A Semiconductor Manufacturing International Corp., ou SMIC, é a base da indústria de semicondutores na China. Juntamente com a Huawei, é a arquiteta do ambicioso plano do governo para ajudar empresas e data centers chineses a reduzirem sua dependência de chips estrangeiros. Desde a iniciativa inovadora em meados de 2023 com o SoC do Huawei Mate 60 Pro, essa iniciativa atraiu significativa atenção internacional. Tanto que a própria SMIC indica que alguns clientes estrangeiros já estão transferindo pedidos para que ela fabrique seus chips.
O motivo? Em meio à crise de semicondutores, a China é um dos poucos lugares com capacidade de produção disponível.
Gargalo
A SMIC e as fundições chinesas estão em uma batalha diferente: volume versus sofisticação. Enquanto a TSMC, a Intel e a Samsung disputam a supremacia na corrida dos 2 nanômetros, a China parece desinteressada nessa batalha por nós tecnológicos avançados. O motivo é simples: o país representa apenas cerca de 20% do mercado global de chips, e sua produção é extremamente cara. Essa estratégia de se manter fora dos holofotes tem se mostrado eficaz para a China.
Estima-se que, entre janeiro e fevereiro, a China tenha exportado circuitos integrados no valor de mais de US$ 43 bilhões. Isso representa um aumento de 21,8%, e a realidade é que, no momento, a China não consegue competir tecnologicamente com a empresa que domina o segmento: a TSMC. A empresa taiwanesa desenvolve os nós mais avançados para clientes como Nvidia e Apple, e há alguns anos já declarava que não conseguia atender à demanda.
Hoje, essa demanda disparou com a inteligência artificial, e a TSMC já afirma que pode não haver produção suficiente para suprir as necessidades de todos. Por isso, estão planejadas 64 novas fábricas para reduzir a demanda reprimida, 58 delas localizadas na China.
Pedidos
Voltando à SMIC, Zhao Haijun, co-CEO da empresa, destacou há alguns dias, durante a teleconferência de resultados, que a China é uma das poucas regiões com capacidade de produção, o que está levando "muitos clientes estrangeiros a redirecionarem seus pedidos". Isso não é novidade, dada a situação global, mas o executivo garante que alguns desses produtos "eram fabricados anteriormente em fundições no exterior e não são mais produzidos lá".
Esse é o ponto crucial, pois ele afirma que, embora a SMIC, como a maior fundição nacional, esteja recebendo a maior parte desses pedidos, outras empresas menores também estão se beneficiando da situação. Essa situação surge por necessidade, das demandas da TSMC, de acordo com dados da TrendForce. Como a empresa taiwanesa planeja reduzir parte de sua capacidade de produção de nós industriais maduros (para se concentrar em nós de ponta), ela está direcionando parte dessa produção e do excesso de pedidos para fornecedores chineses e fundições de segunda linha.
Isso também levará à utilização de wafers em escala milimétrica, com a indústria passando de uma taxa média de utilização de 80% para wafers de oito polegadas para 90% até 2026. Chips são necessários e terão que ser encontrados onde quer que seja possível.
Efeito dominó
Essa situação está favorecendo a SMIC, já que a empresa registrou receitas de US$ 2,505 bilhões no primeiro trimestre deste ano, um aumento de 11,5% em relação ao ano anterior, que será superado no segundo trimestre, com crescimento da receita entre 14% e 16%, bem acima dos 7% esperados por Wall Street.
Mas parece que a SMIC não é a única a receber boas notícias em meio à atual situação catastrófica nos setores de componentes, memória e áreas afins. Mencionamos alguns meses atrás que "crise" poderia ser sinônimo de "oportunidade" para a indústria chinesa de semicondutores, pois fabricantes estrangeiros estavam procurando fornecedores, especialmente de memória RAM. Isso pode levar ao florescimento internacional de uma indústria tradicionalmente ofuscada pelo trio Samsung-SK Hynix-Micron.
Como mostra o SCMP, a Hua Hong é outra fundição chinesa, menor que a SMIC, mas também viu sua receita crescer 22,2% em relação ao ano anterior devido ao aumento das remessas de wafers e a um preço médio de venda mais alto. Essas empresas que fabricam chips de memória NAND, DRAM e NOR estão vendo seus negócios crescerem, e os analistas esperam que outras fundições nacionais focadas em chips lógicos continuem crescendo nos próximos meses.
Não tão intocável assim
De qualquer forma, é claro que a TSMC continua líder de mercado, mas enquanto antes era uma gigante indiscutível, agora é um Golias... enfrentando seus próprios Davi. Vários, na verdade. A Apple não é mais a cliente preferida da TSMC; a TSMC encontrou sua melhor aliada na Nvidia, e há rumores há algum tempo de que a Intel poderia ocupar esse lugar no coração da Apple.
E, voltando ao processo de 2nm, a AMD tem se envolvido intensamente na disputa pelos segmentos de consumo e IA há vários anos, buscando chips avançados. E, assim como no caso da Apple, como a Nvidia agora detém todos os privilégios da TSMC, a AMD buscou um pouco mais a leste para fabricar seus chips de 2nm. A sortuda? A Samsung.
Imagem | ASML
Ver 0 Comentários