Você tem o hábito de tirar um cochilinho depois do almoço ou mais de uma vez por dia? Então cuidado! Se você tem mais de 70 anos e costuma cochilar todos os dias, especialmente por mais de uma hora, talvez valha a pena prestar atenção, pois esse comportamento aparentemente inofensivo pode ser o primeiro sinal de demência.
Um estudo publicado na revista científica Alzheimer’s & Dementia acompanhou mais de 1.400 idosos ao longo de 14 anos e identificou uma associação importante entre cochilos diurnos prolongados e maior risco de desenvolver doença de Alzheimer. A pesquisa foi conduzida nos Estados Unidos com participantes entre 74 e 88 anos e utilizou dispositivos que monitoravam o movimento corporal para medir o tempo real de soneca. O resultado mostrou que idosos que cochilavam pelo menos uma vez ao dia ou por mais de uma hora diária tiveram um risco até 40% maior de desenvolver Alzheimer, o tipo mais comum de demência.
Idosos que cochilam diariamente tiveram maior probabilidade de desenvolver Alzheimer
Para entender o impacto do cochilo no envelhecimento cerebral, os cientistas analisaram dados do Rush Memory and Aging Project, um estudo de longo prazo que acompanha idosos da comunidade. Durante duas semanas por ano, os participantes usavam um dispositivo no pulso capaz de detectar períodos prolongados de inatividade entre 9h e 19h, interpretados por eles como cochilos.
Ao longo do tempo, ficou claro que o hábito de cochilar aumenta naturalmente com a idade. No entanto, entre idosos que permaneceram cognitivamente saudáveis, o aumento médio foi de cerca de 11 minutos por ano. Já entre aqueles diagnosticados com comprometimento cognitivo leve, o tempo diário de cochilo praticamente dobrou. Nos casos em que houve diagnóstico de Alzheimer, o salto foi ainda maior: a média chegou a 68 minutos de soneca por dia.
Um outro ponto importante sinalizado no estudo é que essa associação permaneceu mesmo após o ajuste da qualidade e da quantidade do sono noturno. Ou seja, o cochilo excessivo não parecia ser apenas uma compensação por noites mal dormidas.
Cochilo causa demência ou é um sintoma precoce?
Aqui está a parte mais interessante e mais complexa do acompanhamento. O estudo sugere que o excesso de cochilos pode tanto sinalizar um processo já em curso quanto estar ligado a mecanismos biológicos associados à doença. Isso significa que o cochilo excessivo pode ser tanto um sintoma inicial da doença quanto parte do próprio processo de degeneração cerebral.
Outras pesquisas anteriores indicam que alterações no cérebro causadas pelo Alzheimer, especialmente o acúmulo da proteína tau, podem afetar neurônios responsáveis por manter o estado de alerta. Em outras palavras, o cérebro começa a perder eficiência para se manter desperto durante o dia. Isso pode explicar por que algumas pessoas passam a sentir mais necessidade de dormir mesmo sem mudanças significativas no sono noturno.
Além disso, há um outro ponto: o cochilo excessivo pode refletir alterações no ritmo circadiano, conhecido como o “relógio biológico” que regula sono e vigília ao longo das 24 horas. Desregulações nesse sistema também já foram associadas ao risco aumentado de demência.
Ainda assim, os próprios pesquisadores foram cautelosos quanto aos resultados do experimento. Segundo eles, o estudo não prova que cochilar causa Alzheimer. O que ele mostra é uma associação consistente e bidirecional, em que cochilos mais longos foram relacionados a pior desempenho cognitivo no ano seguinte. E pior desempenho cognitivo também foi associado a mais cochilos no ano seguinte.
O que fazer se você ou um familiar cochilam com frequência?
Para evitar a degradação cerebral citado no estudo, especialistas recomendam que cochilos, quando feitos, sejam curtos, entre 15 e 20 minutos, e antes das 15h, para não interferir no sono noturno. Mais importante do que a soneca isolada é observar mudanças no padrão habitual.
Se um idoso que não costumava dormir durante o dia passa a cochilar com frequência ou aumenta significativamente o tempo de soneca, pode ser prudente conversar com um médico. Alterações no sono, no humor ou no nível de energia nunca devem ser ignoradas na terceira idade.
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