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O que quis dizer o filósofo Demócrito quando afirmou: "Quem adia tudo não deixa nada terminado ou perfeito"?

Há mais de 2.300 anos, Demócrito já havia encontrado a chave para um dos problemas de 2026: a procrastinação

Imagens | Wikipedia, Luis Villasmil (Unsplash) e Brett Jordan (Unsplash)
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Fabrício Mainenti

Redator

Se Hugo Gernsback não tivesse nascido, o que hoje conhecemos como "ficção científica" provavelmente seria algo diferente, menos empolgante e certamente menos popular. Afinal, ele é, junto com H. G. Wells e Júlio Verne, um dos "pais" do gênero. Apesar desse papel, de sua relevância como editor, empresário e até inventor, Hugo é frequentemente lembrado por uma de suas criações mais extravagantes: "O Isolador", um capacete futurista antiprocrastinação em formato de pepino. Seu propósito: repelir distrações.

Se Gernsback tivesse lido Demócrito, poderia ter evitado todo esse trabalho.

Em um lugar em Abdera…

A Antiguidade Clássica foi uma era rica em pensadores talentosos, mas poucos se mostraram tão brilhantes quanto Demócrito, um polímata nascido (acredita-se) em Abdera por volta de 460 a.C. Ao longo de sua longa vida, Demócrito viajou, estudou diversas disciplinas e, sobretudo, desenvolveu uma das teorias de seu mestre Leucipo que mais nos fascina hoje: o atomismo. 1.400 anos antes do nascimento de John Dalton, seus defensores afirmavam que o cosmos era composto de partículas indestrutíveis que se combinavam no vácuo — os átomos.

Durante toda a sua vida, Demócrito refletiu sobre ética, matemática e arte. Sua erudição enciclopédica o tornou um daqueles pensadores a quem inúmeras citações proverbiais são atribuídas (com graus variados de confiabilidade). Algumas são ambíguas e abertas a múltiplas interpretações. Outras, como aquela que ele supostamente dedicou à procrastinação, são contundentes… e quase proféticas.

Imagens | Wikipedia, Luis Villasmil (Unsplash) e Brett Jordan (Unsplash)

Uma palavra de cautela

A frase em questão soa quase como uma palavra de cautela, mas isso não é realmente surpreendente. A frase continua relevante mesmo em 2026. Talvez Demócrito a tenha proferido há mais de 2.300 anos no fórum de alguma pólis grega, mas poderia muito bem ter saído dos lábios de um treinador motivado: "Quem adia tudo não deixa nada terminado ou perfeito".

Em outras palavras, cuidado com a procrastinação, pois, embora possa trazer alívio inicialmente, acabará por levar à frustração.

Essa ideia está em consonância com o pensamento de Demócrito, que incentivava a busca da eutimia, termo derivado do grego "eu" (bom) e "thynos" (espírito), que essencialmente defende um estado de espírito equilibrado. É difícil experimentar harmonia, estabilidade e calma se você está constantemente adiando tarefas que nunca são concluídas. Além disso, para Demócrito, o mais inteligente não é aspirar a prazeres passageiros e irrefletidos, mas a um espírito tranquilo.

Relevante, sim; inédito, não

Demócrito não foi, na verdade, o único (nem mesmo o primeiro) filósofo da Antiguidade Clássica a refletir sobre o que hoje conhecemos como "procrastinação". Muito antes dele, o poeta Hesíodo já havia abordado o tema, e um dos intelectuais mais influentes do Império Romano, o estadista e filósofo Marco Aurélio, também falou sobre o assunto.

"Não sejas negligente em tuas ações, nem te envolvas em tuas conversas, nem vagueies sem rumo em teus pensamentos, nem, em suma, limites tua alma ou te distraias, nem te preocupes excessivamente durante o curso de tua vida", escreveu ele em Meditações.

Suas palavras (assim como as de Sêneca) são interessantes porque revelam que a tentação de "perder tempo" e adiar tarefas aflige a humanidade há milênios.

Por que isso é importante?

É curioso que um filósofo nascido há quase 2.500 anos se preocupasse com a procrastinação (ainda que com outras palavras), mas se as palavras de Demócrito ressoam com tanta força tantos séculos depois, é por algo mais: sua surpreendente clareza. Primeiro, porque se concentram em um problema que (como sabemos agora) é quase inerente à natureza humana.

Segundo, porque, como o sábio de Abdera já intuía, adiar tarefas pode ser um hábito destrutivo que acaba por afetar negativamente nosso humor e dificultar a conquista da preciosa eutimia (um estado de bem-estar).

Uma porcentagem: 20%

Joseph Ferrari, professor de psicologia, alertou há alguns anos, em uma entrevista publicada pela Associação Americana de Psicologia, sobre o quanto somos propensos a adiar tarefas que (por um motivo ou outro) não queremos enfrentar.

“Um dos meus ditados favoritos é: ‘Todos nós procrastinamos, mas nem todo mundo é procrastinador’. Todos nós adiamos coisas, mas minha pesquisa descobriu que 20% das pessoas nos EUA são procrastinadoras crônicas. Elas adiam tarefas; fazem da procrastinação seu estilo de vida.”

Para entender a dimensão do problema, Ferrari destaca que esses 20% representam “um número maior do que o de pessoas diagnosticadas com depressão clínica ou fobias” e alerta para as implicações disso. Uma coisa é adiar tarefas ocasionalmente, outra é “procrastinar cronicamente”. Aqueles que se enquadram nesta última categoria, adverte ele, não estão mais lidando com um problema de gestão do tempo, mas sim com “um estilo de vida desadaptativo”.

"Ciclo irracional"

A questão não seria relevante se fosse simplesmente uma questão de preguiça, algo que nos impede de sermos mais produtivos. O problema, como Charlotte Lieberman nos lembra no The New York Times, é que também "nos faz sentir mal" e envolve tomar decisões erradas conscientemente.

"As pessoas ficam presas nesse ciclo irracional de procrastinação por causa da incapacidade de melhorar o humor negativo em relação a uma tarefa", concorda Fuschia Sirois, professora de psicologia da Universidade de Sheffield, no Reino Unido.

Há até quem, como o pesquisador Tim Pychyl, acredite que a procrastinação não é, na verdade, um problema de gestão do tempo, mas sim de "regulação emocional". Diferentes teorias foram formuladas sobre suas causas e efeitos. Por exemplo, alguns a associam à "necessidade imediata de lidar com o humor negativo", enquanto outros acreditam que a procrastinação "exacerba" a ansiedade e o estresse.

"O alívio temporário que sentimos é o que realmente torna o ciclo tão vicioso", alerta Lieberman.

A ciência vem em nosso auxílio

O que Demócrito talvez não pudesse ter imaginado no século IV a.C. é a extensão em que nossos próprios corpos nos pregam peças. Nos últimos anos, a ciência tem se perguntado repetidamente por que somos tão tentados a adiar tarefas desagradáveis ​​e obteve respostas fascinantes.

Por exemplo, em 2018, um grupo de pesquisadores publicou um estudo na revista Psychological Science, no qual afirmam que existem duas áreas do cérebro que determinam a probabilidade de uma pessoa procrastinar. A chave: as conexões cerebrais.

A mesma pesquisa revelou que a procrastinação, na verdade, tem mais a ver com o gerenciamento das emoções do que com a eficiência na gestão do tempo. Aliás, alguns autores vão ainda mais longe e acreditam que, em sua essência, trata-se de uma questão que afeta a autorregulação emocional.

Uma questão de motivação?

Um dos estudos mais recentes sobre o assunto foi publicado há algumas semanas na revista Current Biology. Neste estudo, uma equipe de cientistas liderada por Ken-Ichi Amemori, da Universidade de Kyoto, explica como nossa tendência à procrastinação se deve basicamente a um fenômeno localizado em um circuito entre o estriado ventral (EV) e o pálido ventral (PV), uma região cerebral fundamental para questões como prazer e motivação.

O que os cientistas descobriram é (em linhas gerais) que o que nos leva a adiar tarefas não é se a promessa de recompensa é mais ou menos atraente, mas sim a rejeição de uma ação inicial, que pode funcionar como um "freio motivacional". Pode parecer estranho, mas Amemori explica que esse sistema "provavelmente desempenha uma função adaptativa e evolutivamente conservada".

O desafio é evitar cair no cenário sobre o qual Demócrito nos alertou há mais de 2.000 anos: que a procrastinação acabará por cobrar seu preço.

Imagens | WikipediaLuis Villasmil (Unsplash) e Brett Jordan (Unsplash)


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