Em 1905, um empresário levou cervos para a Argentina para "decorar" seu jardim; agora, eles circulam livremente por três províncias

O mundo é um lugar cada vez mais estranho; e a culpa é nossa

Em 1905, um empresário levou cervos para a Argentina para "decorar" seu jardim; agora, eles circulam livremente por três províncias.
Sem comentários Facebook Twitter Flipboard E-mail
fabricio-mainenti

Fabrício Mainenti

Redator

Nas encostas do Parque Provincial Ernesto Tornquist, ao sul da província de Buenos Aires, existem gamos de pelagem avermelhada com manchas brancas e galhadas palmadas que podem chegar a até 70 centímetros de comprimento. Eles não estão lá por acaso; não existem gamos nativos no continente americano.

Alguém os levou para lá com a ideia de "decorar" suas terras. O que aconteceu depois é uma das situações mais curiosas da história dos cervídeos no mundo.

O que um cervo como você faz em um país como este?

Segundo registros do CONICET, tudo começou justamente com Ernesto Tornquist. Em 1905, esse empresário argentino trouxe gamos da Espanha e da Polônia e os soltou em sua propriedade, ao pé da Sierra de la Ventana. De lá, e muito rapidamente, eles se espalharam por diversos lugares.

Se, no início, o projeto tinha uma função quase paisagística, logo reservas de caça de todo o país solicitaram exemplares, e a situação saiu do controle. As datas variam, mas é certo que, já na década de 1930, eles estavam sendo soltos em reservas de caça no centro da Argentina.

"Saiu do controle"?

Acredito que essa seja a palavra exata, sim. De fato, desde 2021, o gamo consta na lista oficial de espécies exóticas invasoras da Argentina, na categoria de "uso controlado". Ou seja, é permitido caçar e criar, mas sob controle. Com cautela.

Atualmente, a espécie vive em liberdade em três províncias (Buenos Aires, Neuquén e Río Negro). É verdade que sua presença é realmente expressiva apenas na Ilha Victoria e na Península Huemul; mas é justamente por isso que foi possível mensurar seu impacto real nos ecossistemas.

Já sabíamos que, na Ilha Victoria, os cervídeos quase eliminaram o maqui no final da década de 1980. O que sabemos hoje é que seus hábitos alimentares (eles se alimentam seletivamente do cipreste-da-cordilheira e de outras plantas lenhosas nativas) facilitam a invasão de outras espécies invasoras, como os pinheiros. Ainda que em pequena escala, eles estão alterando o ecossistema gradualmente, substituindo espécies nativas por espécies europeias.

É um animal acostumado a sobreviver

E não é a primeira vez: esses animais precisam "conquistar" ou "reconquistar" novos ecossistemas. Em fevereiro de 2024, uma equipe de 45 pesquisadores publicou na PNAS um estudo sobre 10.000 anos de história do gamo-europeu, e as conclusões foram claras: com as glaciações, espécies como corços, cervos ou gamos só restaram em regiões próximas à Anatólia e aos Bálcãs.

Na verdade, acredita-se que todos esses animais tenham chegado novamente à Península Ibérica graças aos romanos.

Isso é o normal, como dito

A distinção entre "nativo" e "invasor" é muito mais tênue do que parece. Os gamos chegaram a Barbuda por volta de 1700 e tornaram-se o animal nacional. O gamo na Argentina ainda é, de fato, um invasor. Mas ninguém sabe por quanto tempo. E, conhecendo as consequências que eles causam ao meio ambiente, é preciso refletir sobre o que fazer — e quanto antes, melhor.

Imagem de capa | Diana Parkhouse

Texto traduzido e adaptado do portal parceiro Xataka Espanha

Inicio