Google, Apple e Microsoft coincidiram, na mesma semana, em algo que ninguém esperava: o computador volta a ser importante

Após quinze anos deixando o celular ocupar o centro das atenções, os agentes de IA precisam de algo que o celular não pode lhes oferecer

Google, Apple e Microsoft coincidiram, na mesma semana, em algo que ninguém esperava: o computador volta a ser importante.
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Fabrício Mainenti

Redator

Em apenas dois dias, surgiram três grandes novidades para o computador como conceito:

  1. O Google definiu nome, preço, especificações e data de lançamento para os primeiros Googlebooks, notebooks com Android e Gemini integrado;
  2. Chegaram as primeiras análises do Mac mini M6 e do Mac Studio M5 Ultra. Várias delas concordam que são máquinas excelentes para executar agentes de IA localmente;
  3. A Microsoft explicou detalhadamente ao The Pragmatic Engineer como o Windows tratará esses agentes, cuja integração foi anunciada há alguns meses: como usuários com identidade própria.

Após quinze anos vendo o celular ganhar protagonismo — com o computador relegado a dispositivo secundário, exceto em transições de arquitetura (Apple Silicon e também ARM no Windows) —, agora as três gigantes apostam simultaneamente no caminho inverso. O motivo é o mesmo nos três casos: os agentes precisam de algo que o celular não pode oferecer.

Por que o celular não basta

O smartphone foi construído sobre a ideia de que cada aplicativo vive em seu próprio sandbox (ambiente isolado) e não pode interferir no vizinho. Foi isso que o tornou seguro e diferente dos computadores. Também é isso que o torna hostil para um agente, cujo trabalho consiste justamente em transitar entre esses ambientes: ler um e-mail, consultar a agenda, fazer uma reserva, salvar um PDF...

O Muse, agente da Meta, é um ótimo exemplo recente: ele atribui a cada usuário um computador virtual na nuvem que navega, realiza tarefas e continua trabalhando mesmo após o fechamento do aplicativo. Ele é utilizado a partir do celular, mas não processa as tarefas nele. O celular funciona como um controle remoto, pois o trabalho real ocorre em um computador da Meta. O mesmo vale para o Instinct ou o Grok Bot.

O mercado financeiro também interpretou a situação dessa forma. Na segunda-feira, as ações da ARM subiram 17%, as da Intel, 12%, e as da AMD, 10%, em uma alta atribuída à boa recepção do Muse: manter esses computadores virtuais ativos exige processadores, mas não placas gráficas. Vale ressaltar que nenhuma das três fabricantes havia anunciado nada oficialmente.

Três empresas e uma mesma aposta

Na próxima versão do Windows, um agente com identidade local aparecerá no Gerenciador de Tarefas como mais um usuário. Faz sentido: suas sessões duram horas e ele usa vários programas ao mesmo tempo, exatamente como um humano. Um sistema operacional pensado para alguém sentado diante do teclado vai se adaptar a um usuário que não tem mãos, mas que se torna cada vez mais importante.

O Google, por sua vez, abandona sua tese anterior. O Chromebook que vimos durante quase quinze anos partia do princípio de que o notebook não importava muito; por isso, foi concebido como uma janela barata para o navegador.

O "Googlebook", em contrapartida, joga na mesma liga do MacBook, e Rick Osterloh descreveu-o ao The Verge como a grande mudança de foco da empresa. O Google já não quer que o computador seja irrelevante. Quer que ele seja, acima de tudo, seu.

No caso da Apple, o aspecto notável do Mac Studio não é o desempenho — que já conhecíamos e dávamos como certo —, mas sim o quanto ele se beneficia da transição para ARM e memória unificada realizada em 2020. Trata-se de uma arquitetura que o torna especialmente adequado para o uso de IA local, incluindo agentes.

O computador serve aos agentes porque é um sistema aberto: qualquer programa pode ler arquivos ou alterar as configurações de outro. É exatamente o oposto do que ocorre nos celulares, que são sistemas fechados, e é justamente a vulnerabilidade que o Muse acabou revelando: o Ars Technica encontrou uma falha em sua versão para Mac que permitia a qualquer aplicativo redirecionar o ditado para um servidor do invasor e capturar o token da conta.

A Meta levou apenas algumas horas para corrigir a falha, mas a lição permanece: um agente com acesso a e-mail, pagamentos e armazenamento local potencializa os danos de qualquer malware. Não é por acaso que a Amazon citou questões de segurança ao bloquear o Muse.

A resposta da Microsoft — dar uma identidade a cada agente — resgata uma ideia tão antiga quanto as contas de usuário: separar o que cada um pode acessar daquilo que não pode. A diferença é que, agora, muitos desses usuários não são pessoas.

O computador ganha importância justamente quando fica mais caro tê-lo.

Enquanto isso, o mercado de PCs está em declínio. A IDC prevê uma queda nas vendas superior a 11% este ano, em parte devido à escassez de memórias RAM e NAND provocada pelos data centers de IA. Já vimos como isso está afetando a venda de computadores; ninguém escapa da disparada nos preços das memórias.

Dois modelos convivem, portanto:

  1. Em um, o agente reside no seu computador;
  2. No outro, o seu computador reside no data center de outra pessoa.

A alta na bolsa na segunda-feira refletiu uma aposta no segundo modelo, e a crise da RAM impulsiona essa tendência: se a memória RAM está sendo direcionada para os data centers, o computador capaz de hospedar um agente também acaba indo para lá.

Durante anos, questionamos se o celular acabaria substituindo o computador por meio de uma convergência que aguardamos há muito tempo, mas que pouco avançou. A resposta foi outra: o computador volta a ser indispensável, pois quem o utiliza já não é apenas a pessoa sentada à frente dele. A pergunta para os próximos anos não será apenas "qual computador comprar", mas sim "em qual computador reside o agente que atua por mim".

O computador está de volta. O que não está claro é se ele voltará a ser nosso.

Imagem em destaque | Google

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