Seu cérebro ainda lembra daquela vergonha de anos atrás? A psicologia explica o motivo

Quando uma lembrança antiga ganha importância demais, mudar a forma de enxergá-la pode fazer toda a diferença

Mulher Com Vergonha
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Laura Vieira

Redatora
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Laura Vieira

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Jornalista recém-formada, com experiência no Tribunal de Justiça, Alerj, jornal O Dia e como redatora em sites sobre pets e gastronomia. Gosta de ler, assistir filmes e séries e já passou boas horas construindo casas no The Sims.

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Existem situações que vivemos que parecem ficar marcadas para sempre em nossas vidas. Mesmo depois de anos, algumas memórias constrangedoras continuam aparecendo com uma riqueza de detalhes que nem sempre acompanha outras lembranças do mesmo período. A psicologia aponta que isso pode estar relacionado à forma como o cérebro processa experiências sociais negativas e usa esses episódios como uma espécie de aprendizado para evitar novos erros. Um estudo publicado no Journal of Personality and Social Psychology mostrou que tendemos a superestimar o quanto outras pessoas prestam atenção e se lembram dos nossos momentos considerados vergonhosos.

O cérebro transforma momentos constrangedores em alertas para evitar situações semelhantes

Sabe quando uma situação constrangedora acontece e tudo o que você deseja é esquecer? Pode ser uma frase inadequada dita no momento errado, um tombo em público ou de uma situação que gostaríamos de apagar da memória não significa necessariamente que o cérebro esteja tentando nos atormentar. Embora pareça apenas uma lembrança desagradável, a psicologia indica que experiências de vergonha e constrangimento podem ter uma função importante para o cérebro: ajudar a reconhecer comportamentos que fogem de determinadas normas sociais e evitar que eles sejam repetidos

Um artigo de 2023 de Piretti e colaboradores, publicado na revista Brain Sciences, relacionou a vergonha e o constrangimento à ínsula anterior esquerda, região envolvida na percepção das emoções e das sensações corporais. Já a junção temporoparietal esquerda, associada à cognição social, ajuda o cérebro a interpretar as perspectivas e sentimentos de outras pessoas. Outras áreas, como o cíngulo anterior, o tálamo e o córtex pré-motor, também participam da percepção do desconforto, do processamento das informações e da escolha de como reagir em diferentes situações.

A lógica por trás disso é simples. Se uma determinada experiência provoca desconforto, lembrar dela pode funcionar como um sinal de alerta para que o comportamento não seja repetido. É como se o cérebro registrasse aquele episódio como algo que não deve acontecer novamente porque houve uma consequência social desagradável. Esse mecanismo ajuda a explicar por que algumas situações aparentemente pequenas permanecem tão vivas na memória por tanto tempo.


É aí que entra o chamado efeito holofote. No experimento de Gilovich, realizado em 2000, os participantes tendiam a acreditar que outras pessoas se lembrariam mais de seus erros, de frases constrangedoras ou de detalhes embaraçosos do que realmente lembravam. Em outras palavras, é como se a pessoa sentisse que todo mundo percebeu e guardou aquela vergonha, quando, na realidade, a maior parte das pessoas provavelmente seguiu em frente e nem pensa mais naquilo.

Por que uma lembrança constrangedora de anos atrás ainda consegue causar vergonha — e como o cérebro pode mudar isso

mulher com as mãos no rosto O cérebro guarda experiências constrangedoras como aprendizado, mas a forma de interpretá-las pode mudar com o tempo

Quando uma memória constrangedora continua voltando, algumas estratégias podem ajudar a diminuir o peso que ela ganhou com o tempo. Confira quais são elas:

  • Olhe para a situação com mais realismo: a importância que você atribui a um episódio pode ser muito maior do que a atenção que ele recebeu das outras pessoas. O efeito holofote ajuda a entender por que tendemos a superestimar o quanto os outros percebem ou lembram dos nossos erros;
  • Tente ressignificar o que aconteceu: uma situação que parecia insuportavelmente constrangedora anos atrás pode ganhar outro significado com o passar do tempo. Em vez de enxergá-la apenas como uma vergonha, é possível reconhecê-la como um erro, uma experiência de aprendizado ou até uma história engraçada.
  • Volte a atenção para o presente: o mindfulness pode ajudar quem passa muito tempo preso a acontecimentos desagradáveis do passado. A prática consiste em observar pensamentos e lembranças sem alimentá-los com julgamentos, permitindo que a memória apareça sem dominar a atenção.

Para que  situações constrangedoras não tenham tanto peso na memória, é importante lembrar não dar tanta importância à lembrança. O cérebro pode guardar aquele episódio porque ele teve algum significado, mas isso não quer dizer que outras pessoas continuem pensando nele. Com o tempo, aprender com o que aconteceu e enxergar a situação com mais distância pode fazer com que uma lembrança deixe de parecer tão grande quanto um dia pareceu.

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