A crise demográfica do Japão já dura algum tempo. Em 2024, esse era o maior desafio do país, que poderia ser resumido numa única estatística: se as coisas continuarem assim, em 2531 todos os seus habitantes terão o mesmo sobrenome. Por isso, temos visto todo tipo de ideias e propostas, algumas mais sensatas do que outras, mas todas com o objetivo de aumentar as taxas de natalidade e combater o envelhecimento da população. Agora, surge mais um dado que agrava ainda mais a situação: as casas estão ficando menores.
Moradias estão encolhendo
Esses dados são oficiais e provêm de um estudo realizado a cada cinco anos no país. O tamanho médio das casas no Japão atingiu seu nível mais baixo em 30 anos, com uma média de 90 metros quadrados no final de 2024, três metros quadrados a menos do que o pico em 2003, de acordo com o estudo do governo.
A mudança reflete uma tendência para casas menores, evidente nos últimos cinco anos. Isso se aplica tanto a casas unifamiliares quanto a unidades multifamiliares, incluindo imóveis para alugar e condomínios. As unidades multifamiliares, em particular, têm uma média de apenas 50 metros quadrados, cinco a menos do que o governo considera adequado para dois adultos em áreas urbanas.
É a economia, meu caro
Uma reportagem do Nikkei afirmou que o aumento nos custos de construção, que dispararam 30% desde 2015 no país, é o principal fator para essa redução no espaço habitacional. Para manter os preços acessíveis e proteger suas margens de lucro, as construtoras estão reduzindo o tamanho das casas, uma prática conhecida como "aumento oculto de preços".
Além disso, os preços dos terrenos em áreas residenciais populares também estão subindo, agravando ainda mais a situação. Esse aumento de preços reduziu a demanda por casas maiores, mais caras e construídas sob medida, em favor de unidades menores e mais acessíveis.
Impacto na qualidade de vida
Este é outro aspecto do problema. A redução do espaço habitacional gera desconforto, especialmente em casas pequenas. Para muitas pessoas, como uma mulher de 50 anos que mora em um apartamento de 30 metros quadrados com o marido, a situação é descrita como sufocante.
Mesmo residências unipessoais, que representam 38% dos domicílios, segundo o censo nacional, são frequentemente consideradas pequenas demais para um estilo de vida confortável. E há os jovens, que enfrentam barreiras ainda maiores para acessar casas maiores, com preços proibitivos mesmo no mercado de revenda.
Jovens e taxa de natalidade
Tudo isso nos leva de volta ao que mencionamos no início. O espaço habitacional limitado e a impossibilidade de adquirir casas maiores desencorajam casais jovens a, por exemplo, formar famílias, exacerbando o já preocupante declínio da taxa de natalidade.
Políticas habitacionais por si só não parecem suficientes para reverter essa tendência, e especialistas como Masayuki Takahashi enfatizam que a chave está em aumentos salariais sustentados. Durante o período de alto crescimento econômico no Japão, os aumentos salariais permitiram que mais pessoas tivessem acesso a casas maiores, algo que não acontece atualmente.
Idosos e moradia
O problema da moradia vai muito além. Um número crescente de idosos no Japão enfrenta dificuldades para alugar imóveis, mesmo tendo condições financeiras. Casos como o de um homem de 88 anos em Tóquio, que, com mais de 100 milhões de ienes em economias após planejar vender seu apartamento, teve seus pedidos de aluguel rejeitados diversas vezes por não conseguir fornecer um contato de emergência com menos de 70 anos — uma exigência comum entre os proprietários no país. Após quatro meses de busca, ele finalmente encontrou um apartamento, mas seu caso reflete um problema mais amplo.
De acordo com os dados do censo de 2020, o Japão tinha 6,7 milhões de domicílios unipessoais com residentes de 65 anos ou mais, representando 12% do total. A projeção é de que esse número chegue a 8 milhões até 2030. Além disso, apesar da existência de aproximadamente 9,3 milhões de unidades habitacionais vagas, a relutância dos proprietários em alugar para idosos é um obstáculo significativo. Em agosto de 2025, o Ministério da Infraestrutura publicou uma pesquisa específica sobre proprietários de akiya (casas tradicionais japonesas), revelando que aproximadamente 60% dessas propriedades eram herdadas, mais de 70% foram construídas antes de 1980 e mais de 70% apresentavam sinais de deterioração ou danos.
Por quê?
Em uma pesquisa do Ministério da Habitação, 66% dos proprietários expressaram relutância em aceitar inquilinos idosos. A principal preocupação: o risco de o inquilino falecer sozinho, como mencionado anteriormente, o que pode exigir custos elevados de limpeza e a necessidade de informar os potenciais inquilinos por três anos. Essa situação é agravada pela crescente solidão dos idosos e pela falta de parentes próximos em todo o país.
Em resumo, e com os dados oficiais em mãos, não parece que o problema habitacional no Japão tenha melhorado nas últimas três décadas. Na verdade, com base nesses números, as casas estão literalmente menores e mais caras, tanto para comprar quanto para alugar. Esse é um problema que vemos em muitos outros países, onde a prática de reduzir o tamanho das casas para manter preços competitivos acaba afetando a estabilidade do mercado imobiliário e a qualidade de vida dos moradores, principalmente jovens e idosos.
Imagem | Unsplash
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