A China tem deixado pistas cada vez mais explícitas sobre como prevê os conflitos do futuro. Em 2025, as manobras do Exército de Libertação Popular (ELP) incluíram exercícios de assalto em ilhas menores usando robôs terrestres e sistemas não tripulados, um sinal de que Pequim não está mais apenas ensaiando travessias anfíbias clássicas, mas cenários onde as máquinas abrem caminho antes dos soldados. Essas práticas definiram uma direção clara: a automação de combate não era mais uma teoria distante, mas algo que a China estava começando a testar em campo.
Agora, o país intensificou esse teste.
Drones com fuzil
A China deu um salto qualitativo no uso de drones de combate ao demonstrar que um VANT armado com um fuzil de assalto padrão pode acertar 100% dos seus disparos em um alvo humano a 100 metros de distância enquanto paira no ar.
O sistema, desenvolvido por uma empresa chinesa em conjunto com a academia de operações especiais do ELP, disparou 20 vezes e metade dos impactos ocorreu num raio comparável ao de um tiro na cabeça, um resultado que deixa claro que essas não são mais plataformas experimentais, mas armas de precisão prontas para ambientes reais.
Não parece ser um experimento isolado ou uma demonstração de laboratório: a própria equipe explicou que o único disparo "imperfeito" se deveu a munição defeituosa, e não ao sistema, tornando este teste um sinal inconfundível da direção para onde o poderio militar chinês está caminhando.
Taiwan e um problema
Este avanço não pode ser compreendido sem o contexto de Taiwan, um dos territórios mais urbanizados do planeta, onde qualquer operação militar exigiria combates em megacidades densamente povoadas, repletas de civis, infraestruturas subterrâneas e ruas estreitas que neutralizam muitas vantagens tradicionais.
Para o Exército Popular de Libertação (PLA), o desafio não é apenas cruzar o mar, mas dominar bairros, estações de metrô e complexos residenciais onde a infantaria humana sofre enormes custos políticos e militares. A resposta da China a esse dilema não é doutrinária nem moral, mas técnica: tratar a guerra urbana como um problema de engenharia que pode ser resolvido delegando a violência a máquinas capazes de se mover, identificar alvos e disparar sem fadiga ou medo.
Aposta
De fato, o The Diplomat lembrou que o teste com drones armados se encaixa na terceira grande fase da modernização militar chinesa, a chamada "inteligência artificial", que busca substituir decisões humanas por sistemas de inteligência artificial distribuídos. Após mecanizar e digitalizar suas forças, o Exército Popular de Libertação (PLA) agora aspira delegar funções-chave (detecção, priorização e ataque) a algoritmos que operam mais rapidamente do que qualquer cadeia de comando humana.
Nesse contexto, um drone com um rifle não é uma curiosidade, mas sim uma peça fundamental de um ecossistema onde sensores, armas e software atuam de forma coordenada, reduzindo o papel do soldado a um mero autorizador inicial ou, no extremo, eliminando-o completamente da tomada de decisões.
Enxames em vielas
Há muito mais, pois a mídia destacou documentos e estudos ligados a universidades militares chinesas que revelam que o alvo não são drones individuais, mas enxames autônomos projetados especificamente para a guerra urbana. Esses sistemas são projetados para operar em baixa altitude, dentro de edifícios, em ambientes internos e subterrâneos, mesmo quando as comunicações estão degradadas ou inexistentes.
Usando regras simples e auto-organização, enxames poderiam patrulhar áreas, rastrear pessoas e executar ataques sem receber ordens em tempo real, uma solução que o Exército Popular de Libertação considera ideal para neutralizar defesas em cidades como Taipei ou Kaohsiung e para eliminar alvos-chave antes que forças externas possam intervir.
Área cinzenta da legalidade
A aposta tecnológica é acompanhada por uma posição legal deliberadamente ambígua de Pequim sobre armas autônomas letais. Como? Ao definir como inaceitáveis apenas os sistemas que atendem simultaneamente a uma série de critérios muito rigorosos, a China se permite ampla margem de manobra para desenvolver armas capazes de matar sem supervisão humana direta, desde que possam ser detidas em teoria ou sigam regras pré-programadas.
Essa ambiguidade, dizem eles, contrasta com os riscos documentados da IA em combate (erros de identificação, incapacidade de interpretar intenções humanas, vieses de dados) e facilita o avanço da pesquisa sem freios regulatórios claros.
Futuro que está sendo ensaiado hoje
Em resumo, o drone que dispara com precisão cirúrgica a 100 metros não é uma anedota, mas uma prova tangível da direção que a estratégia de Pequim está tomando: transferir a guerra para o coração da cidade e delegar isso às máquinas.
Não há dúvida de que, se esse modelo for aplicado em um conflito como o de Taiwan, a combinação de enxames autônomos, armas leves integradas e decisões sem intervenção humana poderia multiplicar o risco para os civis e reduzir os limites políticos para o uso da força.
Deste ponto de vista, o que agora é apresentado como um experimento técnico é, na realidade, um prenúncio do mais perturbador: o de uma guerra urbana onde as ruas não são mais patrulhadas por soldados, mas por robôs armados que nunca pedirão ordens.
Imagem | Heeheemalu
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