Em questão de semanas, Dubai passa de oásis para ricos a zona de conflito e perde sua maior vantagem

Dubai havia atraído mais de 81.000 milionários desde 2014 com comodidades para viver, impostos baixos e estabilidade; os ataques iranianos mudaram a narrativa

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Victor Bianchin

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Victor Bianchin é jornalista.

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Durante anos, Dubai foi a terra prometida para milionários de todo o planeta, que viam nos Emirados Árabes Unidos um lugar ideal para viver sem pagar impostos. Os ataques iranianos com mísseis e drones contra diversas infraestruturas de Dubai nas últimas semanas mudaram essa percepção e a elite financeira — especialmente os milionários asiáticos — está fugindo às pressas.

A cidade que atraiu mais de 81.000 milionários desde 2014 agora enfrenta uma fuga de capital e talento sem precedentes. O prestígio que levou décadas para ser construído está sendo colocado à prova em questão de dias.

Explosões no coração da cidade

As últimas semanas trouxeram imagens que poucos teriam imaginado em fevereiro. O hotel Fairmont The Palm, localizado em uma das ilhas artificiais na costa de Dubai, foi atingido por uma explosão. Dias depois, os destroços de um drone iraniano abatido incendiaram o icônico hotel Burj Al Arab; o aeroporto internacional sofreu danos causados por ataques com drones e o consulado dos EUA também foi alvo de ataque com drone. A cidade que se orgulhava de ser a mais segura do mundo se transformou, em poucas semanas, em um cenário de guerra.

“A guerra entre EUA e Israel contra o Irã está minando essa sensação crucial de segurança em Dubai. O modelo econômico de Dubai se baseia no fato de que residentes expatriados fornecem talento, mão de obra e capital de investimento. É necessário estabilidade e segurança para atrair estrangeiros qualificados”, afirmou à CNBC Jim Krane, pesquisador do Instituto Baker da Universidade Rice.

O dinheiro asiático em retirada

No entanto, o impacto mais visível está sendo sentido entre os investidores asiáticos, que haviam se tornado um dos pilares do crescimento financeiro de Dubai. Segundo dados da Henley & Partners, Dubai abriga atualmente 237 centimilionários (pessoas com patrimônio de 100 milhões de dólares ou mais) e pelo menos 20 bilionários.

A Ásia representou 47% de todas as empresas multinacionais atraídas pela Câmara Internacional de Dubai em 2025 e cerca de um quarto das mais de 2.270 fundações criadas nos Emirados têm controle asiático, segundo dados da consultoria BSA Law. A Bloomberg reporta que os Emirados Árabes Unidos já haviam atraído cerca de 700 bilhões de dólares provenientes de milionários de todo o mundo, principalmente asiáticos.

Grace Tang, CEO da Phillip Private Equity, afirmou à Reuters que entre 10 e 20 de seus clientes, em sua maioria asiáticos, estão buscando informações sobre como transferir seu patrimônio para Singapura para proteger o valor de seus ativos. Hong Kong também surge como alternativa.

Por sua vez, Felix Lai, da consultoria JMS Group, contou à Bloomberg que organizou um voo em jato privado para transportar 15 clientes de Omã para Hong Kong, com um custo aproximado de 300.000 dólares. “Eles nem se importavam com o preço”, explicou Lai. “Só queriam ir embora”. Um assessor em Singapura, que preferiu não se identificar, acrescentou que mais da metade de seus 13 clientes nos Emirados está considerando seriamente mover seus ativos: “Voar de um lado para outro será complicado, mesmo que o conflito termine amanhã. Trata-se de confiança”.

O modelo econômico de Dubai diante de seu maior teste

Dubai não depende tão diretamente da indústria do petróleo como seus vizinhos; sua economia se sustenta na capacidade de atrair expatriados, investimentos e talento. O Dubai International Finance Centre abrigava, no início do ano, 1.289 entidades vinculadas a family offices (um aumento de 61% em relação ao ano anterior), e as 120 principais famílias do centro gerenciavam, juntas, mais de 1,2 trilhão de dólares, segundo a CNBC.

Embora as bolsas de todo o mundo tenham sentido o abalo provocado pelos ataques em uma região estratégica para o comércio e a energia, o impacto do conflito com o Irã foi muito mais severo e direto para os mercados do Golfo. A bolsa de Dubai (DFM) caiu mais de 16,6% desde o início da guerra entre EUA e Israel contra o Irã. A Fitch Ratings já havia previsto, antes da guerra, uma correção imobiliária de até 15% em 2025 e 2026. Tudo indica que até mesmo essas estimativas mais pessimistas ficaram aquém das consequências financeiras.

Nem todos os agentes do setor acreditam que isso vá resultar em uma fuga massiva permanente. Dhruba Jyoti Sengupta, diretor executivo da Wrise Private Middle East em Dubai, afirmou à Reuters que sua empresa não havia observado “conversas sérias sobre fuga de capitais”, já que seus clientes continuam confiando na resiliência do país no longo prazo.

Nirbhay Handa, CEO da agência de migração para milionários Multipolitan, declarou à Bloomberg que “se a incerteza se prolongar por algumas semanas, algumas empresas podem pausar sua expansão, mas a estabilidade provavelmente retornará rapidamente a Dubai assim que a situação melhorar”. O que parece claro é que a cidade terá que reconstruir algo muito mais difícil de erguer do que seus arranha-céus para milionários: a confiança daqueles que a escolheram como lar para seu dinheiro.

Imagem | Unsplash (Wael Hneini)

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


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