A Sony acaba de desembolsar 50 mil dólares a um hacker. Esse é o valor máximo oferecido pelo programa de recompensas da empresa para quem encontra falhas no PlayStation 5 — mas, neste caso, faltam alguns zeros nessa quantia se levarmos em conta a dimensão do problema que o hacker descobriu.
Isso porque ele contou como conseguiu derrubar a segurança do console em seu nível mais baixo. No processo, não ganhou apenas o dinheiro: também conquistou a antipatia de muita gente. Afinal, esta é uma história de traição entre hackers (e não estou exagerando nem um pouco).
O hacker se chama Jordy e usa o apelido 2tonejordy na plataforma pela qual a Sony administra seu programa de “caça a bugs”. Nele, quem encontrar uma falha no console pode comunicá-la em troca de uma recompensa. A Sony então corrige o problema. A questão é que, em 14 de outubro, Jordy fez uma piada em sua conta no X, publicando uma captura de tela do pagamento acompanhada da frase: “Pelo menos vai dar para comprar GTA VI”.
50 mil dólares é o valor máximo do programa e, como informa o Dexerto, apenas outra pessoa havia recebido essa quantia nos últimos anos. Essa é a recompensa reservada para quem descobrir vulnerabilidades críticas e poucas coisas são tão críticas quanto conseguir derrubar o hipervisor do PS5.
Esse hipervisor é a camada de software que separa o sistema do console do hardware e controla qual código pode ser executado. É como a última linha de defesa da máquina antes que um programa não assinado pela Sony possa se comunicar diretamente com o processador. Contornar o hipervisor abre as portas para modificar o PS5.
O contexto
Na verdade, isso já está sendo feito, e em uma velocidade impressionante, impulsionada tanto pelas últimas medidas anticonsumidor da Sony quanto pela agilidade que as ferramentas de inteligência artificial proporcionam ao desenvolvimento de código e à engenharia reversa.
No início deste ano, outro pesquisador, chamado Andy Nguyen, especialista em segurança do Google, usou uma vulnerabilidade desse tipo para instalar o Linux em um PS5. Ele mostrou o console inicializando o Linux e executando GTA V até mesmo com o ray tracing ativado. Depois, publicou todo o projeto no GitHub.
O detalhe fundamental é que se trata de uma modificação temporária, que precisa ser repetida a cada inicialização e que exige um console com uma versão antiga do firmware. A vantagem é que, ao executar o procedimento, você tem um PS5 rodando Linux — mas, se não o fizer, continua tendo um PS5 normal. É o melhor de um PC e de um console em uma única máquina.
A falha descoberta por Nguyen não havia sido corrigida nas atualizações dos últimos meses. Por meio dela, o pesquisador pretendia ampliar a compatibilidade do Linux com versões mais recentes do firmware do console e com modelos como o PS5 Pro. Seu plano era esperar até depois do lançamento de GTA VI para divulgar a descoberta. Afinal, ao contrário do que às vezes se pensa, um dos objetivos do hacking é demonstrar as próprias habilidades de programação, tanto para si mesmo quanto para a comunidade.
Nguyen queria soltar a bomba em 2027, depois do lançamento do jogo da Rockstar, para que as pessoas pudessem comprá-lo legalmente. A ideia era permitir que os usuários atualizassem o console para jogar GTA VI legalmente e, ao mesmo tempo, continuassem tendo a possibilidade de transformar temporariamente a máquina em um sistema Linux, já que a Sony ainda não teria corrigido a falha.
A polêmica
No entanto, Jordy se antecipou e contou à Sony que existia uma falha que a empresa poderia corrigir, mediante o pagamento da recompensa. Segundo o site Tom's Hardware, quando Jordy disse ter encontrado a vulnerabilidade, Nguyen entrou em contato com ele para combinar que esperariam alguns dias antes de enviar o relatório à Sony. No fim das contas, não passou nem um dia até que o relatório chegasse à empresa.
A justificativa apresentada por Jordy, conforme vemos no IGN, é que outras pessoas também estavam usando inteligência artificial para encontrar essas falhas e que, se ele não fizesse o alerta, outra pessoa faria. Como consequência, Nguyen anunciou que estava abandonando a cena do PS5 e o projeto Linux, classificando aqueles que usam IA sem entender o que estão fazendo como “slop kiddies”. Seria algo como “pirralhos da porcaria feita por IA”, mais ou menos, categoria na qual ele inclui Jordy. E, na publicação no Twitter em que Jordy mostra o pagamento, muita gente está detonando o hacker.
Imparável?
As críticas a Jordy se concentram no descumprimento do acordo de espera, na ostentação do pagamento nas redes sociais e no uso de inteligência artificial para encontrar a falha. Como citado, parte da diversão dos hackers está em demonstrar as próprias capacidades. Por isso, muitos veem a IA como um atalho e, além disso, como algo que inundou e sobrecarregou diversos programas de recompensas com os quais a comunidade trabalha há bastante tempo.
Como vemos no Kotaku, alguns membros da comunidade teriam preferido uma recompensa coletiva pela exploração da vulnerabilidade e que ela fosse mantida longe da Sony. Mas, independentemente disso, toda a onda de programação assistida por IA, somada à insatisfação das pessoas com as decisões recentes da Sony e com o estado atual da indústria dos videogames, colocou o PS5 na mira. Emuladores estão sendo desenvolvidos e já se sabe como romper a segurança do sistema.
E, se a Sony tem motivos para se preocupar, a Rockstar também tem, pois circulam rumores de que GTA VI, possivelmente o jogo mais caro da história, poderia rodar em PCs sem um lançamento oficial ou nos próprios consoles por meio do carregamento de cópias ilegais, poucas horas ou dias depois do lançamento, previsto para 19 de novembro.
Imagem | A Turma do Bairro
Texto traduzido e adaptado do portal parceiro Xataka Espanha.
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