A psicologia sugere que as pessoas que sempre devolvem o carrinho de compras ao seu lugar no supermercado têm algo em comum; o segredo não está apenas em ser organizado

  • A teoria do carrinho de supermercado circula pela internet há anos;

  • A sua pergunta sobre o que fazemos quando ninguém nos obriga é mais importante do que parece

A psicologia sugere que as pessoas que sempre devolvem o carrinho de compras ao seu lugar no supermercado têm algo em comum; o segredo não está apenas em ser organizado
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Fabrício Mainenti

Redator

Chamam-na de "teoria do carrinho de supermercado" e, a meu ver, é uma das melhores formas já escritas de compreender a nossa sociedade. A ideia é simples: basta observar o que as pessoas fazem depois de terminar as compras e colocar as sacolas no carro. É nesse momento — quando é preciso devolver o carrinho ao local apropriado no supermercado — que a psicologia encontrou algo fascinante.

O ponto central é que não existe nenhuma regra que impeça você de simplesmente deixar o carrinho onde bem entender. Pode ser que a fileira de carrinhos esteja logo ao lado, ou que você precise caminhar alguns metros; mas nada o impede de largá-lo ali mesmo e seguir com a vida como se nada tivesse acontecido. E, claro, também não há nenhum prêmio especial para quem decide devolvê-lo ao lugar certo.

A teoria do carrinho de supermercado

Não há multa, ninguém vai proibi-lo de pegar um carrinho na sua próxima visita ao supermercado e, provavelmente, ninguém virá lhe cobrar por não tê-lo devolvido ao local correto. Ainda assim, você o faz, como parte de uma responsabilidade social. Ou não — e é aí que entram os especialistas em psicologia e antropologia.

Por volta de 2017, a antropóloga Krystal D’Costa identificou cinco tipos de pessoas, com base na forma como lidavam com a questão do carrinho de supermercado. Havia, naturalmente, aqueles que sempre devolviam o carrinho ao lugar certo, por senso de responsabilidade; e, por outro lado, aqueles que nunca o faziam, por considerarem que essa não era uma tarefa sua.

Além desses, o estudo apontou outros perfis: aqueles que só devolviam o carrinho se a fileira estivesse próxima; os que só o faziam se houvesse alguém observando; e aqueles que o faziam por causa dos filhos, já que, para as crianças, devolver o carrinho era uma espécie de brincadeira. Essa classificação trouxe à tona um desafio sociológico que vai além da teoria em si: a dúvida sobre até que ponto fazemos a coisa certa porque realmente queremos fazê-la.

D’Costa baseou-se em um estudo publicado na revista Science para demonstrar até que ponto essa forma de agir está relacionada ao ambiente que nos cerca. O experimento consistiu em deixar quatro carrinhos abandonados em um estacionamento e colocar folhetos nos carros, para observar o que as pessoas faziam ao retornar a eles.

O que a psicologia diz sobre devolver o carrinho de supermercado

Pesquisadores da Universidade de Groningen descobriram que, com os carrinhos abandonados, 58% das pessoas jogavam o folheto no chão ao encontrá-lo no carro. Por outro lado, quando os carrinhos estavam todos devidamente organizados, esse índice de comportamento inadequado caía para 30%.

Em outras palavras: se outros tivessem desrespeitado as normas, o caos gerado levava as pessoas a seguir esse exemplo; inversamente, se a situação fosse a oposta, o efeito as incentivava a agir corretamente.

Assim como na "teoria do carrinho de supermercado", não havia recompensa por fazer a coisa certa, nem punição evidente por não fazê-la; contudo, para além da bússola moral individual, o restante da sociedade exercia uma influência que empurrava os indivíduos para uma direção ou outra.

Não deixa de ser curioso que um gesto aparentemente tão insignificante possa acarretar consequências coletivas tão expressivas. É justamente nesse ponto — a responsabilidade coletiva — que a teoria do carrinho de supermercado nos convida a refletir. É aqui que se manifesta grande parte da dinâmica do mundo atual: desde o ódio nas redes sociais até o linchamento público de outras pessoas.

É verdade que devolver ou não o carrinho de supermercado não nos torna, automaticamente, uma pessoa boa ou má — afinal, há muitas variáveis ​​envolvidas, como condições climáticas adversas ou a necessidade de cuidar de uma criança, que podem influenciar essa atitude.

Contudo, o estudo demonstrou que, se grande parte das pessoas ao nosso redor se comporta de maneira descontrolada ou agressiva, a probabilidade de que nós também ajamos da mesma forma aumenta consideravelmente.

Imagem de capa | Amigo Mobility

Texto traduzido e adaptado do portal 3DJuegos

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