A casa inteligente deve nos ajudar a “viver como humanos, não como máquinas”, diz neuroarquiteta

Uma casa conectada pode aprender nossa rotina e, ainda assim, nos fazer dormir mal ou nos prender a mais telas

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Bárbara Castro

Redatora

A inteligência artificial já consegue regular a climatização, dosar a luz e se antecipar a certas rotinas. No entanto, María Gil, diretora da Academia Espanhola de Neurociências para a Arquitetura e Design (AENAD), defende que esse potencial tecnológico deve partir das reais necessidades de quem mora no imóvel, e não do simples impulso de automatizar cada centímetro da casa.

A neuroarquiteta expressou essa visão durante a mesa-redonda sobre casa inteligente e eficiência energética realizada no V Observatório dos ODS, no CaixaForum de Madri. Ela debateu o tema ao lado de Alberto Quijano Alonso, diretor-geral de Meio Ambiente e Mudanças Climáticas do Governo da Cantábria, e Jerónimo Escalera Gómez, gerente da Empresa Municipal de Habitação e Solo de Madri.

O bem-estar não se conquista acumulando sensores

A declaração que sintetizou sua participação foi categórica: “O bem-estar está em podermos viver como humanos, sem que nos obriguem a viver como máquinas”. Gil associou essa qualidade de vida à possibilidade de descansar de verdade, se movimentar, manter laços sociais e preservar o contato com a natureza. A tecnologia até pode viabilizar algumas dessas condições, mas jamais deveria defini-las em nosso lugar.

Um sensor de presença evita luzes acesas à toa, e um termostato programável poupa energia quando não há ninguém em casa. Contudo, nenhum dos dois compensa um cômodo sem iluminação natural, uma planta baixa que isola os moradores ou um desconforto térmico provocado por paredes com isolamento deficiente.

Outro fator indispensável é garantir que o morador compreenda e consiga intervir nas escolhas do sistema. Quanto mais uma casa age por conta própria, mais transparente precisa ser o motivo de cada ação. Uma rotina perde toda a utilidade quando obriga o usuário a revirar aplicativos para descobrir por que o aquecedor desligou ou quando ele voltará a ligar.

O projeto deve fazer o trabalho pesado sem gastar energia

A especialista sugere dar prioridade às construções passivas: habitações cujo próprio desenho arquitetônico reduza a necessidade de climatização e iluminação artificial. Fatores como a orientação solar, o isolamento térmico, os brises e proteções solares, as janelas e a ventilação natural geram efeitos permanentes, livres de dependência de conexões na nuvem ou de aplicativos mantidos por fabricantes.

Uma casa passiva aproveita o clima local, a insolação e a envoltória do edifício para manter condições internas estáveis com um consumo mínimo de energia. A automação entra em cena apenas para aperfeiçoar essa dinâmica, ajustando persianas, dutos de ar ou climatização nos momentos estritamente necessários. Instalar sensores em um imóvel que perde calor ou superaquece com facilidade obriga os equipamentos eletrônicos a mascarar falhas estruturais de engenharia durante anos.

A palestrante também questionou o conceito de que o conforto deva ser uma medida padronizada para todo mundo. Uma residência pensada para evitar o menor dos movimentos físicos pode parecer cômoda, mas nem sempre estimula uma rotina saudável. Sua abordagem propõe identificar primeiro as reais demandas humanas para, em seguida, definir o que o espaço resolve sozinho, onde a tecnologia é bem-vinda e o que deve permanecer sob controle manual.

A inteligência artificial ajuda quando tem um objetivo claro

A análise de Gil não rejeita o uso da IA. O seu alerta combate a postura de tratá-la como solução mágica e encarecer os imóveis com uma infinidade de aparelhos sem utilidade prática. Na rotina real, um recurso conectado se justifica quando reduz custos, amplia a acessibilidade ou poupa esforços repetitivos sem criar uma dependência mais complexa do que a própria questão que visava resolver.

Um interruptor convencional segue intuitivo para qualquer pessoa que entre em um aposento. Já uma cortina motorizada que depende de servidores externos, hubs e apps corre o risco de travar por uma oscilação de internet, um update com bug ou o encerramento do suporte técnico da marca. A busca recente por residências com menos telas e automatismos nasce exatamente desse cansaço digital e do receio de ver a estrutura física da casa envelhecer no ritmo descartável dos softwares.

A questão essencial, portanto, não é quantos dispositivos cabem numa residência, mas o ganho concreto de quem vive nela com cada recurso instalado. Um sensor contra vazamentos de água previne desastres caros. Já a climatização acionada por presença diminui custos desnecessários. Por outro lado, instalar telas extras que apenas replicam o que o celular já faz só inflaciona o orçamento sem enriquecer o convívio.

A habitação pública impõe limites de custo e foco no acesso

Jerónimo Escalera direcionou o debate para a realidade das habitações sociais da capital espanhola. O gestor pontuou que a IA pode configurar um investimento acertado quando melhora a qualidade de vida dos moradores, mas insistiu que a boa arquitetura segue como ponto de partida obrigatório. Essa ponderação é ainda mais decisiva quando o orçamento é restrito: cada euro investido em tecnologia é um euro a menos voltado para isolamento térmico, ventilação eficiente, acessibilidade física ou reparos básicos.

Alberto Quijano, por sua vez, focou sua fala no retrofit e na reforma de propriedades antigas. Em construções novas, é fácil prever no projeto a orientação solar, a escolha dos materiais e a gestão inteligente de energia. Já em prédios consolidados, os entraves de fachada, estrutura compartilhada, instalações antigas e orçamentos limitados tornam a modernização lenta, exigindo cautela cirúrgica na destinação de recursos.

Quijano cobrou o avanço de regulamentações e incentivos governamentais para evitar que essas melhorias se tornem exclusivas das famílias de alta renda. O alerta introduz outra métrica fundamental para avaliar o ecossistema conectado: recursos que geram economia energética, mas encarecem brutalmente a moradia, exigem mensalidades ou trazem manutenção complexa, acabam acentuando a desigualdade social em vez de combatê-la.

A diretriz sugerida por María Gil estabelece uma ordem lógica impecável. Primeiro avaliam-se o sono, o movimento, a luz solar, o conforto térmico e as conexões humanas favorecidas pelo espaço. Em seguida, corrigem-se as falhas por meio de desenho bioclimático e técnicas passivas. A tecnologia fica por último, entrando apenas para cumprir tarefas pontuais com controles fáceis de operar.

Uma automação bem planejada quase não exige atenção enquanto funciona, mas precisa ser simples de compreender, desativar e consertar caso dê problema. Sob essa ótica, o mérito de um lar moderno não está na quantidade de aparelhos que ele ostenta, mas no quanto ele nos acolhe sem exigir que adaptemos nossa própria vida às engrenagens das máquinas.

Matéria traduzida de Xataka*

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