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"É uma questão de saúde mental": cada vez mais pais estão pagando até 1.500 reais por noite a babás noturnas

Elas assumem o turno às nove da noite e encerram pela manhã com um duplo objetivo: cuidar dos bebês... e dos pais

Night Nanny
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Natália P. Martins

Redatora
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Natália P. Martins

Redatora

Blanca Yamira tem 56 anos, trabalha como babá e cobra cerca de 260 euros por jornada (cerca de  R$ 1.571, na conversão atual). Em um mês bom, chega a faturar mais de 4.000 euros — mais de R$ 24 mil. Parece curioso, mas é que Yamira não é uma babysitter qualquer. 

Na verdade, o que ela faz nem sequer se encaixa exatamente nesse termo. Ela não fica cuidando de crianças que estão sozinhas em casa. Sua jornada começa às nove da noite e vai até as sete da manhã, cobrindo toda a madrugada para apoiar pais que acabaram de ter um bebê. Em outras palavras: quando o recém-nascido chora ou desperta, é ela quem atende. Enquanto isso, o pai e a mãe continuam dormindo tranquilamente na cama.

Yamira é o que se conhece no exterior como uma 'night nanny' (babá noturna).

Uma profissional, duas funções

A rotina e a história de Yamira foram reveladas pelo Corriere della Sera, que publicou recentemente uma reportagem sobre as babás noturnas que atuam em várias cidades da Itália.

Nem todas cobram o mesmo valor nem têm a mesma bagagem profissional, mas costumam reunir características similares: são puericultoras que vão até a residência dos clientes no período noturno — geralmente entre as 21:00 e as 06:00 ou 07:00 — para cumprir um papel duplo. Elas cuidam das necessidades dos bebês e proporcionam descanso real aos pais.

Noites em claro

"Estou sempre a postos, pronta para intervir", brinca Yamira, que atualmente atende uma família em Lugano, no cantão de Ticino, no sudeste da Suíça. Seu turno começa exatamente quando o da maioria das babás diurnas se encerra: ela chega no fim da tarde, troca a fralda do bebê, dá banho e permanece de vigília a noite inteira, garantindo que os pais consigam recuperar as horas de sono.

Quando o bebê acorda faminto, é Yamira quem prepara e oferece a mamadeira. Ela só aciona a mãe caso seja indispensável amamentar no peito. "Nós, babás noturnas, não temos vida própria. Abrimos mão de tudo para oferecer esse suporte. Durante anos acordei a cada duas horas à noite, inclusive durante as férias", desabafa. Em contrapartida, cobra 260 euros por noite, o que explica por que ganha mais hoje do que na época em que trabalhava como bancária no Equador.

Um caso isolado? Longe disso

O Corriere della Sera entrevistou outras profissionais do ramo, como Renata Wetter, de 61 anos, que cobra 180 euros por noite. A primeira questão que ela faz questão de pontuar é que não se considera uma babá comum ou cuidadora pontual. Assim como Yamira, possui formação técnica em puericultura, área voltada ao desenvolvimento saudável e aos cuidados com a primeira infância. Embora ambas atendam na mesma região, o modelo das night nannies é amplamente disseminado em outros países da Europa.

A atividade também não é novidade recente. Em 2018, o jornal britânico The Guardian já repercutia a tendência impulsionada pela estreia de Tully, filme estrelado por Charlize Theron no papel de uma mãe sobrecarregada que recorre aos serviços de uma babá noturna. Naquela época, contratar uma night nanny já era algo comum no Reino Unido, onde a primeira agência voltada exclusivamente a essa modalidade surgiu no final dos anos 1990.

A iniciativa partiu de uma mãe que não encontrava alternativas especializadas para o período da madrugada. Menos de dez anos depois, a empresa já gerenciava um catálogo com 200 cuidadoras espalhadas pela Inglaterra, atendendo mais de 10.000 famílias. E o serviço não saía barato: a diária girava em torno de 155 libras esterlinas.

Quarto infantil

No radar do mundo corporativo

O grande trunfo de especialistas como Yamira ou Renata é irem muito além do cuidado com o bebê — tarefa que uma babá diurna tradicional também executa. O trabalho delas preserva a qualidade do sono da criança e dos pais, eliminando as exaustivas madrugadas ininterruptas de fraldas e choros. O benefício é tão evidente que algumas companhias já passaram a custear babás noturnas para seus colaboradores.

O Financial Times detalhou o movimento há alguns anos a partir do exemplo de uma startup de Londres. A liderança concluiu que, embora as night nannies tenham custo elevado, elas permitem que os pais retornem ao escritório após a licença descansados e muito mais produtivos. O negócio manteve o benefício da licença-maternidade remunerada e acrescentou o auxílio da babá noturna como diferencial competitivo.

Um setor em plena expansão

O cuidado voltado ao pós-parto e à recuperação dos pais vem movimentando uma indústria milionária. O modelo chamou atenção na China com os "hotéis de luxo" especializados no confinamento pós-parto de mães recentes. Também ganha espaço na Europa por meio de consultores de sono infantil focados em bebês com insônia persistente. A busca não surpreende: o descanso se tornou um artigo raro e disputado, a ponto de um norte-americano médio estimar que desembolsaria até US$ 290 (cerca de R$ 1570) por uma noite perfeita de sono.

"Um investimento na família"

Quem contrata esse tipo de acompanhamento? Trata-se de um benefício exclusivo de classes mais ricas? Embora o valor praticado por Yamira pese na maioria dos orçamentos, o Corriere della Sera aponta que o serviço atinge uma base maior do que aparenta. Nem todas as famílias mantêm o contrato por longos períodos — muitas optam pela contratação apenas nos primeiros dias após a chegada do bebê ao lar.

O jornal cita o caso de uma advogada de Milão, de 38 anos, que acertou a contratação de duas babás antes mesmo do parto. O objetivo era ter cobertura integral durante a primeira semana, fase mais crítica do cansaço biológico.

"Quando nosso primeiro filho nasceu, meu marido me deu um anel muito especial. Desta vez, sugeri um presente que beneficiasse todo mundo: contratar uma puericultora. Deixei clara a minha prioridade: 'Não pretendo me anular como mulher nem ser obrigada a acordar nenhuma vez na madrugada'", relatou. 

Apesar de críticas pontuais da própria mãe, a mulher garante não carregar culpa por delegar a rotina noturna a uma especialista: "Encaro como questão de saúde mental; um lar estruturado e tranquilo é o melhor ambiente para o bebê".

Uma mudança demográfica ampla

A ascensão das babás noturnas reflete transformações estruturais profundas na maternidade moderna. Os registros estatísticos confirmam que as mulheres na Europa estão postergando a gravidez, com um número expressivo tendo o primeiro filho após os 35 anos. Isso significa que muitas mães de primeira viagem contam com carreiras estabelecidas e estabilidade financeira suficiente para arcar com serviços especializados.

Soma-se a isso o deslocamento geográfico provocado pelo mercado de trabalho, fazendo com que muitos casais vivam longe dos avós e da rede de apoio tradicional. Não é uma tendência isolada: um movimento idêntico ocorre na China, onde o mercado voltado ao puerpério explodiu, com centros de acolhimento cujos pacotes mensais variam entre 10.000 euros e até mais de 50.000 euros.

Imagens | Frankie (Unsplash) e Bastien Jaillot (Unsplash)

Texto traduzido e adaptado do portal parceiro Xataka Espanha. 

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