A Rússia se prepara para o 9 de maio, feriado do Dia da Vitória, a data mais simbólica de todo o seu calendário político e militar, enquanto a Ucrânia intensifica uma campanha de ataques que parece desenhada justamente para arruinar essa sensação de controle e segurança.
O Kremlin anunciou inclusive uma trégua unilateral para os dias do desfile, mas Kiev respondeu deixando claro que não pretende coordenar nada com Moscou e lembrando que a Rússia não pode celebrar tranquilamente o Dia da Vitória “sem a boa vontade da Ucrânia”. A situação é especialmente desconfortável para Putin porque, pela primeira vez em muitos anos, Moscou enfrenta essa data com a sensação de que até mesmo sua capital pode se tornar um alvo.
Moscou já não parece um lugar completamente seguro. O recente ataque contra um arranha-céu de luxo situado a poucos quilômetros do Kremlin foi muito mais do que um simples golpe simbólico. A Ucrânia vem tentando incomodar Moscou antes do desfile de 9 de maio há anos, mas, desta vez, a mensagem chega em um contexto diferente: a Rússia reduziu o tamanho do evento, eliminou parte da exibição de equipamento militar pesado e reforçou enormemente as defesas ao redor da capital por medo de novos drones.
Enquanto isso, Zelensky insinuou diretamente que Moscou teme ver drones sobrevoando a Praça Vermelha durante o desfile, algo impensável há apenas alguns anos e extremamente delicado para uma celebração concebida justamente para projetar poder e controle.
Uma nova fase da guerra
A mudança mais importante desta fase da guerra está acontecendo muito além de Moscou. A Ucrânia está conseguindo atacar cidades industriais e bases militares situadas a mais de 1.500 quilômetros da linha de frente, alcançando regiões dos Urais que, durante décadas, foram consideradas uma retaguarda segura até mesmo nos tempos soviéticos.
Cidades como Ecaterimburgo, Chelyabinsk e Perm começam a enfrentar fechamento de aeroportos, restrições de internet e ataques contra refinarias, instalações militares e infraestruturas industriais. O impacto psicológico é enorme porque muitas dessas áreas viviam a guerra como algo distante até poucos meses atrás.
O surgimento do míssil transônico F-5 Flamingo reflete até que ponto a Ucrânia está transformando sua capacidade de ataque em profundidade. Kiev afirma ter utilizado esse sistema para destruir uma fábrica militar russa a cerca de 1.500 quilômetros de distância, uma instalação ligada a componentes para mísseis, aviação e sistemas navais.
Além do dano concreto, o importante é a tendência: a Ucrânia já não depende apenas de drones improvisados ou ataques isolados, mas começa a construir uma capacidade sustentada para atingir infraestruturas estratégicas muito dentro da Rússia. Os sistemas de navegação resistentes a interferências, o alcance extremo e a possível integração de tecnologia ocidental mostram claramente que Kiev está tentando transformar a profundidade territorial russa em algo muito menos útil do que era no início da guerra.
Poder simbólico
Além disso, há uma enorme carga histórica nos lugares que a Ucrânia está atacando. Durante a Segunda Guerra Mundial, boa parte da indústria soviética foi transferida para os Urais justamente porque eram considerados territórios impossíveis de serem alcançados a partir da Europa.
Cidades como Chelyabinsk chegaram a ser conhecidas como “Tankograd” devido à concentração de fábricas militares longe da linha de frente. Agora, oitenta anos depois, drones e mísseis ucranianos estão demonstrando que essa profundidade estratégica já não garante segurança. Se, antes, chegar lá exigia bombardeiros e enormes campanhas aéreas, hoje a região pode ser alcançada com drones de longo alcance e mísseis relativamente baratos capazes de atravessar milhares de quilômetros.
O desfile de 9 de maio não é uma cerimônia qualquer para a Rússia. É a grande vitrine anual do poder militar russo, o ato em que o Kremlin conecta a vitória soviética sobre a Alemanha nazista com a legitimidade política atual de Putin.
É justamente por isso que se torna tão sensível o fato de a Ucrânia estar aumentando a pressão pouco antes do evento. A Rússia está abatendo centenas de drones ao redor de Moscou e reforçando a segurança da capital enquanto tenta evitar qualquer imagem de caos — tudo isso em um evento que será acompanhado por líderes estrangeiros e transmitido para todo o país.
O problema para o Kremlin é que a Ucrânia já conseguiu instalar uma ideia extremamente incômoda: mesmo a mais de 1.500 quilômetros da linha de frente, já não existe uma sensação total de refúgio.
Imagem | Fire Point
Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.
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