Ele participou da montagem dos primeiros Fuscas no Brasil e acabou demitido após denunciar corrupção na Volkswagen

Quem foi Marcílio “Fritz” da Cruz Lopes, o primeiro funcionário brasileiro da Volkswagen do Brasil que foi apagado da memória da empresa

Marcílio da Cruz Lopes. Créditos:  Acervo MIAU
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Laura Vieira

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Laura Vieira

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Jornalista recém-formada, com experiência no Tribunal de Justiça, Alerj, jornal O Dia e como redatora em sites sobre pets e gastronomia. Gosta de ler, assistir filmes e séries e já passou boas horas construindo casas no The Sims.

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Antes da Volkswagen se tornar o que é hoje, um dos pilares da indústria automobilística brasileira, a empresa operava em condições precárias e contava com poucos funcionários na montagem dos primeiros carros. Foi nesse contexto, no início dos anos 1950, em São Paulo, que Marcílio da Cruz Lopes, conhecido como Fritz, entrou para a história como o primeiro brasileiro oficialmente registrado como funcionário da montadora. Fluente em alemão, ele se tornou uma conexão improvável entre a diretoria estrangeira e a fábrica no Brasil. No entanto, décadas depois, seu nome foi apagado da memória institucional da empresa após denunciar um esquema de desvio de peças

Fritz era lavador de carros, mas tornou-se um funcionário estratégico da  Volkswagen

A trajetória de Fritz dentro da Volkswagen começou bem na base da cadeia de produção. Recém-chegado a São Paulo, sem dinheiro e sem contatos, ele conseguiu um trabalho como lavador de carros na Volkswagen do Brasil, que funcionava em um galpão alugado na Rua do Manifesto, no bairro do Ipiranga. No entanto, tudo mudou quando o presidente da empresa da época, o alemão Friedrich Wilhelm Schultz-Wenk, ouviu Fritz falar alemão com fluência.

Criado por uma família de imigrantes alemães em Santa Catarina, Marcílio dominava o idioma. Rapidamente, passou a auxiliar na montagem dos Fuscas trazidos da Alemanha em sistema CKD (completamente desmontados) e virou uma ponte informal entre a diretoria e os operários. Sua importância cresceu a ponto de ele ser chamado constantemente para resolver problemas técnicos e de comunicação.

Essa proximidade do funcionário com a presidência da empresa resultou em momentos simbólicos da indústria nacional. Em 1959, Fritz participou da inauguração da fábrica da Anchieta, em São Bernardo do Campo, evento que contou com a presença do presidente Juscelino Kubitschek e do então presidente mundial da Volkswagen, Heinrich Nordhoff. Lá,  Fritz atuou como apoio direto da comitiva alemã e apareceu em registros históricos do evento.

A denúncia de corrupção encerrou a trajetória de Fritz na Volkswagen e apagou seu nome da história oficial

Com acesso livre à presidência e trânsito entre diferentes setores da fábrica, Fritz passou a “incomodar” pessoas importantes da empresa, que estavam no topo da hierarquia interna. A situação se agravou quando ele identificou e denunciou um esquema de desvio de peças, escondidas em Fuscas enviados às concessionárias. Apesar da ética do funcionário, a atitude teve consequências rigorosas que mudaram totalmente o rumo de Fritz.

Após a morte de Schultz-Wenk, em 1969, Fritz perdeu sua principal proteção dentro da empresa. Pouco tempo depois, foi demitido sob justificativas genéricas. A partir daí, sua vida entrou em declínio. Sem apoio institucional e com o nome apagado da história oficial da Volkswagen no Brasil, ele enfrentou dificuldades financeiras extremas e chegou a viver em situação de rua. Fritz morreu cerca de uma década atrás, sem qualquer reconhecimento público da montadora. 


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