Escalar o Everest custa R$ 300 mil, mas fazer isso do seu sofá de casa é grátis

Uso de drones tornou possível algo que antes era privilégio de poucos: democratizar a ascensão ao Everest

Monte Everest
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PH Mota

Redator
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PH Mota

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Jornalista há 15 anos, teve uma infância analógica cada vez mais conquistada pelos charmes das novas tecnologias. Do videocassete ao streaming, do Windows 3.1 aos celulares cada vez menores.

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Um drone DJI Mavic 3 Pro equipado com uma câmera Hasselblad conseguiu capturar algo que até recentemente parecia impossível: a ascensão completa do Monte Everest, do acampamento base ao cume, em um único voo contínuo. Durante 43 minutos, a aeronave percorreu 3,5 mil metros de altitude, subindo a geleira de Khumbu, o Colo Sul e as paredes finais até atingir uma altitude de 8.848 metros. As imagens revelam a rota normal de ascensão em toda a sua magnitude, incluindo as filas características de alpinistas que, a cada temporada, tentam coroar o teto do mundo.

O desafio

Nessa altitude, o ar contém apenas um terço do oxigênio disponível ao nível do mar, as temperaturas podem cair para -30°C e os ventos atingem velocidades que impossibilitariam o voo de qualquer drone convencional. A equipe utilizou o Mavic 3 Pro com um sensor CMOS de quatro terços, uma combinação que permitiu manter a estabilidade e a qualidade da imagem em condições extremas. Além do espetáculo visual, este voo faz parte de um projeto mais ambicioso da DJI: demonstrar que os drones podem salvar vidas na montanha mais alta do planeta.

Drones nas montanhas

Os testes da DJI no Everest respondem a uma estratégia de negócios clara: transformar seus drones em ferramentas de resgate e logística em ambientes extremos. A empresa chinesa busca demonstrar que essas aeronaves podem transportar medicamentos, localizar alpinistas desaparecidos e facilitar operações de emergência em altitudes onde o ar rarefeito dificulta qualquer intervenção humana.

O precedente mais conhecido ocorreu em 2018, quando o alpinista escocês Rick Allen foi localizado no Broad Peak após 36 horas perdido a uma altitude de mais de 7 mil metros, graças a um drone DJI Mavic. Esse resgate, coordenado por Bartek Bargiel, irmão do esquiador Andrzej Bargiel, de quem falaremos novamente a seguir, marcou um ponto de virada na percepção dos drones como instrumentos de segurança nas altas montanhas.

Salto qualitativo

Em 2025, a empresa nepalesa Airlift Technology começou a fornecer serviços de logística com drones entre o Acampamento Base do Everest e o Acampamento Um, separados por aproximadamente 2,9 quilômetros em linha reta, mas por uma diferença de altitude de 700 metros e pela perigosa Cascata de Gelo de Khumbu. O que leva de seis a sete horas para os sherpas atravessarem, um drone completa em seis ou sete minutos. Milan Pandey, piloto de drones da empresa, explica que, durante a temporada de escalada de 2025, eles transportaram escadas, cordas e cilindros de oxigênio seguindo as instruções de rádio dos sherpas que instalam as rotas fixas.

Mais segurança

O impacto na segurança ocupacional desses trabalhadores de alta montanha é significativo. Os chamados "médicos da cascata de gelo" (sherpas especializados em preparar e manter a passagem pela geleira Khumbu) tradicionalmente tinham que subir e descer dezenas de vezes a cada temporada carregando equipamentos pesados ​​em terreno instável, onde quase 50 pessoas morreram desde 1953. Agora, eles podem solicitar equipamentos adicionais sem precisar descer ao acampamento base, reduzindo drasticamente o risco.

O caso chave

Em 22 de setembro de 2025, o esquiador de montanha polonês Andrzej Bargiel realizou um feito que combina alpinismo extremo com inovação tecnológica: ele escalou o Everest sem oxigênio suplementar e desceu esquiando até o acampamento base sem tirar os esquis. Após quase 16 horas de escalada na chamada "zona da morte", acima de 8 mil metros, Bargiel iniciou a descida pela rota do Colo Sul. O que foi inovador foi o papel dos drones nesta expedição: seu irmão, Bartek, pilotou um do acampamento base para guiá-lo pela cascata de gelo de Khumbu, o trecho mais perigoso da descida.

Tudo isso é mostrado no documentário completo de 31 minutos que registra a aventura usando câmeras montadas no capacete de Bargiel e imagens aéreas capturadas por drones. As imagens revelam uma descida extremamente técnica: gelo, paredes quase verticais, travessias em saliências expostas e, no trecho final da cachoeira Khumbu, manobras lentas desviando de fendas profundas e blocos de gelo do tamanho de prédios. A ajuda do drone foi crucial justamente nesse trecho: Bartek sobrevoou a geleira em tempo real, identificando pontes de neve estáveis, sinalizando becos sem saída e escolhendo encostas seguras.

Democratização visual

Vídeos como esses fazem parte de um fenômeno maior. O YouTube hospeda milhares de gravações que documentam escaladas de montanhas, explorações de cavernas, travessias de geleiras e sobrevoos de penhascos que, até uma década atrás, só podiam ser registrados por helicópteros ou drones.

Um exemplo é o do fotógrafo chinês Ma Chunlin, que passou cinco anos obtendo as permissões necessárias e realizando voos de teste antes de conseguir um registro definitivo da ascensão ao Everest em um take único.

Tecnicamente possível

Esse tipo de conteúdo responde a uma evolução tecnológica que tornou acessíveis ferramentas antes reservadas a profissionais. Modelos como o DJI Mavic Mini, que pesa 249 gramas, permitem que usuários sem experiência prévia capturem imagens aéreas estabilizadas em resoluções superiores a Full HD. A portabilidade é fundamental: drones dobráveis ​​que cabem em uma mochila durante longas caminhadas eliminaram as barreiras logísticas que antes limitavam a fotografia aérea a equipamentos especializados.

As dúvidas

A proliferação de drones em espaços naturais gerou debates sobre seu impacto. As regulamentações variam significativamente entre países e regiões: alguns Parques Nacionais proíbem completamente seu uso, enquanto outros permitem voos com autorização prévia. O equilíbrio entre o acesso visual à natureza e a preservação desses ambientes (incluindo a proteção da vida selvagem que pode ser perturbada pelo ruído e pela presença desses dispositivos) permanece uma questão em aberto.

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