A Volkswagen tentou limitá-lo, mas ele usou um método 'estranho' para vencer: criou a Brasília e o SP2 ouvindo música clássica

Quem foi Márcio Piancastelli, o designer brasileiro que desafiou a Volkswagen e ajudou a criar alguns dos carros mais importantes da história do país

Marcio Lima Piancastelli ao lado de maquete de carro. Créditos: Autoentusiastas
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Laura Vieira

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Laura Vieira

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Jornalista recém-formada, com experiência no Tribunal de Justiça, Alerj, jornal O Dia e como redatora em sites sobre pets e gastronomia. Gosta de ler, assistir filmes e séries e já passou boas horas construindo casas no The Sims.

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O Volkswagen Brasília foi um dos carros mais populares da história do Brasil. O que pouca gente sabe é que, por trás desse modelo icônico da indústria nacional, estava um designer brasileiro pouco conhecido, mas decisivo para a identidade do design automotivo do país: Márcio Lima Piancastelli.

Nascido em Belo Horizonte em 7 de setembro de 1936, Piancastelli construiu sua trajetória em um período-chave da indústria automobilística brasileira. Entre os anos 1960 e 1990, ele participou diretamente de projetos que moldaram o mercado nacional, passando por empresas como Willys-Overland, Volkswagen e, mais tarde, pela Autolatina, uma parceria estratégica entre Volkswagen e Ford. 

Sua atuação atravessou desde carros esportivos ousados até modelos pensados para a família brasileira, sempre em um contexto de forte controle da matriz estrangeira sobre o que podia (ou não) ser criado localmente. Hoje, mesmo depois de tanto tempo, muitos dos carros assinados por Márcio Piancastelli seguem sendo referências de design.

Quem foi Márcio Piancastelli? Brasileiro desenhava carros desde a infância e ajudou a moldar a identidade automotiva do país

Desde criança, Márcio Piancastelli era fanático por desenhar. Mesmo durante as aulas, preferia rabiscar carros e cidades imaginárias a prestar atenção aos professores. Por essa razão, a ideia inicial da família é que ele seguisse a carreira em arquitetura, mas, em 1962, Márcio tomou uma decisão que mudaria sua vida, e também parte da indústria nacional.

Sem o conhecimento do pai, ele se inscreveu no Concurso Lúcio Meira de Desenho Automotivo, primeiro e mais importante concurso de desenho e design automotivo realizado no Brasil. Para a competição, Márcio criou o projeto de um carro chamado Itapuã, desenhou as vistas técnicas e chegou a construir um modelo em madeira de forma quase clandestina, usando a marcenaria da empresa da família. O material foi enviado a São Paulo sem qualquer garantia de que chegaria ao destino.

Meses depois, jornalistas bateram à sua porta para informar que Márcio Piancastelli tinha conquistado o segundo lugar. O júri incluía Luigi Segre, chefe do estúdio italiano Carrozzeria Ghia, que se impressionou com o projeto e ofereceu ao brasileiro um estágio na própria empresa em Turim, na Itália. Em 1963, o jovem se mudou para a Europa, onde passou cerca de um ano no estúdio Ghia. Ali teve contato direto com o centro do design automotivo mundial, participando de propostas para marcas como Ford, Jaguar, Renault, Borgward e Lamborghini.

Com a crise econômica que atingiu a Itália, ele retornou ao Brasil no fim de 1964 e ingressou na Willys-Overland, montadora instalada em São Bernardo do Campo que tinha um dos estúdios de design mais avançados do país. Foi lá que Márcio Piancastelli desempenhou o papel central na formação da indústria automobilística nacional, ajudando a estruturar um dos primeiros estúdios de design automotivo do país e a criar modelos pensados especificamente para o mercado brasileiro.

Alguns anos depois, em 1967, Márcio Piancastelli foi convidado a integrar a Volkswagen do Brasil. Apesar de liderar uma equipe criativa, a expectativa da direção era que o designer apenas adaptasse projetos vindos da Alemanha. Ou seja, criar algo novo não fazia parte do escopo do trabalho. Mesmo assim, Márcio e sua equipe seguiram inovando nos bastidores, escondendo desenhos e conceitos para contornar as restrições da matriz e preservar a autonomia criativa do estúdio brasileiro.

Segundo relato de sua filha, Alessandra Iha Piancastelli Lóss, em entrevista ao site Autoentusiastas, Márcio tinha o hábito de desenhar ouvindo música clássica, especialmente durante longas sessões criativas. A prática, segundo ela, ajudava o designer a visualizar formas, proporções e até combinações de cores, um método incomum que acompanhou projetos importantes de sua carreira.

Brasília, SP2 e Gol: os ícones automotivos brasileiros só existiram graças à insistência criativa de Márcio Piancastelli

Mesmo enfrentando limitações dentro da Volkswagen, Márcio Piancastelli participou de alguns dos projetos mais emblemáticos da marca no Brasil. Sua atuação ajudou a construir uma identidade brasileira para o setor automotivo, num período em que as filiais eram vistas apenas como executoras de projetos definidos no exterior. Entre os principais modelos que carregam sua assinatura, destacam-se:

  • Volkswagen Brasília
Maquete da Brasília. A Brasília foi idealizada para ser um carro de família, espaçoso e semelhante ao fusca. Créditos: Vrum

Pensada para corrigir críticas recorrentes ao Fusca, a Brasília foi projetada para ser mais espaçosa, funcional e adequada às famílias brasileiras, mantendo a base mecânica conhecida. Márcio optou por linhas mais retas, ampla área envidraçada e sensação de espaço interno, mesmo com dimensões compactas. Ao fim do processo, a Brasília se consolidou como seu projeto predileto. Mário Piancastelli gostou tanto do modelo que chegou a ter seis ou sete unidades ao longo da vida.

  • Volkswagen SP2
Maquete do SP-2 Maquete do SP-2, o carro esportivo da Volkswagen. Créditos: Vrum

Criado para mostrar que a Volkswagen brasileira também podia ter um carro esportivo de personalidade, o SP2 nasceu após uma disputa simbólica com o Puma. O desenvolvimento foi artesanal, feito sem clay, com gesso, arames e modelos em escala. Durante a fase final de aprovação, a diretoria exigiu uma frente mais longa, que resultou em dez centímetros a mais no desenho, algo que contrariava a visão estética de Márcio. Por isso, na véspera da apresentação definitiva, ele e sua equipe voltaram ao estúdio à noite e, sem autorização formal, redesenharam a dianteira do protótipo. No dia seguinte, o modelo foi aprovado sem que a intervenção fosse percebida, dando origem ao SP2 como ele se tornaria conhecido.

  • Gol e a consolidação de uma família
Print modelo Gol Modelo ajudou a consolidar uma identidade própria para o design automotivo brasileiro, com participação direta da equipe liderada por Márcio Piancastelli. Créditos: Piancastelli Design

Embora o projeto original do Gol tenha sido definido na Alemanha, a equipe brasileira, liderada por Márcio, teve papel fundamental na adaptação ao mercado local e na criação de modelos derivados, como Parati, Voyage e Saveiro. Nos anos 1980, ele também comandou o departamento de Color & Trim, sendo responsável por versões marcantes como Gol GT, GTS e GTI.

Ao longo da carreira, Márcio também atuou como elo entre alemães e americanos durante a Autolatina, participou de projetos compartilhados entre Volkswagen e Ford e seguiu criando, mesmo após a aposentadoria. Márcio Piancastelli morreu em junho de 2015, aos 78 anos, mas deixou um legado que segue rodando pelas ruas do Brasil.

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