À primeira vista, acreditar que alguém está apaixonado por você pode parecer apenas carência ou uma interpretação equivocada dos sinais da outra pessoa. Na maioria das vezes, é exatamente isso. Mas, em situações específicas, essa certeza absoluta pode fazer parte de um transtorno psiquiátrico conhecido como erotomania, também chamado de Síndrome de Clérambault.
Recentemente, o tema ganhou os holofotes por causa da personagem Brigitte, interpretada por Tatá Werneck na novela Quem Ama Cuida, da TV Globo. Na trama, a personagem acredita que vive um romance com alguém que, na realidade, não corresponde aos seus sentimentos. A representação chama atenção para um transtorno raro que ainda é pouco conhecido pelo público.
O que é erotomania?
Na psiquiatria, a erotomania é um delírio persistente no qual a pessoa acredita, com total convicção, que outra está secretamente apaixonada por ela, mesmo quando não existe qualquer evidência disso.
Essa certeza não costuma mudar diante de argumentos, provas ou negativas. Qualquer tentativa de mostrar que o relacionamento não existe pode ser reinterpretada como parte de uma estratégia para esconder esse suposto amor.
Outro aspecto frequente é que o "interesse amoroso" costuma ser alguém considerado inacessível, como uma celebridade, uma autoridade ou uma pessoa de posição social mais elevada.
Vale um alerta importante: ter esperança de conquistar alguém, interpretar mal um gesto ou alimentar uma paixão platônica não significa ter erotomania. O diagnóstico envolve acompanhamento médico e um quadro psiquiátrico muito mais complexo.
Tata Wenerck interpreta Brigitte, personagem portadora de erotomania, na trama das 21h. Foto: Reprodução/GShow
Carência, paixão platônica e erotomania não são a mesma coisa
É comum interpretar erroneamente o interesse de outra pessoa, criar expectativas ou imaginar um relacionamento que nunca aconteceu.
Apesar disso, na erotomania, a crença permanece inabalável, independente de qualquer fator. Mesmo com negativas explícitas, ausência de qualquer contato e provas contrárias, a pessoa mantém a certeza de que existe um amor escondido, reinterpretando qualquer informação para confirmar sua convicção.
Quando pequenos sinais viram "provas" de um romance inexistente
Uma das características mais marcantes da síndrome é a interpretação de acontecimentos cotidianos como mensagens de amor.
Segundo a literatura sobre o tema, pessoas com erotomania podem acreditar que olhares, gestos, entrevistas, postagens nas redes sociais ou até a disposição de objetos representam sinais secretos enviados pela pessoa que supostamente estaria apaixonada. Quando o alvo do delírio é uma figura pública, essas "mensagens" podem ser percebidas em programas de TV, músicas ou notícias.
Os especialistas descrevem três fases principais da erotomania:
- Esperança: a pessoa acredita que é amada e espera que o relacionamento aconteça;
- Decepção: diante da ausência de reciprocidade, surgem sentimentos de frustração e mágoa;
- Ódio: em alguns casos, a frustração evolui para raiva intensa, podendo gerar ameaças e comportamentos vingativos.
Alguns pacientes podem desenvolver comportamentos invasivos, perseguições e até atitudes violentas contra a pessoa envolvida no delírio ou contra indivíduos vistos como rivais.
O que causa a erotomania?
A causa exata ainda não é conhecida. Segundo as informações disponíveis, a síndrome pode surgir como um transtorno primário ou aparecer associada a outros quadros psiquiátricos, especialmente a esquizofrenia e outros episódios psicóticos. Também pode ocorrer em algumas condições neurológicas e clínicas, como traumatismo craniano, doença de Alzheimer, infecção por HIV e abuso de álcool.
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico é essencialmente clínico e depende da avaliação realizada por um psiquiatra, que analisa os relatos, o grau de convicção da pessoa e a presença de pensamentos delirantes. Alguns casos são facilmente identificados, enquanto outros exigem investigação mais detalhada.
Foto de capa: Reprodução/Gshow
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