Há tanto lixo em órbita que os cientistas propõem algo: que cada satélite pague uma fiança de 200 mil dólares

Seu proprietário não lhe devolveu a caução do imóvel, mas o governo deveria devolver a caução dos satélites

Há tanto lixo em órbita que os cientistas propõem algo: que cada satélite pague uma fiança de 200.000 dólares.
Sem comentários Facebook Twitter Flipboard E-mail
fabricio-mainenti

Fabrício Mainenti

Redator

Sabe quando você vive perdendo a carteira, as chaves de casa e os óculos de sol, mas nunca perde de vista o controle remoto da garagem porque pagou uma caução de 50 euros? Uma equipe de cientistas da Universidade do Colorado em Boulder e da University College London quer fazer algo semelhante com os operadores de satélites.

A proposta não é evitar a perda de objetos, mas sim retirar os satélites de órbita para que não se transformem em lixo espacial. Se fizerem isso, recebem de volta — com juros — uma caução de 200 mil dólares (cerca de R$ 1 milhão). Caso contrário, esse dinheiro é destinado a um fundo comum para financiar medidas de remoção desse tipo de detrito.

Uma caução antes do lançamento

Segundo as recomendações desses cientistas, detalhadas em um artigo na Nature Communications, os operadores de satélites teriam de pagar esse depósito antes de realizar seus lançamentos. A norma poderia ser implementada em nível nacional, sem a necessidade de acordos internacionais que exijam a aprovação de muitas partes.

Como vimos, se conseguirem retirar adequadamente seus satélites de órbita após o encerramento de suas operações, o dinheiro é devolvido com juros. Caso contrário, o montante é acumulado para financiar a limpeza do lixo espacial.

Síndrome de Kessler

A Síndrome de Kessler descreve um ponto de inflexão no acúmulo de lixo espacial, a partir do qual as colisões geram fragmentos suficientes para provocar ainda mais colisões. Trata-se de um efeito dominó extremamente perigoso, capaz de danificar satélites e naves em operação, ou até mesmo afetar instalações habitadas, como a Estação Espacial Internacional.

O objetivo desta iniciativa é evitar que esse problema chegue a ocorrer, uma vez que, caso aconteça, não haverá mais volta.

Inspiração nos Estados Unidos

Há anos, os Estados Unidos exigem uma caução semelhante de empresas petrolíferas para garantir a desativação e a remoção de instalações antigas. Esse modelo serviu de inspiração para os autores do estudo sobre lixo espacial.

No entanto, a administração Trump anunciou em 2025 que revisaria a ampliação dessas garantias aprovada durante o governo Biden; portanto, poderia mostrar-se reticente diante de uma proposta semelhante para os satélites.

Os autores do estudo afirmaram que os Estados Unidos estão entre os países que mais lançam satélites — com a SpaceX claramente na liderança —; assim, caso o governo americano se recusasse a aderir ao plano, uma parcela significativa do lixo espacial ficaria sem cobertura.

Há esperança

Mesmo que a maioria dos países se recusasse a participar, ou que as empresas não cumprissem o plano e perdessem a caução, ainda haveria uma melhora no ritmo de acúmulo do lixo espacial. De fato, se apenas 20% dos lançamentos globais fossem abrangidos, a quantidade de satélites abandonados seria reduzida em 18%. É uma porcentagem bastante relevante quando se busca prevenir a síndrome de Kessler.

Por enquanto, trata-se apenas de uma ideia apresentada em um estudo científico, mas não deixa de ser uma proposta interessante. Surgem cada vez mais planos para remover lixo espacial da órbita terrestre, mas a maioria é cara demais. Se os próprios países responsáveis ​​por gerar esse lixo arcassem com os custos, a situação estaria muito mais equilibrada.

Imagem de capa | Representação da síndrome de Kessler. Crédito: ESA

Texto traduzido e adaptado do portal parceiro Xataka Espanha

Inicio