Enquanto o Ocidente busca minas, a China construiu algo mais difícil de copiar: cursos universitários dedicados a elementos de terras raras

O domínio da China não se limita mais à geologia ou à indústria: o país também possui um grande número de especialistas dedicados aos elementos de terras raras

Imagem de capa | Dominik Vanyi e Arthur Wang
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Fabrício Mainenti

Redator

O Ocidente enfrenta um desafio assustador para quebrar o domínio da China sobre os elementos de terras raras. Mas o desafio não se resume a isso; Pequim passou décadas cultivando um grupo de especialistas com formação universitária. De acordo com uma investigação da Reuters, o país construiu todo um ecossistema educacional dedicado a esses minerais críticos.

O que está acontecendo?

Todos os anos, centenas de jovens estudantes chineses buscam diplomas universitários focados especificamente em elementos de terras raras, os 17 elementos que alimentam inúmeros dispositivos e tecnologias avançadas da nossa época, de motores a jato a carros elétricos, turbinas eólicas e muito mais.

A Reuters identificou pelo menos 11 universidades e faculdades técnicas que oferecem esses diplomas, com mais de 500 alunos matriculados anualmente, além de mais de 40 laboratórios especializados espalhados pelo país. Fora da China, segundo a mesma fonte, nenhuma instituição oferece um diploma universitário específico em elementos de terras raras.

Por que isso importa?

A China processa mais de 90% dos elementos de terras raras refinados e ímãs do mundo. Além de minas e fábricas, também são necessárias pessoas que saibam extrair e separar elementos com composição química quase idêntica, um processo tecnicamente complexo e caro. E a vantagem de Pequim, além de seus pontos fortes geológicos e industriais, é que também possui esse talento.

Em detalhes

Como explica o artigo, muitas dessas escolas e laboratórios estão concentrados perto das grandes minas. Um exemplo é Baotou, na Mongólia Interior, a cerca de 150 quilômetros do maior depósito de terras raras do mundo.

Lá, a Universidade de Ciência e Tecnologia da Mongólia Interior forma estudantes que recebem mais de 100 horas de instrução em disciplinas como química de terras raras e ciência dos materiais, algumas das quais são ministradas diretamente nas instalações de empresas do setor.

A indústria está tão intimamente ligada a essas escolas que é comum os alunos começarem a trabalhar imediatamente. “Na China, eu podia contratar jovens recém-formados e eles se tornavam produtivos instantaneamente; em qualquer outro lugar, eu precisava treiná-los por três anos”, explicou Constantine Karayannopoulos, ex-CEO da Neo Performance Materials e da Molycorp, à Reuters.

Nas entrelinhas

Algumas universidades reconhecem abertamente que estão formando agentes geopolíticos. Li Chaozhong, reitor do programa de terras raras da Universidade de Ciência e Tecnologia de Jiangxi (JXUST), declarou à emissora estatal CCTV que esses minerais são "moedas de troca essenciais" na política global e que o novo programa de sua universidade também visa garantir que a China mantenha sua liderança global no setor.

Os alunos da JXUST aprendem toda a cadeia de suprimentos, do processamento e metalurgia aos ímãs, e trabalham em projetos de pesquisa com empresas antes de se formarem.

Um contraste com o Ocidente

Embora o refino de terras raras tenha sido um domínio ocidental até o final do século XX, a indústria praticamente desapareceu da Europa e dos Estados Unidos e, com ela, o treinamento especializado. Como aponta a publicação, a mineração nunca foi particularmente atraente para os estudantes americanos, que muitas vezes a consideram uma indústria suja e ultrapassada.

Em 2023, instituições americanas concederam pouco mais de 200 diplomas de engenharia geral em mineração e metalurgia. Existem algumas exceções, como a Escola de Minas do Colorado, que está preparando novos centros de pesquisa com o Departamento de Energia, mas pouco mais.

Por que é tão difícil reduzir essa lacuna?

Nos últimos anos, a China intensificou as restrições à exportação de tecnologia e equipamentos de terras raras e, segundo fontes citadas pela Reuters, limitou o contato entre seus técnicos e estrangeiros, chegando a revogar os passaportes de alguns deles. O controle se intensificou após as tarifas do "Dia da Libertação", anunciadas por Donald Trump em abril de 2025.

E agora?

Os Estados Unidos começaram a agir, destinando bilhões de dólares desde 2024 para reconstruir sua expertise em mineração e propondo legislação para cooperar com aliados emergentes. O desafio reside em construir um conjunto de especialistas como o da China. Isso não é algo que se conquista da noite para o dia.

Imagem de capa | Dominik Vanyi e Arthur Wang


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