O Reino Unido está pedindo aos seus cidadãos que se preparem para uma emergência de 72 horas — um imprevisto típico em tempos de guerra híbrida, que vai desde um apagão massivo até uma sabotagem russa contra a infraestrutura do país. A recomendação parece simples: estocar água, comida e suprimentos básicos. O problema é que milhões de britânicos enfrentam dificuldades até para comprar o necessário para sobreviver a cada semana. E o novo plano de segurança nacional escancarou uma pergunta incômoda: como alguém que já vive em crise permanente pode se preparar para outra crise?
O governo britânico lançou a campanha Be Ready, que recomenda a todas as casas estocar mantimentos suficientes para enfrentar 72 horas sem acesso regular a alimentos, água tratada ou serviços essenciais. A lista oficial inclui nove litros de água engarrafada por pessoa, alimentos não perecíveis, cobertores, lanternas, pilhas, kits de primeiros socorros, rádios FM, baterias portáteis e dinheiro em espécie.
O kit também contempla itens de higiene pessoal, medicamentos básicos, artigos para bebês e ração para animais de estimação. As autoridades recomendam adquirir esses produtos aos poucos, incluindo um ou dois itens a mais nas compras habituais e revisando o estoque doméstico a cada seis meses.
A campanha surge em meio a uma preocupação crescente com ataques híbridos, sabotagens e operações de guerra eletrônica contra a infraestrutura europeia. O governo britânico teme que "atores hostis" possam desestabilizar os sistemas de pagamento, as telecomunicações, o fornecimento de energia elétrica e as cadeias de distribuição de mantimentos.
Na verdade, o ministro da Defesa, Wes Streeting, alertou que essas ameaças patrocinadas por Estados estrangeiros são reais e atingem o Reino Unido cada vez mais de perto. A autoridade também destacou que a Europa pode enfrentar um perigo militar muito mais severo por volta de 2030, reforçando a urgência de preparar a população civil.
A iniciativa gerou uma onda de críticas por ignorar a dura realidade financeira de grande parte da população. De acordo com um relatório de julho de 2026 da Joseph Rowntree Foundation, cerca de 7,4 milhões de famílias de baixa renda não conseguiram pagar por itens essenciais ao longo do semestre anterior, enquanto 1,5 milhão de lares precisou recorrer a bancos de alimentos.
Yasmin Ibison, assessora da fundação, aponta um paradoxo evidente: quando milhões de pessoas já lutam diariamente para pagar comida, aquecimento e itens de higiene, é irreal pedir que comprem reservas adicionais. Para essas famílias, estocar suprimentos para emergências representa um custo que disputa recursos diretamente com as necessidades mais urgentes da casa.
Ruth Patrick, professora da Universidade de Glasgow e coordenadora do projeto Changing Realities, declarou à BBC que as orientações do governo "parecem, no melhor dos cenários, falta de sensibilidade e, no pior, um insulto aos 14 milhões de lares que enfrentam a pobreza em todo o Reino Unido". A crítica expõe o abismo entre as estratégias teóricas de segurança nacional e a vida de quem mal consegue pagar as contas básicas.
O caso de Samantha Richards, mãe solo de 47 anos que trabalha em período integral e depende de benefícios sociais, ilustra bem esse dilema. Fazer um estoque reserva significaria cortar o orçamento destinado aos cuidados do filho durante as férias escolares. Além disso, a criança é autista e consome alimentos específicos que exigem refrigeração — algo inviável em uma emergência com apagões elétricos prolongados.
Outros setores questionam a eficácia de limitar o plano a uma simples lista de supermercado. Ana, fundadora do grupo UK Preppers Club, defende que a preparação precisa estar ao alcance de todos e vir acompanhada de orientações práticas — ensinando o que fazer caso a água da torneira pare de correr, a energia caia ou a família precise se reencontrar em um momento de desespero.
Outros especialistas cobram treinamentos em noções de primeiros socorros, métodos para purificar água e alternativas para manter equipamentos médicos essenciais em funcionamento. A grande apreensão é que a capacidade de sobreviver a uma grande crise termine virando um privilégio restrito a quem tem boa renda, espaço sobrando em casa e conhecimento técnico prévio.
Por outro lado, as autoridades britânicas argumentam que o projeto busca reforçar a resiliência coletiva e aliviar a pressão sobre os serviços de emergência, permitindo que o socorro público atenda prioritariamente aos grupos mais vulneráveis. O governo enfatiza que não é necessário comprar tudo de uma só vez, recomendando formar as reservas aos poucos.
A estratégia alinha-se a diretrizes semelhantes adotadas por países como França, Irlanda e Holanda, em uma época em que eventos climáticos extremos e a dependência de sistemas digitais aumentam o receio de paralisações gerais. Ainda assim, o debate persiste: até que ponto um plano de preparação universal pode funcionar se uma parcela considerável da população não tem dinheiro nem para o dia a dia?
Matéria traduzida de Xataka*
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