Já tínhamos visto de tudo na Ucrânia, mas isto é inédito: Rússia não está lançando drones, está lançando "Frankensteins"

Frankenstein não é apenas raridade da guerra na Ucrânia: é uma prévia perturbadora do futuro dos conflitos

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PH Mota

Redator
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Jornalista há 15 anos, teve uma infância analógica cada vez mais conquistada pelos charmes das novas tecnologias. Do videocassete ao streaming, do Windows 3.1 aos celulares cada vez menores.

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Desde que os primeiros drones passaram de simples plataformas de vigilância a armas capazes de mudar o rumo de batalhas inteiras, a guerra na Ucrânia vem incorporando essas máquinas, sempre com um toque de necessidade e adaptação. Primeiro vieram os UAVs de reconhecimento, depois os drones armados, e em seguida os enxames e as munições de ataque de longo alcance.

Esta última colocou a guerra em uma nova fase.

Drones com drones

A guerra na Ucrânia cruzou um limiar preocupante ao entrar de vez em sua fase Frankenstein, onde drones "costurados" a outros dão origem a criações improvisadas, porém altamente letais.

A Rússia começou a usar plataformas aéreas maiores como naves-mãe que transportam e lançam ataques FPV a grandes distâncias da linha de frente. A consequência é clara: a ideia de que os FPVs são armas táticas de curto alcance é desfeita e uma nova camada estratégica é inaugurada, baseada em híbridos montados com lógica de campo de batalha, e não tanto com lógica de laboratório.

Gerbera

Nesse cenário, surge um ator principal. O drone Gerbera, leve, rudimentar e barato, nasceu como uma simples isca para saturar as defesas durante ataques do tipo Shahed.

Com o tempo, passou a transportar pequenas cargas explosivas e agora foi adaptado para algo ainda mais perturbador: transportar um FPV suspenso e lançá-lo em pleno voo. Já existem fotos e vídeos divulgados no início de fevereiro que mostram essa evolução, não como experimento isolado, mas como padrão emergente.

FPV

A lógica da combinação

A razão para essa combinação entre drones não é apenas técnica, mas profundamente operacional. Um drone de asa fixa pode voar centenas de quilômetros, mas lhe falta a agilidade necessária para caçar alvos pequenos ou em movimento.

O FPV, por outro lado, pode, por exemplo, entrar por uma janela, seguir uma pessoa ou atingir um ponto exato, e lançá-lo de um drone suspenso resolve sua grande limitação histórica: o alcance. É a soma de duas fraquezas que juntas se tornam uma força.

Enxames do futuro e a sombra do Shahed

Embora o Gerbera só possa carregar um FPV, pelo menos por enquanto, tudo indica que ele seja um protótipo para algo maior. A lógica industrial e militar sugere que plataformas maiores, como o Shahed, poderiam transportar múltiplos drones de ataque, aumentando as chances de impacto e permitindo o ataque a múltiplos alvos em uma única missão.

Além disso, o conceito lembra vagamente um tipo de bombardeiro que não lança bombas, mas pequenos caçadores autônomos. O Frankenstein ainda está em seus estágios iniciais, mas sua forma final já é intuída.

Teia de comunicações

Além disso: diante das limitações impostas pelo bloqueio do Starlink pela SpaceX há alguns dias, a Rússia recorreu a uma invenção que não tínhamos visto na guerra: conjuntos de rádios em malha de origem chinesa que permitem que drones se comuniquem entre si e estendam o controle em saltos sucessivos.

Estamos falando de um sistema que já é bastante caro, mas que reduz a dependência de satélites e abre caminho para operações mais profundas e impactantes. A médio prazo, especialistas russos apontam para outra mutação ou variante do monstro voador: conjuntos FPV com maior autonomia e capacidade de tomada de decisão própria, neste caso menos dependentes do operador humano e muito mais difíceis de neutralizar. Em segundo plano, mais IA.

Do campo de batalha a um problema global

Este é possivelmente o último passo a ser analisado com o surgimento desses modelos. A Ucrânia demonstrou uma capacidade excepcional de abater drones de transporte antes que lancem sua carga útil, mas agora o conceito saiu do armário.

Os mísseis FPV lançados podem destruir radares, sistemas antiaéreos, aeronaves em solo ou mesmo colunas blindadas a distâncias impensáveis ​​até recentemente, tudo a um custo irrisório comparado aos mísseis tradicionais. Em outras palavras, essa nova fase Frankenstein não é apenas uma raridade da guerra na Ucrânia: é uma prévia perturbadora do futuro dos conflitos, onde a inovação visa ser "costurada" às pressas com peças disponíveis, resultando em consequências devastadoras.

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