Uma análise elaborada pela NASA, com base em 35 anos de registros de satélite sobre o nível do mar, alerta que o atual fenômeno El Niño apresenta semelhanças com o registrado no período de 1997-1998, embora com indícios de atingir uma intensidade maior.
A comparação deste ciclo com os episódios anteriores de 1997-1998 e 2015-2016 revela que, apesar de compartilharem uma magnitude elevada, cada evento apresenta uma distribuição particular de água quente e uma resposta atmosférica distinta, o que altera geograficamente as áreas sujeitas a secas, chuvas ou inundações.
O relatório do NASA Earth Observatory utiliza dados de altimetria oceânica para medir anomalias na superfície do mar — um indicador direto do acúmulo de calor, visto que a água se expande ao ter sua temperatura elevada. Para isolar os dados de tendências de longo prazo e variações sazonais, os pesquisadores removeram esses sinais de uma série que reúne informações das missões TOPEX/Poseidon, Jason-2 e Sentinel-6 Michael Freilich.
Josh Willis, cientista do projeto de missões sobre o nível do mar no Laboratório de Propulsão a Jato (JPL) da NASA, destacou a continuidade dessas observações: “O aspecto singular da altimetria é que dispomos de um registro de 35 anos, obtido por satélites quase idênticos que percorrem praticamente a mesma trajetória sobre a Terra, com cada missão sobrepondo-se à seguinte”.
Com base nessa sequência, o especialista observou: “Isso nos permite analisar dados históricos e comparar este fenômeno El Niño com o de 1997. E, neste momento, tudo indica que ele será ainda mais intenso”.
Embora o ciclo atual tenha se desenvolvido com maior velocidade do que o do final da década de 1990, a configuração observada em outubro apresenta semelhanças, como um nível do mar mais baixo no Pacífico ocidental e uma elevação em direção ao leste, com uma massa de água quente estendendo-se até a costa da América do Sul.
No evento histórico anterior, esse padrão esteve associado a chuvas abundantes no sul dos Estados Unidos; contudo, a agência espacial ressalta que as consequências não se repetem automaticamente de um período para outro, uma vez que o comportamento depende da localização do aquecimento e da dinâmica atmosférica.
Esse comportamento difere do registrado durante 2015 e 2016, quando as águas quentes na região equatorial não chegaram à costa sul-americana com a mesma intensidade, concentrando as chuvas fortes na América Central, no sudeste dos Estados Unidos e no México.
Diante desse cenário, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) estimou, em outubro, uma probabilidade de 83% de que o fenômeno El Niño permaneça em níveis fortes ou muito fortes durante o primeiro trimestre de 2027.
Willis esclareceu, no entanto, que os impactos definitivos ainda envolvem um certo grau de incerteza. “Sempre existe alguma incerteza. O fato de este El Niño se assemelhar ao de 1997 não significa que será exatamente igual; é apenas a nossa melhor estimativa no momento”, afirmou.
Paralelamente, o monitoramento por satélite detectou, no início do ano, a formação de ondas Kelvin quentes perto da Micronésia — pulsos de água que deslocam calor para o leste e enfraquecem os ventos alísios. Ao chegarem ao Pacífico oriental, essas ondas elevaram o nível da superfície oceânica entre 30 e 40 centímetros, enquanto a Indonésia e o norte da Austrália registraram níveis de 15 a 20 centímetros abaixo da média.
“As ondas Kelvin são como o batimento cardíaco do El Niño”, descreveu Willis, acrescentando: “Nossos satélites de nível do mar nos permitem observar o oceano e ver cada batimento”. Além disso, a missão PACE registrou tons mais azulados em setores do Pacífico equatorial devido a uma menor concentração de fitoplâncton, resultado da desaceleração dos ventos, que reduziu a ascensão de águas profundas ricas em nutrientes.
Por sua vez, a Organização Meteorológica Mundial (OMM) alertou, em Genebra, que a anomalia térmica na superfície do Pacífico tropical poderia atingir 3,8 graus Celsius entre novembro de 2026 e janeiro de 2027. A secretária-geral da organização, Celeste Saulo, observou que essa previsão supera os registros anteriores e ressaltou que, embora não represente um aumento equivalente da temperatura média global, exige antecipação por parte dos governos.
“Nunca registramos um valor de 3,8 no passado. Durante alguns episódios de El Niño particularmente intensos, observamos valores próximos a 3, os quais tiveram repercussões muito significativas em nível mundial”, afirmou, acrescentando: “Não podemos impedir o El Niño, mas podemos prevenir muitas de suas consequências humanas mais graves”.
Em consonância com esses alertas, o diretor do Centro Internacional para a Pesquisa do Fenômeno El Niño (CIIFEN), Felipe Costa, ressaltou que as consequências variam de acordo com as características de cada território e recomendou que as decisões sejam baseadas em previsões locais e na avaliação de riscos para a saúde, a infraestrutura elétrica e a produção agropecuária.
Os modelos analisados pelo órgão projetam, para o trimestre entre novembro e janeiro, precipitações acima da média na costa do Equador e do Peru, no centro do Chile, na Argentina, no sul do Brasil e em parte do Paraguai; por outro lado, prevê-se um déficit hídrico na América Central, no norte da América do Sul, na Amazônia e no altiplano boliviano.
Texto traduzido e adaptado do portal El Dia
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