Na década de 1960, o Mar de Aral (situado na fronteira entre o Cazaquistão e o Uzbequistão) era o quarto maior lago do planeta, cobrindo uma área de aproximadamente 68.042 quilômetros quadrados e acumulando 1.100 quilômetros cúbicos de água. Naquele mesmo período, porém, os planejadores da União Soviética tomaram uma decisão drástica: desviaram os rios Amu Dária e Sir Dária para alimentar canais de irrigação voltados ao cultivo intensivo de algodão.
O impacto não demorou a aparecer. No início dos anos 1990, o reservatório natural encolheu a ponto de se dividir em dois (o Mar de Aral do Norte e o Mar de Aral do Sul). Em 2004, seu volume original já havia despencado 91%. No lugar da água abundante, formou-se um imenso deserto tóxico impregnado de sal e sedimentos químicos: o Aralkum. Diante de um dos maiores desastres ecológicos da história, o governo uzbeque iniciou uma corrida contra o tempo, não para recuperar o lago original — uma meta considerada inviável —, mas para conter a erosão por meio do plantio em massa de arbustos.
Uma mudança radical de estratégia
Inicialmente, as autoridades até tentaram devolver a água ao leito seco. Contudo, as barragens soviéticas, combinadas à gigantesca demanda hídrica da produção algodoeira, inviabilizaram qualquer recuperação total. Apenas a porção norte, sob controle do Cazaquistão, registrou avanços reais: a construção de um dique permitiu elevar o nível da água em quatro metros e reduzir a salinidade pela metade, segundo informações do Banco Mundial.
A retração do Mar de Aral continuou avançando nas últimas décadas: à esquerda, imagem de satélite registrada em 1989; à direita, a situação em 2014. (Foto: NASA)
O Uzbequistão, por outro lado, adotou uma tática diferente. Em 2018, por iniciativa do presidente Shavkat Mirziyoyev, o país lançou um amplo programa estatal para recuperar o solo da antiga bacia, conforme noticiou o The Astana Times. A prioridade não era mais ressuscitar as águas, mas sim estabilizar o terreno para impedir que o vento continuasse espalhando nuvens devastadoras de poeira salina. Para liderar essa missão, os especialistas elegeram uma planta específica: o saxaul.
Por que o saxaul foi o escolhido?
Nativo da Ásia Central, o saxaul transita entre as características de um arbusto robusto e uma pequena árvore. Sua madeira é densa, com folhagens e flores amarelas minúsculas. O grande trunfo da planta está em sua estrutura: ela funciona praticamente como uma esponja viva, acumulando umidade em sua casca e projetando raízes que descem de 10 a 15 metros no subsolo. De acordo com estudos florestais, um único exemplar de sete a dez anos é capaz de fixar entre duas e quatro toneladas de areia.
Além disso, o Aralkum está longe de ser um deserto comum, apresentando concentrações altíssimas de sal. O saxaul se destaca por suportar perfeitamente essa hipersalinidade, algo que já havia sido comprovado no deserto de Taklamakan, na China. Para complementar a vegetação, técnicos inseriram outras espécies resistentes, como tamargueiras, Salsola e Ephedra. Já no trecho pertencente ao Cazaquistão, a aposta recai sobre o saxaul-negro (Haloxylon aphyllum).
Uma megaoperação por terra e ar
Números oficiais consolidados em meados de 2024 mostram que mais de 1,73 milhão de hectares de cobertura vegetal já foram cultivados no leito do Aralkum, restando cerca de 500 mil hectares a serem reflorestados nos próximos anos. Embora o plantio das mudas germinadas em viveiros ocorra manualmente, o restante da logística opera em ritmo industrial: cerca de 360 tratores escavam valas de um metro de profundidade a cada dez metros de intervalo, enquanto aviões pulverizam sementes diretamente do céu.
Muda de saxaul crescendo em meio ao solo árido.
Mais de 300 moradores do Caracalpaquistão — região duramente atingida pelas tempestades de areia — trabalham em parceria com 150 agentes florestais na coleta de sementes e no plantio. Em paralelo, o Cazaquistão segue um cronograma semelhante: as autoridades locais traçaram o plano de cobrir 275 mil hectares até 2025, mirando um total acumulado de 1,1 milhão de hectares, segundo dados de seu ministério ambiental.
Avanços concretos, mas com desafios climáticos
Diante de um esforço monumental, fica a questão: o método realmente entrega o que promete? A resposta exige cautela. O Uzbequistão afirma ter diminuído a proporção de terras degradadas de 30% para 25% em quatro anos. A criação de um manto vegetal é indiscutível, embora a taxa de desenvolvimento e a retenção de carbono tenham ficado abaixo dos índices observados em outras regiões áridas da Ásia Central.
Conforme relatou ao Mongabay o cientista Turaxon Ziyotov, do Instituto de Pesquisas Florestais de Tashkent, a sobrevivência das mudas oscila entre 50% e 70% em anos úmidos, mas desaba para 30% sob estiagem severa. Ou seja, semear uma área correspondente a quase dois milhões e meio de campos de futebol não garante florestas formadas da noite para o dia. Para piorar, o déficit crônico de água continua sendo um fator crítico — e, como alerta a pesquisadora Dildora Aralova, a aridez extrema pode comprometer a sustentabilidade do projeto a longo prazo.
Matéria traduzida de Xataka*
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