China agora paga barcos civis para ficarem parados em áreas disputadas

Nesses lugares, centenas de barcos pesqueiros estacionam e não pescam nada

Barcos chineses
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Victor Bianchin

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Victor Bianchin

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Victor Bianchin é jornalista.

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Em janeiro de 2026, um satélite da NASA captou diante da costa argentina uma imagem estranha: uma enorme mancha luminosa flutuando no meio do Atlântico Sul, tão brilhante que parecia uma cidade surgida de repente sobre o oceano. Da terra, não se via nada, mas, do espaço, era impossível ignorá-la.

É mais um caso de “invasão” de barcos pesqueiros chineses, uma curiosa manobra política. Durante anos, o mundo assumiu que esses barcos eram simplesmente isso: embarcações dedicadas à pesca. Em 2026, essa percepção está mudando rapidamente. Do Mar do Sul da China ao Atlântico Sul, diferentes governos observam o mesmo fenômeno: enormes frotas civis chinesas permanecendo durante semanas em zonas estratégicas sem realizarem uma atividade pesqueira clara.

Argentina e Taiwan, separadas por meio planeta, enfrentam agora uma situação surpreendentemente parecida: centenas de embarcações chinesas diante de suas costas cuja função parece ir muito além de capturar peixes. O inquietante não é apenas sua presença, mas a crescente suspeita de que a China esteja utilizando barcos aparentemente civis como ferramentas permanentes de pressão geopolítica e vigilância marítima.

Cobrar para ocupar o mar

A rede ABC relatou em abril que as investigações sobre a chamada “milícia marítima” chinesa mostraram até que ponto China profissionalizou essa estratégia. No Mar do Sul da China, muitos barcos recebem subsídios estatais simplesmente por permanecerem em determinadas áreas disputadas.

As tripulações passam dias inteiros ancoradas, quase sem atividade pesqueira, enquanto ajudam a consolidar a presença chinesa ao redor de recifes, rotas marítimas ou exercícios militares estrangeiros como o Balikatan. Para analistas ocidentais, o objetivo é claro: saturar fisicamente o mar com embarcações civis para intimidar rivais sem a necessidade de mobilizar diretamente unidades militares tradicionais.

A pressão sobre Taiwan transformou essa tática em algo muito mais visível. Em maio, Taipei expulsou o navio científico chinês Tongji após detectar operações suspeitas perto da ilha. Oficialmente, a embarcação realizava estudos oceanográficos, mas as autoridades taiwanesas suspeitam que ela estivesse coletando informações estratégicas sobre o fundo do mar e as águas próximas.

O incidente reflete o grande problema enfrentado por Taiwan: já se tornou difícil distinguir entre barcos civis, científicos, guardas costeiros e plataformas de apoio militar. Por isso, a ilha começou até mesmo a adaptar suas embarcações da guarda costeira para transportar mísseis antinavio e atuar como parte da defesa nacional em caso de conflito.

A Argentina vê o mesmo padrão. Segundo a Reuters, o país observa há anos uma enorme concentração de barcos chineses diante de suas águas. A cada temporada, cerca de 200 pesqueiros iluminam o Atlântico Sul durante a pesca da lula, formando uma gigantesca cidade flutuante visível do espaço.

Embora oficialmente realizem atividade pesqueira legal fora da ZEE argentina, EUA e parte do aparato de defesa argentino suspeitam que muitos desses barcos possam estar coletando inteligência, mapeando o fundo do mar ou medindo a capacidade de vigilância local. O contexto torna a questão especialmente sensível por um motivo: a região fica próxima ao Estreito de Magalhães e ao acesso à Antártida, dois espaços estratégicos de enorme valor geopolítico.

Por sua vez, a China nega que exista qualquer uso militar dessas frotas e sustenta que seus barcos atuam conforme o direito internacional. No entanto, para muitos países, começa a ficar evidente que Pequim encontrou uma forma muito eficaz de expandir sua influência marítima sem recorrer a uma guerra aberta.

Imagem | CSIS/AMTI/Vantor

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


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