassem algum defeito.

É uma forma de trabalho que só pode ser implementada quando o desenvolvimento de peças e o design de um carro inteiro são abordados com o compromisso inabalável da filosofia Kaizen. Essa palavra japonesa define a busca pela perfeição por meio da melhoria contínua. Isso garante que cada peça modificada no processo de produção de um novo carro seja respaldada por anos de experiência.

Essa forma de trabalho tem sido uma vantagem competitiva até hoje, tornando a Toyota a maior fabricante de automóveis do mundo. Em 2025, a empresa era a maior produtora mundial de automóveis, com mais de 11 milhões de unidades fabricadas. A Volkswagen ficou em segundo lugar, com 9 milhões de unidades produzidas.

Isso é resultado de uma produção meticulosamente planejada e da confiabilidade conquistada com muito esforço. Essa filosofia Kaizen, que a Mazda e a Toyota orgulhosamente defendem, permitiu que esta última se mantivesse consistentemente no topo dos rankings de confiabilidade, um fator crucial para colocar milhões e milhões de unidades no mercado.

No entanto, essa forma de trabalho tem suas desvantagens quando decisões rápidas precisam ser tomadas.

A China é o caminho a seguir

"Se as coisas não mudarem, não sobreviveremos." Esta declaração vem de Koji Sato, CEO da Toyota, e é especialmente relevante porque, como já mencionamos, vem do chefe da maior montadora do mundo. Ele transmitiu esta mensagem a 489 fornecedores com o objetivo de fazê-los entender a importância de melhorar a competitividade em relação às empresas chinesas, conforme relatado pela Automotive News.

De acordo com o Autoblog, os padrões de qualidade da Toyota têm sido tão rigorosos que peças com pequenas rugas na resina, que não afetavam a dinâmica ou a confiabilidade do veículo, foram devolvidas. O mesmo acontecia com milhares de chicotes elétricos que, segundo relatos, foram devolvidos devido a pequenos sinais de descoloração.

Pequenos defeitos estéticos que nem mesmo os compradores notariam, pois ficam escondidos dentro do próprio veículo.

Agora, Sato pediu a seus fornecedores que sejam mais flexíveis para economizar na produção e se tornarem mais ágeis. A mensagem do CEO não é por acaso. Meses atrás, uma consultoria especializada em engenharia reversa alertou a Toyota de que seus carros elétricos eram projetados como veículos com motor a combustão, o que os colocava em desvantagem durante a produção.

O problema, segundo a consultoria, é que produzir um carro elétrico é tão diferente de produzir um carro com motor a combustão que é quase como produzir dois produtos diferentes, mesmo que ambos tenham quatro rodas e volante. Eles apontaram, por exemplo, que a Toyota utilizava barras e reforços de aço na coluna de direção e no painel, visando reduzir as vibrações.

No entanto, fabricantes chineses e a Tesla optam por um uso maior de plásticos, pois essas vibrações são quase inexistentes em um carro elétrico. Isso lhes permite produzir de forma mais barata e rápida, além de criar carros mais leves.

"O cliente médio nem vê essas peças", explicou Shoji Nishihara, gerente de compras do departamento de desenvolvimento de veículos da Toyota, em declarações divulgadas pelo Forococheseléctricos.

O objetivo final é complexo. A empresa busca melhorar a competitividade reduzindo os tempos de produção e tornando a qualidade final de seus produtos mais flexível. Um equilíbrio delicado se eles quiserem continuar sendo a referência em termos de confiabilidade. Por enquanto, a Toyota acredita que seu perfeccionismo estava beirando o prejudicial.

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